Tá certo, não são só os brasileiros, mas como estamos em período eleitoral, fica mais evidente por aqui. A maioria dos eleitores é conservadora, acomodada, medrosa. Para esses, votar em quem já está no poder é a melhor forma de evitar surpresas. Mesmo que não goste muito. Mesmo que, como agora, tenha que votar na mulher do Lula. Não vai votar no Lula porque as zelite (apoiadas pelo PIG) deram um golpe e proibiram o terceiro mandato, mas, na prática, votar na mulher dele é como votar nele.
Alguns palpiteiros e analistas já estão dando a eleição por encerrada, valendo-se de uma série histórica de dados, segundo a qual vence quem chega ao início do horário político à frente nas pesquisas. A levar-se isso a sério, não tem porque gastar uma fortuna com a eleição. Basta o TSE homologar os pitacos, palpites e análises e proclamar Lula vencedor. E ele que entregue o diploma a quem quiser.
Na história das reeleições brasileiras (e em várias partes do mundo), só não se reelege quem faz uma grande besteira, é envolvido em um grande escândalo (grande mesmo, não um mensalão qualquer) e, no mesmo páreo, encontra um adversário esperto e bem estruturado. Fora isso, é tranquilo. O que explica a enorme tentação que têm, os governantes, especialmente os pouco afeitos aos rigores da lei, de estender as possibilidades de reeleição, se possível, ao infinito.
A “culpa” por não se reeleger ou o poder não continuar com o mesmo grupo em geral é de quem está “na situação”. Raramente um adversário “toma o poder”. No mais das vezes, acaba beneficiado por uma mancada alheia.
No caso dos vereadores, deputados e senadores, é uma barbada. Não tem limite de reeleições, o que permite que a pessoa faça uma “carreira política” vitalícia e ainda consiga colocar esposas, maridos, amantes, filhos, irmãos e parentes como “herdeiros políticos” dessa… “vocação”.
O parlamentar conseguiu criar um mundo de vantagens para si e suas campanhas. Tem correio, telefone, gráfica, combustível, assessores, bom salário, tempo de TV (às vezes só no canal do legislativo, mas já é alguma coisa) e pode se apresentar como autor de projetos e emendas cujo efeito prático principal, sempre, é mostrá-lo (ou a ela) como sujeito(a) bonzinho(a). Um verdadeiro pai (ou mãe).
Como é que alguém pode concorrer com essa máquina toda, que funciona permanentemente, não só no período eleitoral? Ora, sendo muito rico. Ou muito conhecido. Por isso os chefes (donos?) dos partidos políticos, só deixam entrar gente nova quando preenche esses requisitos. E quando não vão ameaçar a reeleição dos amigos dos amigos.
Quando alguém, dentro do partido, cai em desgraça, a primeira coisa que se faz é deixar entrar alguém para concorrer na sua região. Roubar votos. De preferência um bem rico, que possa ajudar na campanha dos outros. Uma ajuda em cadeia (no sentido de encadeamento, não de se fazer justiça): o cheio da grana vai a deputado federal, paga a campanha do candidato a deputado estadual com quem faz dobradinha e nas eleições de vereador ajuda a eleger uns cabos eleitorais de luxo.
Na campanha ao senado a festa é ainda mais imoral: tem uma penca de suplentes que nem precisam ser conhecidos ou fazer campanha. Só estão lá porque fizeram doações generosas, ou por algum motivo obscuro que jamais saberemos. E nos oito anos de mandato sempre se dá um jeito do suplente brincar por uns dias de senador, com todas as mordomias.
É isso. Quem mandou ser “eleitor esclarecido” e achar que pode mudar alguma coisa com o voto? Se fosse um “maria vai com as outras”, estaria sempre muito contente com as pesquisas e com os resultados. Vence quem está no poder, quem já tem mandato. Quando isso não acontece, é porque alguma coisa deu errado. Não tem nada a ver com aquela bobagem que vivem repetindo os que não têm o que dizer: “é preciso ter propostas, fazer uma campanha propositiva”. Nem com o fato de alguém ser “preparado” ou não para o cargo.
Portanto, a menos que ocorra algum fenômeno espetacular que será lembrado e estudado pelas próximas décadas e séculos, Lula terá seu terceiro mandato, que será exercido, em tese, por sua mulher (pelo menos é assim que Dilma é apresentada ao eleitor em muitas regiões: a mulher do Lula).
Perfeito!
Por isso entre para a nossa campanha anulando seu voto.
Ibope mostra Dilma com 43% e Serra com 32% na disputa pela Presidência
Eu concordo parcialmente com a tua idéia, Cesar.
Claro que é muito mais fácil para quem tem a máquina estatal na mão eleger quem quiser, especialmente em uma nação de fisiologistas como a nossa (e eu não digo nação de políticos fisiologistas, digo só nação mesmo, onde todo mundo quer se arrumar com a grana da viúva, todo mundo quer ser subsidiado, seja agricultor, seja industrial, seja pescador, seja publicitário, seja jornalista, seja escritor, seja cineasta, seja cientista, seja qualquer coisa. E todo mundo quer ser funcionário público, todo mundo quer uma boca).
No caso da eleição desse ano, acho que cabe bem a frase que Carville tanto usou na campanha vitoriosa do Clinton contra o Bush pai: “it’s the economy, stupid” (juro que não estou chamando ninguém de estúpido aqui, mas a frase é essa).
A situação econômica brasileira é boa (seja por glória deste governo, seja por que o cenário internacional nos é favorável – não acredito muito na última opção, já que acabamos de sair – ou estamos saindo – de uma crise violentíssima, que quebrou alguns países), as pessoas estão vendo mais dinheiro, estão satisfazendo os pequenos prazeres e desejos propiciados pelo consumo (coisa que, queiramos ou não, é no que a vida se resume: nos grades prazeres – mais raros (a formatura, o primeiro emprego, a primeiro(a) namorado(a), a(o) esposa(o), filhos, etc) – e nos pequenos, os mais comuns, de se comprar uma geladeira, um computador, um carro, etc.
E é isso que se está se vendo agora: pessoas que ganham três salário mínimos (o que hoje dá quase R$ 1,500) comprando tevês, computadores, carro s, etc. Ou seja: as pessoas estão felizes, Cesar.
Ontem, ouvi na CBN que foi divulgado o Índice Anual de Satisfação do Consumidor, que é, se não me engano, publicado pelo IBGE. Trata-se de um número que é resultado de uma série de cálculos feitos a partir de pontos, notas que se dá à uma série de respostas obtidas por entrevistas com a população, ou com uma mostra dela. Bom, esse índice pode ir de 0 a 200. E o valor desse ano é o maior já obtido desde que se começou a publicá-lo, em 1994: 162.
Então, Cesar, está aí o motivo pelo qual Lula elege até a mãe dele para presidente. Simplesmente porque as pessoas estão felizes. O pensamento é mais ou menos o seguinte: “Conheço o Serra, ele me parece um cara sério, tem uma certa experiência, casos de corrupção que podem – ou que poderiam – respingar nele até que são poucos e pouco divulgados – foi um bom ministro da saúde, tem os genéricos que ele ajudou a fortificar, etc, etc. Mas eu nunca estive tão bem antes, agora minha vida melhorou, consegui reformar o meu banheiro, consegui comprar um aparelho de DVD. E No tempo dele no governo eu não conseguia nada. Tudo bem que a escola do meu filho continua uma droga, que o posto de saúde ta lotado. Eles sempre estiveram assim mesmo. Então, porque não vou votar na Dilma?”
Visto tudo isso, Cesar (duvido que alguém leia até o final), essa é a pergunta que se faz e que nem a campanha de Serra ainda encontrou uma resposta: porque não votar na Dilma?