// você está lendo...

Eleições 2010

Ciência política (ou quase)

Todo ano eleitoral republico alguns posts referentes a esse processo tão misterioso quanto engraçado, que é a campanha política. A releitura da crônica abaixo continuará valendo enquanto os políticos continuarem apostando na memória fraca e no coração complacente do eleitor, para escaparem de todas as acusações, suspeitas e mesmo condenações. Os mais velhos já conhecem esse personagem político escorregadio, mas deve ter muito jovem que vai votar pela primeira vez, que ainda não sabe direito o que é de fato o tal “candidato teflon®”:

O CANDIDATO TEFLON®

MAIS UM ESCORREGADIO CURSINHO DE
PSEUDO-CIÊNCIA POLÍTICA DO TIO CESAR

A história do Teflon® começa em 6 de abril de 1938, no Laboratório Jackson, da DuPont, em Nova Jersey, EUA. O químico Dr. Roy J. Plunkett (foto ao lado), da Du Pont, estava trabalhando com gases relacionados com o resfriador Freon®, que é outro dos produtos da empresa. Ao conferir uma amostra comprimida e congelada de tetrafluoretileno, o Dr. Plunkett e seus companheiros descobriram que a amostra tinha polimerizado espontaneamente, formando um politetrafluoretileno (PTFE).

O PTFE é inerte a virtualmente todos os químicos e considerado o material mais escorregadio existente. Essas propriedades o tornaram uma das tecnologias mais versáteis e valiosas já inventadas, contribuindo para avanços importantes nas áreas aeroespacial, comunicações, eletrônica, processo industrial e arquitetura.

A marca Teflon®, registrada pela DuPont em 1945, tornou-se um nome familiar nos lares do mundo todo, pelas suas propriedades anti-aderentes, associadas ao seu uso como revestimento de panelas e frigideiras e como proteção anti-manchas em tecidos e produtos têxteis.

O Dr. Roy Plunkett, falecido em 1994, é reconhecido pela comunidade científica internacional como um dos grandes inventores de todos os tempos, equiparado, por exemplo, a Thomas Edison e Louis Pasteur.

UM NOVO USO

No Brasil, a imprensa irreverente e desrespeitosa tem usado a marca Teflon® para identificar aqueles candidatos a cargos eleitorais que parecem ter sido recobertos pela prodigiosa película anti-aderente.

Quando um candidato, em plena campanha, recebe uma condenação do Tribunal de Contas da União e é obrigado a devolver R$ 500 mil e sua popularidade não é nem arranhada com o anúncio desse malfeito, podemos suspeitar que estamos diante de um candidato Teflon®.

A comprovação, no entanto, só virá se, por acaso, uma instituição como a Associação dos Magistrados Brasileiros informar publicamente que o candidato responde a cinco processos por improbidade administrativa. Se, mesmo com esse anúncio, as pesquisas não detectarem qualquer abalo nas intenções de voto, então, definitivamente, temos aí uma ampla cobertura de Teflon® no candidato.

O produto, como vimos acima, é prodigioso. É imune a praticamente todos os produtos químicos e é mais escorregadio do que limo no costão. Nada gruda, nada cola e quase nada o corrói.

O candidato Teflon® pode, sem grandes preocupações, mudar de partido a cada eleição, mesmo que no País tenha ocorrido uma discussão sobre fidelidade partidária e tenham sido estabelecidas punições para os infiéis. E, já que nada acontece com ele e sua popularidade, pode até se candidatar por um partido e ir ao município vizinho fazer campanha contra o candidato de seu próprio partido. O Teflon® o protege inteiramente.

Ao contrário do polímero da DuPont, porém, esse Teflon® alegórico que certos jornalistas metidos a engraçadinhos tentam sarcasticamente aplicar sobre alguns políticos, não é completamente eficaz, embora pareça. Funciona maravilhosamente com o eleitor distraído, que gosta de votar “em quem vai ganhar”. Mas há sempre o risco do excesso de confiança provocar um desgaste súbito da película anti-aderente, com resultados imprevisíveis.

EM TEMPO

O fato de ser protegido por uma camada antiaderente é, de certa forma, uma qualidade. E o candidato não tem nada que se envergonhar dessa propriedade, ao contrário.

Quando publiquei a crônica acima pela primeira vez, uns torcedores mais exaltados do Dário vestiram a carapuça (de Teflon®) e encheram minha caixa postal de comentários. Os mais simpáticos me chamavam de “jornalista Teflon®”. Naturalmente tentando me ofender. Mas como considero o uso dessa película um avanço tecnológico em prol do bem-estar da humanidade, acabei foi ficando lisonjeado.

Outros, depois de xingar minha falecida mãe e dizer várias coisas impublicáveis, terminavam com uma espécie de grito de guerra: “os cães ladram e caravana passa”. Claro, uma caravana coberta de Teflon® desliza com facilidade pelos ambientes mais inóspitos.

E tinha aqueles que falavam, falavam, falavam, depois diziam que não deveriam dar atenção a “um jornalistinha que não tem mais que seis leitores”. Novamente, acho que queriam me ofender, mas acabaram me lisonjeando mais uma vez: afinal, se mesmo tendo apenas seis leitores dedicam tanto tempo e esforço pra me desqualificar, então é porque esses seis leitores são muito especiais. Provavelmente formadores de opinião.

Ah, isso de seis leitores é mentira: fiz as contas e só de primos e primas, filhos, mulher oficial e meia dúzia de seguidores e seguidoras no tuíter, já temos aí uns 14 leitores. Se duvidar, é capaz de chegar a 20 (e dependendo de como for feita a pesquisa, poderei ter uns 30% de intenção de leitura)!

Em todo caso, espero que ninguém deixe de votar num candidato só porque sua popularidade não se abala com o que os adversários dizem ou anunciam. Cada um sabe de si e acredito que sejamos todos suficientemente espertos para poder avaliar o custo-benefício das nossas decisões eleitorais.

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NÃO ESQUECE

Este blog é uma fonte inesgotável de cultura e sabedoria, principalmente graças a seus doutos leitores, que contribuem com generosidade e carinho para tornar este local cada vez mais divertido e saudável.

Olha só o que a Lia descobriu na wikipedia: o registro histórico da primeira vez em que um político foi chamado de teflon! Está em inglês porque os leitores e as leitoras são todos poliglotas.

“Teflon is a nickname given to persons, particularly in politics, to whom criticism does not seem to stick. The term comes from Teflon, the brand name of a “non-stick” chemical used on cookware, and was first applied to the American President Ronald Reagan.”

History

The phrase “Teflon president” was coined in 1983 by Patricia Schroeder, then a Democratic Congresswoman from Colorado, who said of then-President Reagan,

“After carefully watching Ronald Reagan, I can see he’s attempting a great breakthrough in political technology. He has been perfecting the Teflon-coated presidency. He sees to it that nothing sticks to him. He is responsible for nothing.”

OK, OK, EU TRADUZO!

Antes que reclamem, peguei o texto acima, toquei num Yahoo!Babel Fish (tradutor grátis automático) e colei abaixo (sem revisão nem correção, que é pra ter alguma graça) e assim os monoglotas poderão entender o que está dito acima.

“O Teflon é uma alcunha dada às pessoas, particular na política, a quem a desaprovação não parece furar. O termo vem do Teflon, a marca de um “non-stick” o produto químico usado no cookware, e foi aplicado primeiramente ao “americano do presidente Ronald Reagan.;

História

O ” da frase; President” do Teflon; era inventado em 1983 por Patricia Schroeder, então um Congresswoman Democratic de Colorado, que disse da presidente em a altura Reagan, “Após com cuidado ter prestado atenção a Ronald Reagan, eu posso ver he’ s que tenta uma grande descoberta na tecnologia política. Tem aperfeiçoado a presidência Teflon-coated. Vê-lhe que nada lhe fura. É responsável para nada.”

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ave Cesar,
    Terás que explicar à Receita a multiplicação de 6 para 14 leitores em tão pouco tempo. E na campanha de reeleição de Dilmá, os dados vazarão conspiratórios contra o indevassável sigilo a que todos merecemos, logicamente, quando se vive num Estado democrático.

    Posted by LesPaul | setembro 8, 2010, 18:01
  2. Sou leitor fiel deste blog, portanto, faço parte da meia dúzia ou, espichando, uns 30. Formador de opinião, hein? Puxa vida, gostei……ahahahahahahahaha!

    Posted by Hélio A. Schuch | setembro 8, 2010, 19:35
  3. Cesar, para estes que dizem que vc é “um jornalistinha que não tem mais que seis leitores”, mande o POEMINHO DO CONTRA do Mário Quintana

    Eles passarão.
    Eu passarinho!

    Posted by Duda Hamilton | setembro 8, 2010, 19:59
  4. O exemplo, pelo que entendi, é da aldeia, mas sem dúvida se projeta para o mundo das eleições atuais. Candidato(a) teflon é que não falta nesse cenário. Aliás, sua crônica poderá ser lida com o mesmo efeito de agora daqui a uns duzentos anos e em todos os anos de eleições.

    Posted by Ilton | setembro 9, 2010, 05:30

Posts recentes

O fim de uma era
23 de maio de 2014, 17:27
Por Cesar Valente
E aí? Abandonou o blog?
6 de maio de 2014, 17:46
Por Cesar Valente
Brasília real aos 54 anos
28 de abril de 2014, 22:12
Por Cesar Valente
Beleza e crueldade
28 de abril de 2014, 22:01
Por Cesar Valente
A semana dos enigmas
17 de abril de 2014, 8:09
Por Cesar Valente

Arquivos