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Caraminholas

“Cala a boca!”

Antigamente, quando a família se reunia para algum almoço festivo, meu pai, um bom gozador que gostava muito de rir e se divertir, costumava advertir os irmãos, primos, sobrinhos, tios, etc, que deveriam evitar falar sobre “política, religião e futebol”, para que a coisa não acabasse em briga, bate-boca e desavenças.

Isso meio que saiu de moda, assim como andam escassos os grandes almoços com a família toda. Mas tem muita gente que não pode tocar em determinados assuntos sem que o sangue lhe suba à cabeça e baixe o espírito do torcedor fanático. E aí não tem como argumentar, como conduzir a conversa para o abrigo remançoso da troca de idéias e experiências.

A verdade é que são poucos aqueles que conseguem conviver numa boa com a liberdade de expressão. A liberdade propriamente dita, de um modo geral, ainda incomoda. Parece que a boa liberdade é aquela sobre a qual temos controle. É ótimo ver a vizinha gostosa com sua sainha curta, mas a filha não pode nem pensar em usar coisa semelhante.

Ler, ouvir ou ver coisas desagradáveis sobre alguém que a gente admira (ou sobre nosso time do coração), é horrível. Falar mal do que nós gostamos é coisa de gente malamada, de imbecis, de incompetentes, de vendidos a serviço do mal. O mundo ideal seria aquele em que a liberdade de expressão tivesse limites claros, impostos por nós (ou por alguém em quem a gente confia).

Mas a liberdade é assustadora e fascinante justamente porque não admite meio termo. Ou a gente é livre e se sente livre, ou a gente não é. Se eu tenho medo de falar o que acho da Dilma, da forma como Lula me decepcionou e como a falta de uma ação firme contra corrupção no serviço público me incomoda, então não sou livre.

A Constituição e as instituições brasileiras, contudo, asseguram a liberdade de expressão. E eu posso dizer, sem medo, o que gosto, o que não gosto e dar minha opinião sobre qualquer coisa. Mas…

Grupos que encaram a politica como um campo de futebol, que buscam o poder pelo poder, com os fins justificando todos os meios, incomodados com a parcela da população que pensa diferente deles, resolveram relativizar a liberdade. Criticar o governo é baixaria. Publicar denúncias é mentir. Dizer algo negativo sobre os ídolos, é tabu. Todo o resto pode-se dizer ou fazer, desde que o governo fique fora da conversa.

Por enquanto esses fanáticos não representam uma ameaça física àqueles que exercem a liberdade de expressão garantida pela Constituição. Mas temo que seja só uma questão de tempo para que os ataques verbais se transformem em algo mais “efetivo”, para fazer com que os rebeldes e desviados do bom caminho entendam “os necessários limites da liberdade”.

Demonizar a “imprensa burguesa”, é um passo ambíguo, mas importante para mostrar que a liberdade é relativa. Ambíguo porque dá uma importância aos formadores de opinião e à grande imprensa que eles não têm. Mas para que a luta seja heróica, é preciso dizer que o inimigo é grande e poderoso.

Jornalões que vêm perdendo anunciantes e leitores, imprensa que se debate, há alguns anos, com enormes dilemas existenciais, de repente são promovidos a dragões fumegantes capazes de — ora vejam só! — virar uma eleição apenas publicando “mentiras”. Não dá pra entender. Ou melhor, é fácil de entender.

Eu, cá do meu canto, vou continuar desagradando quem eu quiser desagradar e dizendo o que me der na telha. Porque, como todos esses que hoje reclamam do excesso de liberdade, sonhei durante toda a minha juventude com o dia em que poderia, no absoluto e sempre subversivo excercício da liberdade que levamos anos para conquistar, falar contra, a favor, muito antes pelo contrário, sem sofrer, por causa das minhas opiniões, qualquer restrição.

Aí fico triste em ver que chegamos a um ponto em que o Estado e sua Constituição defendem a liberdade, mas um bando de analfabetos políticos, metidos a mestres da esquerda de resultados, querem acabar com ela. E pensar que, há algumas décadas, a gente sofria porque, embora muita gente lutasse pela liberdade, o Estado é que era repressor e intolerante.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Parabéns pelo texto. Sou eleitor de Dilma, reconheço que as denúncias contra a candidata são graves, o que questiono é o porque de só agora serem divulgadas. Estas denúncias devem ser investigadas e consequentemente punir os culpados. Fico preocupado com o radicalismo de ambas as partes, pois elas podem estragar um momento importantíssimo que é a escolha de um presidente, caindo-se em um debate improdutivo, carregado de ódio, preconceitos, não dando-se espaço ao debate de idéias propostas (com qualidades) parapodermos ter um país cada vez melhor. E o mais im portante eleições se vence no voto consciente, convencendo o eleitor do que é o melhor para ele. Neste loucura que está virando estas eleições, o teu texto foi o melhor e mais maduro que li meste momento confuso, por isso parabéns.

    Posted by Edson | setembro 21, 2010, 23:10
  2. Cesar, não ter patrão já é um caminho. Mostrar a realidade diferente da verdade que o sistema dominante quer nos incutir é a grande subversão !!!!
    Eu sou duro mas sou livre…e feliz!
    Abraço
    Canga

    Posted by Canga | setembro 21, 2010, 23:36
  3. O problema, para mim, é não assumir uma posição.

    Carta Capital e Caros Amigos, por exemplo, pelo menos, assumem claramente o que defendem.

    Veja, Época, Folha, etc., tentam, tolamente, passar um discurso de “imparcialidade”. Eles brincam com a inteligência do leitor.

    Não vejo problema nenhum que alguém leia estas revistas, concorde e até repasse suas informações. Mas vejo um problema terrível quando compram o discurso de liberdade de imprensa, imparcialidade, democracia, bla, bla, bla. Esse é o último interesse desses caras.

    Já dizia Claudio Abramo, não há liberdade de imprensa, há liberdade de empresa.

    Posted by Marcos | setembro 22, 2010, 11:59
  4. Censura e propaganda: teve um regime que fez sucesso no entreguerras seguindo essa cartilha. Se a filosofia da esquerda se inspira Carl Marx, a política da esquerda se inspira em Alfredo Oriani.

    Posted by Pedro Lemos | setembro 22, 2010, 12:49
  5. A liberdade – e aqui estou falando de quaisquer liberdades constitucionalmente asseguradas – só poderão encontrar limites ou restrições quando o seu exercício esteja colidindo, no plano prático, com outras garantias constitucionais de igual ou maior relevância. Apesar de contarmos com uma Constituição bastante liberal, comparável, neste aspecto, à Constituição norte-americana, a sociedade brasileira, como um todo, ainda não está habituada a lidar com o exercício alheio da liberdade. Temos um viés autoritário muito forte. Basta que ver, em nossa história, governos populistas não tiveram qualquer dificuldade em nos impor restrições.

    Posted by Guilherme Bossle | setembro 22, 2010, 12:52
  6. O mais ridículo nisso tudo é que quando o PT era oposição, usava e abusava da liberdade de imprensa e de expressão, e nunca vi o FHC falar que ia tolher o direito de alguém se expressar ou “exterminar” algum partido político por conta da posição política. Tinha até um procurador famoso que, dizem, passava informações à imprensa e depois, com base nas notícias, abria processos contra o governo.

    Posted by carlos | setembro 22, 2010, 15:49

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