O Paulo Brito, manezinho nascido e criado no norte da ilha é um sujeito longevo. E de boa memória. Esses dois atributos permitem que ele conte histórias do arco da velha, literalmente ocorridas no tempo em que essa expressão era de uso corrente. No oco da madrugada, irritado e frustrado com um evento em Criciúma e depois de ter lido as coisinhas que falei sobre Jurerê, ele desandou a escrever sobre algumas reminiscências ecológicas e me mandou um e-mail quilométrico que transcrevo aqui. Conversar sobre essa ilha das nossas lembranças, que não existe mais, é um esporte apreciado por mim e alguns leitores e leitoras. Portanto, com a palavra, o nosso amigo Paulo Brito (que acha que eu considero restinga apenas a vegetação, mas tudo bem, não vamos discutir por causa disso):
“César,
Eu cresci no Jurere, que era chamado de Caldeirão porque a areia, no verão de sol forte, queimava os pés das pessoas e naquele tempo não havia sandália havaiana.
Caldeirão, Lami, Rua Velha e Canasvieiras são parte da antiga Freguesia colonizada pelos meus antepassados, uma mistura de açorianos com guerreiros espanhóis que invadiram a ilha no século XVIII.
Esses lugares estão incrustados nas encostas do morro porque poucos moradores construíam suas casas junto à praia, de frente para o mar. Eram poucos os antigos do lugar que viviam da pesca, a maioria vivia da agricultura de subsistência, beneficiamento de mandioca — que virava farinha — de alguma vaca leiteira e alguns eram comerciantes, os “cristãos novos”.
Estou descrevendo um tempo em que o transporte era feito pelo mar, com barcos a vela, ou a cavalo, pelas poucas trilhas que existiam na Ilha.
Todos os morros do norte estavam isolados pelo mangue, que se transforma, cresce, invade o mar todos os dias.
O mar que leva e traz areia por causa da corrente, da maré grande de lua no inverno.
Pois quero te dizer que na frente da casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto Costa, aquele da Propague, construída no terreno que fica entre o Bar do Quinha (na verdade a casa do seu Lucas, cortador de pedra) e o que é hoje o trapiche do Veleiros, existe uma pedra que ora aparece e ora desaparece por causa da maré.
É de um tempo que o único caminho que tínhamos para chegar ao Caldeirão ou na Ponta Grossa era o caminho da praia e às vezes aquela pedra não deixava a carroça passar.
O Jurere era um mangue que fazia parte do delta dos rios Ratones e Cachoeira, que isolava o povo da Ponta Grossa, da praia do Forte e da Daniela. Para chegar ou sair da Ponta Grossa havia duas alternativas: caminhar pela praia ou ir de barco (a remo ou vela) até a ladeira do seu Carlos Zé Vicente. Pela praia dependia da maré: com maré alta não dava.
Depois veio o tempo em que o povo da Ponta Grossa tinha que caminhar oito quilômetros até chegar a Igreja de São Francisco para pegar o ônibus do seu João Evaristo. E na volta da cidade, às 17h, o povo tinha que carregar os sacos de compras nas costas pelos mesmos oito quilômetros.
Isto tudo para descrever o lugar e as dificuldades para nos mexermos, comer, comprar, ir ao médico, visitar os parentes ou mesmo enterrar os mortos. Porque tanto o povo da Ponta Grossa como o povo da Ponta das Canas enterra seus mortos no cemitério de Canasvieiras.
Então volto à casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto e repito: na frente há uma pedra que aparecer e desaparece de acordo com a maré grande e a correnteza que leva a traz a areia.
O que tu e os entendidos em ecologias chamam de restinga não havia. Era pura lama, dunas de areia ou, como o meu pai dizia, terrenos que só tinham duas serventia: plantar araçá e espalhar a areia trazida pela maré.
Restinga é uma vegetação temporária. A Terra é um organismo vivo em transformação. A Terra muda de acordo com a maré e a lua.
O rio carrega areia e folhas mortas que acabam no mar, que deposita na praia, que os microorganismo transformam em terra preta, fértil, que permite o mato crescer, que alimentará os animais, que alimentarão os homens que fazem parte do sistema ecológico do planeta.
A pedra da casa da tia Lica Noca, bisavó do Roberto apareceu neste inverno, está desaparecendo e onde tu vistes muro, o mar ficava muito longe, às vezes ele bate ali, às vezes não bate, porque às vezes a areia vai para a Armação, Tinguá e Prainha, do outro lado da baia ou então fica na Daniela, que tem uma ponta que cresce um metro por ano em direção da Ilha Grande dos Ratones.
A ponta cresce porque o Rio Ratones e o Cachoeira trazem areia e folhas mortas que a chuva carrega para os rio, que leva para o mar.
Faço uma aposta contigo que no verão o mar vai depositar areia no muro de pedras que foi construído na Armação do Pântano do Sul, como aconteceu no muro de pedras que construíram para levantar a Avenida Beiramar, inaugurada em 1981.
Abre parênteses: 81 foi o ano que a gente voltou para o Curso e estavam fazendo um movimento para transformar a Ponta do Coral em lugar público. Agora, depois de 30 anos, a Ponta do Coral esta virando uma favela sob a alegação de que serve a uma Associação de Pescadores. Pescadores que chegam ao local no sábado à noite para fazer festas e em carros que me dão inveja. Eles pescam outro tipo de peixe: peixões com peitões, como a gente se referia às raparigas fogosas e cheinhas, as gostosas do nosso tempo. Fecha parênteses.
Acho que acabou a irritação porque me permitisse lembrar da Tia Lica Noca, que fazia uma gemada com açúcar grosso que ainda me dá água na boca.
Por último, tu sabes que a Floram não precisa pedir licença para a prefeitura para plantar árvores de carreirinha no mangue da Reta das Três Pontes?
Olha o homem interferindo na natureza!
Mas, quando a Prefeitura tiver que cortar estas árvores para alargar a reta que nos leva ao Norte e ao Cemitério, ou fazer uma obra qualquer, a Prefeitura terá que pedir licença para a Floram, um órgão da Prefeitura.
Pode?
Que coisa engraçada.
O texto ficou longo.”
abs, Paulo Brito
CORREÇÃO DAS CINCO DA TARDE
“Acho que o alemão anda me pegando e troquei os nomes de Tia Noca por Tia Lica e Ladeira do seu Zé Vicente por Ladeira do seu Carlos.”
Pertinente ou impertinete, não o achei longo. O tom de conversa torna a leitura agradável.
É bom conhecer detalhes da ilha.
Cesar. Tu e teus amigos das letras bem que poderiam sentar qualquer dia desses para tomar uma cervejinha no Mercado Público e planejarem escrever um livro de reminiscências de nossa Florianópolis. Cada um faria um ou mais textos que seriam publicados numa antologia.
Reserve um exemplar para mim, com o autógrafo de todos.
Favor trocar os nomes de Tia Lica por Tia Noca e ladeira do seu Carlos por ladeira do seu Zé Vicente, pois caso contrário a dona Cecília e o filho Roberto irão ficar brabos comigo.
abs
Paulo Brito
Pronto, feita a correção.
Brito está errado tecnicamente: RESTINGA NÃO é VEGETAÇÃO!
Sobre a Ponta do Coral. Sim, a turma tem ali um ponto para beber cachaca e jogar dominó. Tem muito carrão e também tem cachorro pulguento. E dizem que o último barracão, já quase sobre o mar, paupérrimo por fora, é uma suíte de motel por dentro.