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Jornalismo

O custo da informação de qualidade (atualizado)

A RBS, com a falta de tato costumeira, está há alguns dias exigindo cadastro daqueles que pretendem ler as matérias do Diário Catarinense na internet. De forma surpreendente, para uma empresa que se diz tão organizada, o formulário de cadastro é da Zero Hora. Nem leva em conta a possibilidade do leitor pretender ler o Diário Catarinense. Tem que se cadastrar na Zero Hora.

A primeira reação, claro, é de indignação com a falta de profissionalismo e respeito. Afinal, o que custaria avisar que o conteúdo deixará de ser de acesso livre? E, depois, fazer uma página de acesso para cada estado ou veículo? Ou isso é indicativo de que o Diário Catarinense deixará de ser o jornal estadual do grupo? Bom, com essa pisada na bola fica claro, mais uma vez, que o grupo não está nem aí para o alto índice de rejeição que é possível encontrar em parte da população catarinense (que até lê ou vê os veículos da RBS por falta de opção, mas vive falando mal).

Em todo caso, passada a raiva inicial, dá para pensar um pouco sobre esse movimento, que segue tendência internacional, de restringir o acesso a certos conteúdos jornalísticos. Muitos jornais que tinham liberado suas páginas online, passaram a cobrar. E a exigência de cadastro é um primeiro passo no controle desse acesso. Mesmo que não venham a cobrar pelo acesso, as informações pessoais obtidas (mesmo que sejam apenas nome e e-mail) valem ouro. Tanto para comprovar o número de visitantes para os anunciantes, quanto para utilizar esse banco de dados para inúmeras finalidades.

Por trás, acima e ao redor de tudo isso, está o custo de uma estrutura jornalística. Garimpar informações e produzir sistematicamente um volume grande de notícias, não é barato. Tá certo que várias empresas tentam tapear-nos utilizando conteúdos roubados, fazendo o leitor de fornecedor gratuito de notícias, publicando material das assessorias de imprensa como se fossem seus, etc e tal, mas quando se trata de fazer jornalismo com um mínimo de seriedade, os custos vão lá em cima.

E, se tem uma coisa que a internet fez, foi acabar com o esquema tradicional de captação de recursos pelas empresas jornalísticas: a venda de espaços publicitários por valores compensadores.

Um dos principais problemas do jornalismo hoje é o grande dilema do seu custo. Se for bem feito, é caro e talvez não atraia muitos leitores/espectadores, porque o nível cultural e de instrução geral anda abaixo do rabo do cachorro. Se for mal feito é mais barato, mas também pode não atrair leitores/espectadores.

Resta essa mixórdia de entretenimento e informação sensacional sobre “celebridades” ou acontecimentos exóticos, “bizzarros”, que atrai atenção porque mexe com os instintos primitivos dos primatas.

Não deixa de ser engraçado que os brasileiros achem muito natural passar numa banca e pagar por um jornal, mas resistam ter que pagar, às vezes menos, para lê-lo online. Assim como pagam por um CD de música (mesmo que seja pirateado), mas não querem saber de pagar na internet pelas músicas que baixam.

O que está ocorrendo em outros países, em todo caso, vai acabar sendo trazido para cá. E isso de que na internet é tudo grátis vai ser cada vez mais posto à prova. Principalmente em relação ao jornalismo, cujos custos vão além do que as empresas conseguem captar com a venda de publicidade. Mesmo que, como a RBS, não tenham pejo de ocultar a primeira página de seus informativos online com propagandas horrorosas e invasivas que pouco fazem além de irritar os leitores e demonstrar o pouco apreço que têm pela informação que veiculam.

O Diarinho, bravo jornal que circula no litoral norte de SC (de Fpolis a Barra Velha) e é o mais vendido em Itajaí e Balneário Camboriú, nunca liberou seu conteúdo na internet. Defende sua diretora a idéia do criador do jornal, Dalmo Vieira, seu avô, que não dava o jornal de presente. Não fazia assinaturas “de cortesia”. Justamente porque precisava manter o jornal financeiramente saudável. Uma empresa em dificuldades não consegue manter-se editorialmente independente.

Mesmo quando a RBS colocou todo o conteúdo de seus jornais na internet para acesso gratuito, o Diarinho resistiu e continuou cobrando tanto para quem quisesse ler o jornal em papel, quanto na internet. Parece que os leitores têm entendido, porque o número de assinaturas online tem crescido.

Agora que a RBS começa a restringir o acesso de seu conteúdo em Santa Catarina (no RS o cadastro começou antes), a posição do Diarinho pela cobrança fica menos desconfortável. E a da RBS, mais complicada: afinal, se mantiver seu material informativo no padrão atual, cheio de falhas e excessivamente atrelado aos esquemas promocionais e comerciais do grupo, o leitor poderá achar que não vale a pena. Nem entregar seus dados pessoais a um cadastro que não se sabe onde irá parar, nem pagar para ler isso que temos lido.

ATUALIZAÇÃO DA QUINTA

Assim como apareceu, o pedido de cadastro na zero hora catarinense desapareceu. Hoje o acesso ao conteúdo do jornal impresso está novamente liberado. Alguma coisa aconteceu. Provavelmente alguém se deu conta da bobagem que estavam fazendo.

Mas, se não precisa mais fazer cadastro na zero hora, o leitor ainda precisa ter paciência com a confusa área de tecnologia da RBS. Ao clicar na manchete com a notícia sobre o atraso da reforma da ponte, somos levados à notícia sobre a nevasca histórica. Para ler a nota da ponte, é preciso clicar na foto da balsa. Sacou?

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. No caso da RBS, pagar para ler releases dos governos de plantão “é ruim” hein?

    Posted by Yuri | agosto 4, 2010, 23:47

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