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Política

O manifesto em defesa da democracia

Foi lançado hoje em SP um manifesto com o objetivo, segundo seus organizadores, de “brecar a marcha para o autoritarismo”. Não por acaso, o movimento nasce num momento em que o presidente da República lança ataques quase diários à liberdade de informação e expressão, criticando a imprensa por expor os malfeitos que rondam a Casa Civil e outros órgãos de seu governo.

Entre seus signatários iniciais estão o jurista Hélio Bicudo, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, os cientistas políticos Leôncio Martins Rodrigues, José Arthur Gianotti, José Álvaro Moisés e Lourdes Sola,o poeta Ferreira Gullar, d. Paulo Evaristo Arns, os historiadores Marco Antonio Villa e Bóris Fausto, o embaixador Celso Lafer, os atores Carlos Vereza e Mauro Mendonça e a atriz Rosamaria Murtinho.

Leia abaixo a íntegra do manifesto em defesa da democracia. E, se achar que deve, clique aqui para entrar no site que permitirá o registro de sua assinatura (nome, e-mail e rg). Segundo os organizadores, na primeira tarde no primeiro dia de coleta de assinaturas na internet, o número de apoiadores já ultrapassou cinco mil quinze mil.

Manifesto em Defesa da Democracia

Numa democracia, nenhum dos Poderes é soberano. Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.

Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

É inaceitável que militantes partidários tenham convertido órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais em valorizar a honestidade.

É constrangedor que o Presidente não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há “depois do expediente” para um Chefe de Estado.

É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no “outro” um adversário que deve ser vencido segundo regras, mas um inimigo que tem de ser eliminado.

É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e de empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.

É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É deplorável que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis.

Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las.

É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo. Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos.”

Mesmo que você não se sinta à vontade para assinar o manifesto, pelo menos pense um pouco sobre o que aí está dito e sobre o que está levando tanta gente a achar que é necessário tomar posição pública em defesa da democracia.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Não acredito muito em assinaturas virtuais de protestos.

    Acho que só haverá efeito se em cada cidade deste país, uma pessoa, preferencialmente conhecida do público, subir em um caixote em frente a um terminal de ônibus e de Universidades e ler em voz alta os termos deste Manifesto.

    É preciso repetir esta mensagem nos meios de comunicação e, em alguns programas de alcance popular, explicar o que está sendo dito em alguns parágrafos.

    Mas, cadê a coragem e o ânimo da oposição?

    É nesse silêncio que as decisões de votos vão se formando.

    Posted by Mauricio | setembro 22, 2010, 23:13
  2. Foi o que faltou nos últimos oitos anos. Cidadãos alertando para a desfaçatez dos políticos em geral. Na federal, nos estados e nos municípios. E isso não é fazer oposição a esse ou aquele partido.

    Posted by Victor Carlson | setembro 23, 2010, 08:01
  3. Cesar, já que estás escrevendo sobre democracia na imprensa dá uma lida neste link escrito pelo Luiz Claudio Cunha. Veja como funciona a democracia na mídia do RS, seria diferente em outros estados? Não é a favor da Dilma, é sobre o JÁ, do Bicudo, o Elmar Bones. Boa leitura e ótimos pensamentos.

    http://sul21.com.br/jornal/2010/09/desculpa-para-calar-a-opiniao/

    Posted by Duda Hamilton | setembro 23, 2010, 10:54
  4. Pior é ver “Lula – o Filho do Brasil” como candidato brasileiro ao Oscar.

    Foi escolhido “por unanimidade” por uma comissão do Ministério da Cultura.

    Detalhe é que o Ministério da Cultura promoveu uma votação via Internet para saber qual o filme preferido dos brasileiros a representar o país no Oscar. Que eu lembre, até o último dia o do “Nosso Guia” estava em 4º ou 5º lugar na preferência.

    Se isso não é culto à personalidade, nao sei mais o que é…

    http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4693886-EI1176,00-Lula+o+Filho+do+Brasil+e+candidato+brasileiro+ao+Oscar.html

    Posted by Fernando Silva | setembro 23, 2010, 15:29
  5. Jornalista Valente,

    Certo de que tua inteligência política e experiência profissional não permitiriam que vc embarcasse neste panfleto udenista, resta perguntar: quanto valeu tua alma?

    Posted by valdir almir passold | setembro 24, 2010, 13:06
  6. Ahahah, Valdir, não vendi nada. Nem emprestei. Nem aluguei. Mas gostei mais do “panfleto udenista” do que do movimento “progressista” em defesa do governo. Esse pessoal, a pretexto de combater oligopólios da mídia (coisa que, em si, tem lá sua razão de ser), embarcam na “moderna” tendência latino-americana, de reduzir o volume e o número de vozes discordantes, em nome de um “projeto de poder” vitalício.

    Posted by Cesar Valente | setembro 24, 2010, 15:03
  7. Pois digo que me sinto plenamente à vontade para assinar este manisfesto. Concordo com cada palavra, ponto e vírgula escrito nele.
    Acho bom a classe jornalística parar de pensar que não está acontecendo nada.
    O presidente da República já faz isso e esse não é, definitivamente, o nosso papel.

    Posted by Tatiana | setembro 24, 2010, 17:58

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