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Caderno de Domingo

Caminhadinha em Jurerê

Restinga: meio de campo entre o mar e a terra

Restinga e sua vegetação: meio de campo entre o mar e a terra

Nossos antepassados e até mesmo muita gente da nossa geração, acredita que mato é sinônimo de sujeira. Em várias partes do país, um “campo limpo” significa uma área sem aqueles estorvos do tipo árvores, arbustos, vegetação rasteira. Talvez seja uma herança do sentimento dos pioneiros, que eram depositados, pelos programas de colonização, em matagais virgens. Ali, para sobreviver, era preciso “limpar” uma área. Para fazer a casa, para plantar alguma coisa, para proteger-se dos animais e dos “bugres” (denominação genérica e não raro pejorativa, dos nativos, os “indígenas”). E isso de que lugar bom não podia ter muita vegetação, acabou se instalando profundamente na cultura brasileira.

No litoral não foi diferente. As restingas, áreas muito estranhas, com uma vegetação “anfíbia”, que sobrevive à areia, aos ventos e ao salitre, sempre foram tratadas como estorvo. E ninguém achava ruim “limpar” aquele mato, para demarcar, com muros, casas e outros sinais ostensivos de ocupação humana, os tais “terrenos de marinha”.

O mar, ao longo dos anos, tem tentado mostrar, aos humanos, que o litoral não pode ser configurado da forma que qualquer um bem entender. Manter muros à beira-mar, sabem os invasores das praias, é tarefa complicada. As ondas insistem em solapar os alicerces, abalar o equilíbrio das toneladas de pedras e, irritadas com os obstáculos, alteram a deposição e a retirada de areia, cavando ora num lugar, ora no outro.

A natureza tinha criado a restinga, com suas peculiaridades e sua vegetação própria, para servir de meio de campo entre o instável e temperamental oceano e a não menos instável terra “firme”. Entre a areia e a argila, a restinga. Como é esquisita e estranha, a restinga vive em intermináveis discussões com o mar. Ora se encolhe, ora se expande, ora se abraçam e florescem, espumas, ondas e flores áridas e salgadas, ora parece que vai desaparecer sob a chicotada das ressacas.

Meter-se nesse diálogo de marido e mulher, é idiotice. Tentar, com alguns milhares de cabeças de pedra tentar substituir um sistema que a natureza aperfeiçoou em bilhões de anos, é estupidez. Mas foi isso que sempre foi feito no litoral, por gente que não sabia muito bem em que mundo vivia nem tinha estudo suficiente para entender as coisas mais complexas.

No sábado dei uma caminhadinha na praia de Jurerê e tirei umas fotinhas, que trago para ilustrar essas caraminholas dominicais que me ocorreram a partir do que vi por lá.

O tipo do muro imbecil

O tipo do muro imbecil

Depois se queixam que "a praia tá desaparecendo"

Depois se queixam que "a praia tá desaparecendo"

O mar até tenta consertar, mas não dá conta de tudo...

O mar até tenta consertar as bobagens dos humanos, mas não dá conta de tudo...

Aqui e ali, vê-se algum esforço para recuperar a restinga ou parte dela

Aqui e ali, vê-se algum esforço para recuperar a restinga ou parte dela

Cá entre nós, 5 mil m2 é pouco, pro tamanho do nosso litoral. Mas

Cá entre nós, 5 mil m2 é pouco, pro tamanho do nosso litoral. Mas já é alguma coisa.

E agora, pra terminar, um filminho mais ou menos com as mesmas imagens acima, só que com movimento e música. Não que acrescente muita coisa, mas é que eu gosto de mexer na maquininha de editar filminhos e estou tentando aprender essa nova linguagem. Bom final de domingo pra todos.

Discussão

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  1. Caro Cesar

    Equivocadamente o termo RESTINGA, pertinente à geologia (terreno arenoso e salino), foi vulgarizado (inclusive por técnicos da área) como a vegetação que lhe é peculiar. Feito apenas o registro, teu texto me lembrou de pitangueiras e cajueiros que muito bem se davam no solo arenoso de restinga existente em várias praias do Norte da Ilha pré-invasão bárbara dos 80/90. Abçs dominical com cumprimentos atrasados pelos 33 anos de casamento, raros nos dias urgentes de hoje.

    Posted by LesPaul | agosto 22, 2010, 12:33
  2. Lembro de visitar a Praia de Jurerê quando criança (e olha que não sou da época do Valente!) e percorrer um “túnel” formado de pitangueiras, cajueiros, araçás, e outras plantas da área de restinga, incluindo vários tipos de bromélias. Isso tudo sumiu, em Jurerê, e na maioria das praias. O que resta de restinga em Jurerê são plantas como o bredo-da-praia ou a batateira-da-praia, insuficiente para proteger da ação do mar.
    Ainda que Jurerê apresente uma ocupação mais ordenada e planejda (diferente da “bagunça” de Canasvieiras, Ingleses e Campeche), faltou defender uma faixa maior de restinga.

    Posted by Victor Carlson | agosto 22, 2010, 12:58
  3. Bem lembrado, LesPaul. Gracias.

    Posted by Cesar Valente | agosto 22, 2010, 14:43
  4. Esses muros e edificações invadindo a faixa de areia é totalmente ilegal, pois fere a legislação Federal de ocupação de terras ditas ‘de marinha”. O que está faltando é fiscalização e ação do Ministério Público Federal. Mas além disso, em cidades minimamente organizadas, para qualquer edificação ou mesmo uma demolição, é necessário uma autorização e uma ART com alvará da municipalidade.

    Posted by Max Paul Jr | agosto 22, 2010, 22:50
  5. O muro, onde funciona o Colégio ENERGIA, é da HABITASUL. A maioria das ocupações irregulares – áreas de restinga e mangue – em Jurerê é da HABITASUL…..

    Posted by Tainha Assanhada | agosto 23, 2010, 13:50
  6. Cesar, como morador de Floripa por 13 anos, e agora (mesmo que temporariamente) habitante do interior do estado, essas imagens de mar, gaivotas e a bela paisagem da ilha me enchem os olhos d’água de saudades…
    Muito obrigado por proporcionar essa emoção a mais em uma terça-feira quente em Anitápolis.

    Posted by MKisner | agosto 24, 2010, 17:24

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