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Eleições 2010

A ressaca das urnas

Mais uma vez chego à conclusão que o eleitor gosta de eleger aqueles políticos com perfil mais tradicional. No mau sentido. Só têm eleição garantida aqueles que praticam o clientelismo mais ortodoxo, conquistam eleitores fazendo-lhes favores de todo tipo e tamanho, com um caixa (1,2,3,4…) de campanha sem fundo, para usos diversos e, aí, heterodoxos. É fundamental também ter uma “carreira política”, mandatos sucessivos que permitam a manutenção permanente de uma equipe de servidores, pagos pelo dinheiro público, em campanha todos os dias de todos os anos.

O desempenho político propriamente dito não importa muito, já que a massa de eleitores não dá bola para o que sai nos jornais, muito menos nos blogs. E ninguém, rigorosamente ninguém, lê ou entende o Diário Oficial. O governo LHS, como vocês sabem, publicou no Diário Oficial a maioria das grandes ações de duvidosa legalidade (até o escândalo do Natal do LHS/Dário está registrado lá). E isso não influenciou de forma significativa a eleição.

Mas os caminhos clássicos funcionaram muito bem: a secretaria da Infraestrutura, com seu cobiçado Deinfra, por exemplo, são fontes preciosas de “prestígio” (embora as más línguas digam que uma passagem por lá também reforça o caixa de campanha, pelo convívio com doadores desprendidos, compreensivos e generosos).

No escândalo que chegou ao STF e quase derrubou LHS, ficou claro: a imprensa não fede nem cheira. Disseram os juízes que uma rede de jornais cobrindo todo o estado, mais diversas reportagens e cadernos nos principais veículos, merecem multas por desrespeito à legislação eleitoral, mas não são suficientes para influenciar o resultado da eleição.

A minha conclusão disso tudo é que a maioria dos eleitores não está preocupada com a qualidade dos eleitos. Sequer se preocupa com a honestidade deles, muito menos com sua capacidade de fazer alguma coisa que preste. Preocupa-se, isso sim, em saber se é pessoalmente generoso, se arranja empregos onde não se precise trabalhar muito, se abre portas, se manda cartão de aniversário, se comparece aos velórios, se resolve problemas, preferencialmente debaixo dos panos.

Esse eleitor tem uma ajuda substancial dos partidos políticos, agremiações paradas no tempo, que de ideológicas não têm nada, voltadas unicamente para resultados e para a consagração de sua elite dirigente (ou corrente dirigente, o que dá na mesma). A escolha dos candidatos é exemplarmente demonstrada com o fenômeno Tiririca: se é conhecido e capaz puxar muito voto, pode ser uma titica. Não importa, de nenhuma maneira, quem é o candidato. Importa se é um radialista conhecido, se é um líder comunitário populista, com um grande curral, se é rico o suficiente para bancar os custos elevadíssimos de uma eleição. Ou se é extensão autorizada de um político “consagrado”: filhos, esposas, amantes.

Não é à toa que as “caras novas” custam tanto para surgir. Nesta eleição mesmo, a enorme maioria dos eleitos é figurinha manjada dos parlamentos e cargos executivos. Um ou outro acidente até pode ocorrer, mas são exceções que confirmam a regra.

Só espero que o novo governador de SC, que tem um jeitão diferente do LHS, consiga governar de outra forma. Não completamente diferente, é claro, porque afinal faz parte da mesma coligação e está sujeito às mesmas pressões gulosas que quase devoraram seu antecessor. Mas com um estilo menos rococó, menos deslumbrado, menos xenófilo e mais afeito à legalidade.

Se bem que, se o LHS foi o que foi, fez o que fez, disse o que disse e sai das eleições consagrado, pra que achar que tem que ser “melhor”? Pra satisfazer a uma meia dúzia de idiotas cheios de opinião que, como se viu, não elege nem derrota ninguém?

Como em toda ressaca, logo cedo a gente vê o mundo de cabeça pra baixo e aquele gosto de pelo de gato no cabo de guardachuva que repousa sobre a língua, não deixa pensar direito. Mas aos poucos, à medida em que nos hidratamos, tudo volta ao normal e recomeçamos a achar que, se a gente fizer tudo direito, um dia a coisa melhora.

Até a próxima eleição.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Isso é uma carta de despedida?
    Vais parar de fazer críticas políticas????

    Posted by Artur de Bem | outubro 4, 2010, 13:09
  2. Tio Cesar, parabens pelo texto de hoje!LÚCIDO E VERDADEIRO!!!

    Posted by maria mara | outubro 4, 2010, 13:10
  3. É… LHS, Maluf,.. é pra coibir essas candidaturas e frequentes eleições que a Ficha Limpa deveria estar vigente. STF dormiu na bola, ou serviu a interesses escusos?

    Posted by Henrique Jucá | outubro 4, 2010, 13:24
  4. Bem (??) disse o deputado gaúcho Sérgio Moraes, que estava “se lixando” para a opinião pública.

    Posted by Fernando Silva | outubro 4, 2010, 13:28
  5. Artur, como disse no texto, o desânimo é só consequencia da ressaca. Daqui a pouco volto a jogar pedra na vidraça e a dizer que o rei está nu.

    Posted by Cesar Valente | outubro 4, 2010, 17:19
  6. É isso aí, César.
    A vida política deve ser norteada pela ideologia, probidade e capacidade. Deveria, é claro. Mas prevalecem os interesses escusos, sejam pessoais ou de grupos. Não fossem esses escusos (muitos obscuros) interesses e a política seria fascinante. Por enquanto é fascinante apenas para os interessados. É uma classe com pensamento e comportamento próprios onde as vantagens pessoas são normais e o clientelismo uma obrigação.

    Posted by Schneider | outubro 4, 2010, 17:39
  7. Tio Cesar,

    Teu texto é um bálsamo para quem foi derrotado “sem perder”!
    Continue tua saga, como alguns políticos, que, mesmo sendo grandes, perdem eleições!
    Triste Santa Catarina, de pretérito orgulho!

    Posted by lf | outubro 4, 2010, 19:16
  8. Muito boa sua explanação, parabéns!
    A culpa, sem dúvida, é do eleitor alienado, viciado em bolsa-família e que coloca esse tipo de gente lá. Somente investindo massivamente em EDUCAÇÃO conseguiremos que pessoas comprometidas com o bem-comum ocupem o lugar desses marginais da política. Mas não desanimemos, há sempre a esperança de ressurgir um outro Centurião Marcus Flavinius que dê o ultimato: CUIDADO COM A CÓLERA DAS LEGIõES!
    Eugênio Moretzsohn
    Fpolis

    Posted by EUGENIO MORETZSOHN | outubro 4, 2010, 20:40
  9. Caro,

    Tb reforcei essa sensação de que os eleitores acabam votando nos “piores”. E imagino que essa eleição foi ainda mais cara que a anterior. Mais votos foram comprados, direta e indiretamente, imagino.
    A política, a conscientização, o convencimento foram substituídos pelo dinheiro, pelo favor, pela migalha …

    Posted by Alexandre | outubro 4, 2010, 21:00
  10. Política e politicalha
    A política afina o espírito humano, educa os povos, desenvolve nos indivíduos a atividade, a coragem, a nobreza, a previsão, a energia, cria, apura, eleva o merecimento.
    Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, entre nós se deu a alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda todo o desprezo do objeto significado. Não há dúvida de que rima bem com criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem. Mas não tem o mesmo vigor de expressão que os seus consoantes. Quem lhe dará o batismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo pejorativo queima como ferrete, e desperta ao ouvido uma consonância elucidativa.
    Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente.A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis.
    A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou um conjunto de funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.
    Rui Barbosa. Trechos escolhidos de Rui Barbosa.Edições de Ouro: Rio de Janeiro, 1964.

    Posted by Marga | outubro 4, 2010, 23:04
  11. É Tio César, triste Estado, triste país. Fico confortado, que não estou sozinho neste desalento. Depois de cada pleito eu penso que estou errado é o “mundo” certo.

    Posted by Joanildo | outubro 5, 2010, 08:30
  12. Será que os Amins terão forças para tentar mais uma eleição para governador. Acredito que o grande problema do partido é a falta de renovação que está o matando aos poucos

    Posted by Antonio Carlos | outubro 5, 2010, 11:59

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