A cada nova eleição aparecem leitores querendo saber, nos comentários, em quem vou votar. E aqueles descontentes com minhas opiniões, sugerem que eu já tenha candidato e esteja falando mal de um em defesa de outro.
É possível que vocês não acreditem, mas eu não sou um eleitor muito decidido. Como, por hábito profissional, mantenho uma certa distância, acabo vendo tanto defeito em todos, que a decisão nunca é fácil. Quando falo mal do Lula, não estou automaticamente achando FHC o máximo. E vice-versa. Mesmo quando se trata dos sucessores desses dois grandes contendores políticos, a coisa não melhora.
Já votei no Lula, como tantos. E aí, como diz o ditado popular, nada melhor para conhecer uma pessoa do que dar-lhe poder. Fiquei conhecendo melhor não só o personagem, o ícone, mas, principalmente, a turma que o acompanha. E não gostei de muita coisa. A começar com a quela história de que o PT é igual aos demais partidos e que se os outros sempre usaram caixa 2, mentiram, roubaram, não teria por que o PT fazer diferente. Como o próprio Lula disse um dia, é preciso “colocar a mão na lama”.
Pronto, aí quebrou-se o encanto: eu achava que o país precisava de um partido que não fizesse o que os outros faziam. Mas tudo bem, uma vez que o PT (ou aquilo em que o PT se transformou) chegou ao poder, montando uma república de base sindicalista, muito mais do que uma república de trabalhadores, achei que veríamos surgir uma oposição forte, vigorosa, saudável.
Nova decepção: nem o DEM nem o PSDB souberam ocupar aquele lugar vago, na história, de uma alternativa ao governo dos sindicalistas. Teve uma época em que todos pareciam apalermados, morrendo de medo de falar mal do Lula. Ou por falta de hábito de ser oposição, ou por medo da rejeição popular, ou por falta de convicção política. O fato é que eram raras as vozes que se elevavam fazendo alguma crítica mais consistente.
Aí, quando chegou o ano eleitoral, não havia um candidato de oposição. Não havia oposição. Não havia um projeto que pudesse ser resumido em 30″, para fazer-nos mudar de governo. O governo, com toda a sua máquina e seus aliados, faz uma campanha que diz, claramente: “não nos tirem dessa boquinha, por favor mantenham a nossa turma pendurada nas tetas da viúva”. Mas ninguém liga pra isso, porque a economia vai bem e, além de tudo, não existe uma alternativa empolgante pra pelo menos fazer-nos parar e pensar duas vezes.
VALHEI-NOS SANTA CATARINA!
Toda vez que vejo a Ideli pedir votos, com seu visual caprichado de sindicalista rica, com os cabelos domados, lembro daquela vez em que um grupo se reuniu, na UFSC (eu era professor, na época), pra ver de que forma poderia ajudar a não eleger o Paulinho Bornhausen senador. Ele liderava amplamente as pesquisas. Achávamos, eu e as torcidas do Avaí, Figueirense e demais times do estado, que era demais colocar no senado, junto ao Jorge Bornhausen, o filho dele.
E nosso grupo resolveu que era preciso trabalhar por um dos outros candidatos: Leonel Pavan ou Ideli Salvatti. A imagem da Ideli, na época, era de uma sindicalista enfezada. O Pavan vinha do PDT. Não lembro se houve uma decisão unânime, mas de ambos fiquei com aquela imagem do “em último caso”. Votar na Ideli ou no Pavan, só em caso de extrema necessidade, falou-se na época. E a situação (evitar dois Bornhausen no Senado) exigia medidas drásticas, desesperadas.
Contra as previsões dos institutos de pesquisa, elegeram-se ao senado Pavan e Ideli, na onda da rejeição ao Paulinho. Pra mostrar que o eleitor não lhe queria muito mal e só estava incomodado com a história de pai e filho no senado, o jovem Bornhausen depois acabou eleito deputado federal.
FALTAM NOMES
Aí, pra tentar me localizar, fui tentar fazer uma listinha de candidatos em quem não votaria. E a lista foi crescendo de uma forma tal, com tantos nomes, que resolvi parar e mudar para uma lista só com os candidatos em quem votaria. Aí o problema inverteu: a lista ficou minúscula. Com muito menos nomes que os cargos em disputa. Faltam nomes que mereçam o cheque em branco que é o voto. Faltam nomes que animem a gente a passar-lhes a procuração ampla e irrestrita que é o mandato.
É muito chato votar neste ou naquele, nesta ou naquela, só porque não tem ninguém melhor. É frustrante. Não foi pra isso que a gente combateu a ditadura (eu, escrevendo parábolas, outros, apanhando da polícia e sendo torturados) e pediu eleições diretas em todos os níveis. A gente sonhava com lindas campanhas eleitorais, cheias de empolgação, com a turma levando as bandeiras sem precisar pagamento, com os melhores de nós sendo eleitos. E aí, autoridades eleitas capazes de fazer corajosos discursos libertários, enfrentando os cães do atraso e as milícias do retrocesso com a mesma bravura e dignidade com que o velho Ulysses afrontava a tropa da repressão.
E sobretudo queríamos acreditar que os corruptos, os dissimulados, os ladrões do dinheiro público seriam combatidos não apenas pela lei, mas principalmente pela população, com olhares de reprovação e gestos de nojo. Não seriam reeleitos. Não teriam platéia. Mereceriam o opróbrio e o ostracismo. Mas essa foi mais uma ilusão que se desfez deixando um gosto amargo de derrota.
Por isso, o voto (obrigatório!) é tão difícil pra muitos de nós. E tão conveniente para tantos, que fazem carreira vitalícia e colocam a família inteira para mamar às nossas custas.
EM TEMPO
Antes que alguém venha com aquela velha história de votar nulo, é bom dar uma lida no que o companheiro Ilton Dellandréa escreveu a respeito no Jus Sperniandi: o post “Voto nulo, não!” conta tudo o que você precisava saber sobre essa bobagem, mas não tinha a quem perguntar.
Processo do Dário (TCU) tem movimentação:
Processo (Número/Ano-DV)
017.184/2002-8
Ano do Processo
2002
Assunto do Processo
CONVERSÃO DE RELATORIO DE AUDITORIA, REF. OBRAS DA VIA EXPRESSA DE SÃO JOSÉ
Lista de Responsáveis do Processo
No processo ÁTILA ROCHA DOS SANTOS
AURÉLIO CASTRO REMOR
CÍCERO CAMARGO VIEIRA
DARIO ELIAS BERGER
DE FARIA CONSTRUCOES LTDA
DJALMA VANDO BERGER
LÚCIA MARIA DE OLIVEIRA
MAGALY DIAS CORDEIRO
MAGUIDAR DUTRA BEHR
PEDRO ROBERTO BARTUCHESKI
RADIAL ENGENHARIA, CONSTRUCOES E DRAGAGENS LTDA
SANDERSON ALMECI DE JESUS
.. 02/09/2010 Tramitação
Destinatário: PROC-G – GAB. DO PROCURADOR-GERAL
Motivo: PARA PRONUNCIAMENTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO
.. 15/07/2010 Tramitação
Destinatário: MIN-AC – GAB. DO MIN. AROLDO CEDRAZ
Motivo: RESTITUIÇÃO APÓS ADOÇÃO DE PROVIDÊNCIAS
Aceite em: 04/08/2010 – 16:25:57
César, o pior é na eleição proporcional. Tudo bem que, pelo sistema atual, deveríamos votar em partidos. Afinal, nosso voto vai primeiro para eles, e só então para o candidato. Só que nenhum partido presta. Assim, acabo vendo um bom candidato, mas não posso votar nele porque ele provavelmente não será eleito, sendo que o voto que dei ajudará a elevar o quociente eleitoral do partido, que assim elegerá um outro, em quem não votei e que, ademais, gostaria que fosse lá para as pontes de Paris. Assim, sou obrigado a procurar, entre aqueles que realmente têm chances de serem eleitos, algum que preste, pois assim meu voto não irá para alguém que não quero. Por isso, minha lista nas proporcionais continua zerada.
Posagora…realmente é frustrante não ter em quem votar. E votar no menos pior é de doer. Abração
Baita texto Tio Cesar!
Nada mais difícil do que achar um candidato em quem se possa confiar.
Em relação a primeira parte do texto, ainda acho que vai demorar para as pessoas entenderem que quando alguém opina sbre alguma coisa, não está necessariamente se posicionando a favor do outro lado.
É triste, mas é a realidade.
Encanto e decepção, esperança e desilusão… complicado. Minha lista está como a sua… muitos nomes pra não votar, quase nenhum pra confiar.
Muito bom Cesar.Acho que se o voto não fosse obrigatório, teríamos um grande percentual de abstenção. Mas parabéns pelo texto. Pra mim, que gosto de saber o que as pessoas pensam, e admiro elas por isso, foi esclarecedor. Saiba que muitos, e muitos, estão na mesma situação. Votar no “menos pior”. Mas o que significa ser o “menos pior”?. Aí é com cada um.
Que texto Cesar. O problema parece comum e nos invade a todos com um mínimo de decência.
Por coincidência, nesta manhã publiquei um texto sobre a anulação do voto, em vista de campanha que, mais uma vez, percorre a internet. Nada tão alentado quanto esse seu primoroso texto. Abraço.
“Já votei em Lula, como tantos..” Come eu não, malandro! Nunca votei nele e nem assim me comerias!