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Recado do editor

Na muda

Nestes dias ando meio quieto, sem encher vosso saco com minhas tiradas impertinentes e em geral malacabadas, por uma razão simples: “passarinho na muda não canta”.

Eu achava muita graça quando lia, nas colunas do jornal O Estado, os principais cronistas políticos usarem essa frase sempre que estava ocorrendo algum fato político importante. Ou em ano eleitoral, ou em mudanças no governo. Sempre que a fonte secava e as autoridades ficavam taciturnas e caladas, lá vinha, a certa altura do texto, o pitaco: “passarinho na muda não canta”.

No meu caso, não se trata de nenhuma mudança política ou coisa parecida. É apenas uma mudança de endereço. Acho que é a 14a mudança que Lúcia e eu fazemos, desde 1980. E, como quase sempre, não basta encaixotar, empacotar e sair. É preciso revisar toda a tralha, praticar o desapego e jogar fora o que precisa ser jogado fora.

Já é suficiente, com o passar dos anos, o peso que a gente carrega n’alma: não precisa adicionar caixas e caixas de papéis velhos, cacarecos de duvidosa utilidade, livros nunca lidos (ou lidos e detestados), “lembranças” de eventos que não deixaram nenhuma lembrança marcante…

E isso toma tempo, cansa e é tarefa que não pode ser delegada. Jogar fora um papel velho, de 30 anos ou mais, nunca é decisão simples. Agora imagina dezenas de quilos de papel. Por isso, caros leitores e leitoras que por aqui passam, dia após dia, qual pardais distraídos em busca de uma quirera ou até, quem sabe, de um alpiste, ando meio distante e calado.

Mas, nos próximos dias, encerrada a fase aguda da mudança, entro naquele período de suave ressaca (“alô, vocês vêm hoje instalar a banda larga ou não, pô?”) e em breve espero voltar à programação normal. Ainda a tempo de rir um pouco com a Dilminha Paz & Amor e com o Dr. Serra dos Genéricos.

Até já e bom feriado a todos.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Caro César, por experiência, conheço bem este momento que envolve decisões do tipo “isto fica”, “isto não fica”. Sugestão: compre 10 ou mais sacos de lixo de 100 litros e com a objetividade e frieza de um jogador de pôquer vá selecionando. Eu sei, eu sei, é duro e muitas vezes a garimpagem para porque alguma coisa chama atenção, boas ou más lembranças. Mas nada de hesitar, nem de lacrimejar. É assim que se aprende, mesmo depois de dezenas de mudanças.

    Posted by Helio A. Schuch | outubro 11, 2010, 16:50
  2. Hélio, fiz exatamente isso. E o caminhão da coleta seletiva da Comcap fez duas viagens, pra poder carregar tudo. Agora acho que estou portátil. Como gostaria de estar. Como acho que todos precisamos estar, para poder peregrinar por mares nunca dantes navegados e singrar terras nunca dantes palmilhadas.

    Posted by Cesar Valente | outubro 11, 2010, 17:47
  3. Cesar
    Acho que vou imprimir esse texto seu e colar na parede. Também estou de mudança e sofrendo para praticar o desapego e decidir quais coisas que me acompanham por décadas e que está na hora de jogar fora…
    boa sorte!

    Posted by vera sayão | outubro 11, 2010, 19:32
  4. É isso aí, César. Nada como uma mudança para escancarar o prazo de validade de muitas coisas.

    Posted by Helio A. Schuch | outubro 11, 2010, 23:20
  5. César, a regra é essa: você joga fora aquilo que acha que não vai mais usar e guarda o restante; põe o descartado no lixo e, no dia seguinte, sentirá falta de alguma coisa que foi embora.

    Posted by Ivonei | outubro 14, 2010, 22:10

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