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Jornalismo

O mito da objetividade

Gosto muito de exercitar a síntese, mas ainda tem alguns temas que não consigo debater com apenas 140 caracteres, no tuíter. Hoje de manhã escrevi alguma coisa lá, sobre a ojeriza que muitos militantes estão sentindo de jornais e revistas que publicam denúncias contra o governo ou contra seus candidatos.

E quando o @Damiao_ND começou a querer discutir o assunto, percebi que não dava pra ir muito adiante porque faltava, àquela ferramenta e àquele ambiente, um espaço que permitisse explicar um pouco melhor o que se quer dizer.

O “round” começou, acho, quando resolvi publicar a seguinte tuitada:

Qual seria o proc “correto” dos jornais: ignorar as denúncias? falar mal de quem fala mal do governo? criticar com luvas de pelica?

É uma dúvida sincera, mais do que uma provocação matutina. Se os jornais e revistas que publicam as denúncias são acusados de cometer crime de lesa-majestade, se qualquer crítica mais ácida ao governo é taxada de “baixaria”, se toda e qualquer manifestação crítica é imediatamente acusada de estar sendo paga por algum partido ou candidato de oposição, então como, no entender dos militantes que têm esse ponto de vista, deveria proceder a imprensa?

Aí o Carlos Damião (o @Damiao_ND, no tuíter), me disse o seguinte:

@cvalente O denuncismo pelo denuncismo é sinônimo de fascismo, de falso jornalismo, de panfleto partidário. É isso q acontece.

E esbarrei nas limitações do tuíter. Como é que se responde a isso, em 140 caracteres, colocando uma posição contrária com um mínimo de profundidade, para que não pareça que eu defendo o mau jornalismo? Enquanto pensava nisso (e fazia outras coisas, porque meu nome é Multitarefa, hehehe), o Damião veio com outra tuitada, que naturalmente tentava me encostar naquele corner clássico: quem defende uma imprensa crítica e a liberdade de expressão, frequentemente tem que lidar com a associação disso ao tal “mau jornalismo”.

@cvalente Denunciar, apresentar provas, ouvir 2 lados c/equilíbrio, deixar leitor tirar s/conclusões. É básico bom jornalismo

Aí ele continuou, em várias tuitadas, tocando o assunto. Como já disse, não sou muito de fragmentar um texto e ir publicando-o aos pedaços. Tem vários que fazem isso, até com sucesso, como o @neiduclos e o @nilsonlage, mas eu não consigo. E resolvi que continuaria o debate aqui.

E, ao sair do ringue, deixei uma tuitada/provocação (acho que uma das funções mais legais do tuíter é justamente a provocação: a gente joga uma pedra na vidraça e corre… pra jogar outra pedra em outra janela).

Pelo que li nas tuitadas do Damião, ele está com os governistas, na abominação ao PIG, veículos que “denunciam, processam e julgam”. E na condenação à “falta de ética dessa mídia varejeira”.

@Damiao_ND ok, ok, já tens teu veredito fechado sobre a imprensa “varejeira”. Que bom. Já eu, tou cheio de dúvidas. :-)

E já que estou com a mão no teclado, vou aproveitar também para tocar num assunto que volta e meia aparece nos comentários: a (im)parcialidade jornalística.

Em época de eleição a coisa ressurge com maior força, é claro. Todos os partidos e candidatos costumam guardar munição, ao longo de anos, para usar na campanha. Às vezes usam, às vezes guardam para a próxima.

E aí chegamos àquela pergunta inicial: chega alguém na porta da redação com uma bomba. Uma denúncia grave, plausível, que uma vez checada (do jeito que for possível), continua se sustentando. O que deve o jornal fazer?

Antes de continuar, vamos lembrar que praticamente jornal nenhum, nessepaís, tem praticado o bom e saudável exercício da reportagem. Os “fatos novos” que surgem ao longo do ano têm origem, na sua maioria, em vazamentos de investigações policiais, em denúncias internas, essas coisas. Do trabalho jornalístico de reportagem (que é sempre investigativa, porque são sinônimos), quase nada tem nascido. Porque não existe mais habitat adequado para repórteres nas redações e as empresas jornalísticas não querem mais sustentar “essa raça”.

Pois bem, sem repórteres e portanto sem ter como desenterrar seus próprios cadáveres, chegamos ao momento em que alguém coloca, no colo do chefe de redação, um reluzente esqueleto, tirado do armário de alguém muito importante. O que deve fazer o jornal? Denunciar o denunciante? Fazer de conta que não viu e calar?

É um dilema complicado. Que já enfrentei algumas vezes, nas ocasiões em que tive cargos de chefia em empresas jornalísticas. E qualquer que seja a decisão, a gente sempre fica pensando se tomou o caminho certo. E o que teria acontecido se tivesse escolhido outra trilha.

Os militantes que xingam os jornalões e as revistas que ousam criticar o governo que eles apoiam e até, quem sabe, veneram, desenvolveram um péssimo hábito: são bipolares na rotulagem. Ou estás comigo, ou estás a favor do tucano. Não existem posições intermediárias. Não posso achar ruim o poste sem estar, automaticamente, a serviço do Serra. Assim como não posso achar importante que todo tipo de denúncia contra o governo seja publicada, sem estar a soldo da Veja. Ou, pior, não posso gostar de ver o governo ser criticado e não gostar do jeito que a Veja faz isso.

Só que o mundo não é preto e branco. É colorido, cheio de nuances. É perfeitamente possível alguém achar a Dilma uma péssima escolha e também não gostar do Serra, nem de nenhum outro candidato. Assim como é possível alguém achar que a Veja não é o ó do borogdó, que aumenta, inventa e até talvez minta, mas que também é possível que a coisa tenha algum fundamento, porque gerou demissões, investigações, etc e tal. Entre a completa negação e a completa aceitação, existe um mundo que não podemos ignorar.

Todo veículo de comunicação faz escolhas, tem preferências, ajusta as coisas à sua linha editorial. Quando, num universo de zilhões de pautas, a gente escolhe meia dúzia para cobrir, está selecionando uma parte desse universo para destacar. Quando, num elenco de várias matérias, escolhe uma para “abrir a página” (ficar no alto), para ter mais espaço, para ocupar mais tempo, para ser melhor ilustrada, estamos dizendo ao leitor, claramente, o que achamos importante.

E ao fazer uma reportagem, escolhemos as fontes e, do que as fontes nos dizem, selecionamos o que achamos relevante. E do que apuramos de relevante, separamos aquilo que vai iniciar o texto, que terá mais impacto no leitor. Reportagens sobre o mesmo evento, feitas por dois repórteres, serão diferentes. Não no relato essencial, mas na construção, no enfoque, no olhar geral. E o editor, ao escolher o que irá para o título, para a manchete, estará igualmente ofertando ao público a sua visão de mundo.

Portanto, não tem sentido falar em imparcialidade. Pode-se falar em equilíbrio, em fazer tudo isso desapaixonadamente. E em tratar com profissionalismo as informações, deixando a opinião para as colunas de… opinião. Mas a objetividade é, sem dúvida, um mito.

E, quer os governistas gostem ou não, jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados. Por que teria Millor Fernandes engendrado essa tirada? Porque todos sabemos que os donos de jornais gostam muito de fazer negócios lucrativos com governos. Usam seus veículos como balcão de negócios. O que Millor não diz, mas está subentendido, é que também não se trata de fazer oposição a serviço dos opositores institucionais, dos partidos de oposição. Porque aí, de novo, haveria o balcão de negócios, o armazém. Oposição como o necessário olhar crítico e fiscalizador sobre quem é mantido pelo dinheiro público para prestar um serviço público, sem negociar, é o que mantém vivo o jornalismo.

“Ah, mas tem que ser uma crítica construtiva”, costumavam dizer na época dos governos militares, os mortos de medo da liberdade de expressão. Não acho. Porque é componente intrínseco da vida pública o telhado de vidro e a exposição em praça pública. Ser vaiado é tão do jogo quanto ser aplaudido. E a intriga, a futrica, a calúnia e a difamação são parte da vida política. Ah, mas só é difamação quando é comigo, quando é com o adversário é denúncia fundamentada? Pois é, assim é a vida.

Portanto, caro @Damiao_ND, aí está o que penso. Tá certo que, em 7 mil e tantos caracteres, não é grande vantagem. Mas não sei se quero chegar ao ponto de conseguir resumir tudo e qualquer coisa em 140 toques.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Não existem posições intermediárias na hora de votar né, voto é decisão.

    E quando você diz:
    “Oposição como o necessário olhar crítico e fiscalizador sobre quem é mantido pelo dinheiro público para prestar um serviço público, sem negociar, é o que mantém vivo o jornalismo.”

    Você acha mesmo que é essa oposição “saudável” que a grande imprensa vem fazendo? Ou é que simplesmente toda a oposição é saudável, então é válido jogar a merda no ventilador?

    Posted by Galeno Lima | setembro 20, 2010, 20:08
  2. Concordo plenamente com você.

    Este processo eleitoral está fornecendo material para um novo “Ensaio Sobre a Cegueira”.

    Fico impressionado como são impregnadas de parcialidade as opiniões de algumas pessoas, justamente quando estão reclamando que textos veiculados na imprensa seriam parciais.

    Concordo também sobre a impossibilidade de se falar em 140 caracteres. Sou prolixo, e pronto!

    Posted by Mauricio | setembro 20, 2010, 20:09
  3. Não conhecia teu blog, não te seguia no twitter. Adorei o texto! Direto ao ponto. E, graças!, não foi resumido em 140 toques. Ninguém merece semelhante superficialidade num mundo que merece, cada vez mais, profundidade.
    Obrigada

    Posted by Lucia Freitas | setembro 20, 2010, 20:12
  4. Acompanhei o debate pelo Twitter, concordando com os dois. Não dá para confiar plenamente em Veja ou Carta Capital, pelo viés claro que têm. Mas não dá para automaticamente descartar o que esses veículos dizem só porque têm viés. É o mesmo que fazemos com as fontes, não é? Ouvimos o deputado do partido tal e levamos em consideração que o que ele diz pode ter aquilo que os americanos chamam de “bias”. E tem mais uma coisa, que escrevi no twitter dia desses: não gostou, não confia, não leia. Eu, mesmo, tenho lido só portais de notícias e jornalões de fora do país. Jornalismo é também produto. E se a gente não gosta desse produto, não compra.
    Abraços e parabéns pela serenidade do texto, apesar do tema clamar por uma discussão mais acalorada.

    Posted by Giancarlo Proença | setembro 20, 2010, 20:19
  5. Ave, César!
    Aproveito o título (O mito da objetividade), não para entrar no mérito da questão da relação “imprensa/política/denúncias” e etc.
    Fiquei impressionado/preocupado com a objetividade dos colóquios (puts!.. que palavra antiga!)das falas entre você e Damião. Comentário vira coment, Procedimento vira proc e por aí vai.Sei que é linguagem coloquial e vale.Mas… mas, Cê é o newspaper(?) e Cquisab se esses “KolóKios” não poderão se tornar “monolóquios” ou se está iniciando um proc de “return” ao idioma d Babel. Ainda entendi a conversa, mas, até Kdo? Abr

    Posted by waltamir | setembro 20, 2010, 22:39
  6. Waltamir: o problema é o limite de toques. Aí, quando precisa fazer caber, a gente abrevia o que dá. Aí, se o sujeito começa a gostar de falar em código, cai na armadilha. Mas eu tento resistir, trazendo pra cá algumas conversas. Sem limite de toques.

    Posted by Cesar Valente | setembro 21, 2010, 00:02
  7. Galeno, certamente não temos a oposição dos nossos sonhos, nem no lendário watchdog of democracy, nem nos próprios partidos de… oposição. Mas alguma coisa, ainda que torta, é melhor que a unanimidade ou a pax romana, né não?

    Posted by Cesar Valente | setembro 21, 2010, 00:05
  8. Eu fico imaginando se um trabalho semelhante ao de Bob Woodward e Carl Bernstein fosse feito no Brasil, como reagiriam aqueles que adoram rotular os que criticam o governo como integrantes do PIG. No Brasil, ainda não sabemos verdadeiramente o que vem a ser liberdade de imprensa e de expressão. Quando se exige “imparcialidade” da imprensa, nada mais se faz do que restringir a sua liberdade. Quando se critica, por exemplo, a revista Veja, não se percebe que, gostemos ou não do que ela publica, trata-se de um exercício saudával de liberdade, melhor dizendo, liberdade de criticar um governo extremamente popular às vésperas de uma eleição.

    Posted by Guilherme Bossle | setembro 21, 2010, 08:26
  9. Tem gente que briga com os fatos, e nesse governo isso virou moda.

    Posted by Victor Carlson | setembro 21, 2010, 09:58
  10. Acho q falta aos jornalistas um pouco do pragmatismo que os cientistas procuram ter ao publicar seus tarbalhos.

    Primeiro: deve-se expor todos os vieses do autor/veículo, logo a editoria deveria explicitar sua posição política. Desta forma podemos avaliar as notícias com o prisma correto.

    Segundo: não é só o outro lado que deve ser exposto mas o que é certo e o que é dúvida. Deve-se colocar o peso certo nas fontes e informações. Mania besta esta dos jornais exporem tudo como certeza.

    Terceiro: deve-se expor as escolhas tomadas pelo jornal, quando elas foram feitas – porque procurou-se uma fonte e não outra? Havia outras fontes?

    O problema, enfim, é tanto o que os jornais escrevem quanto o que deixam de escrever. Eles vêm com cenários fechados e escondem os problemas de suas histórias. E depois descobrimos que a apuração das histórias “bombástica” foi incompleta ou falha… e nunca há espaço para a correção.

    Posted by Carlso Hotta | setembro 22, 2010, 10:38
  11. Concordo em boa parte do que dizem. O jornalista faz um recorte de recorte de um fato. Isso é subjetivo e não há como não sê-lo. Mas certos veículos carregam nas tintas contra o Governo Federal e seus candidatos. Pelo menos, há quem pense assim. Se existem setores que não concordam com a cobertura, será que eles não têm o direito de protestar contra os veículos que praticam o mal jornalismo, na concepção deles? Querer chamar isso de censura não é se vitimizar? Ou, pior ainda, acusar mais uma vez o “pessoal do outro lado”?

    Posted by MMaurição Lima | setembro 22, 2010, 17:25

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