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Caraminholas

Nós e o frio

Uma das primeiras lembranças meteorológicas que tenho é do vento nordeste zuniando casa adentro, no Estreito. Morávamos à beira mar, num sobrado, e o nordestão batia de frente. Janelas, portas e, se duvidar, paredes, pareciam permeáveis à ventania e seus assobios. Um pequeno prédio de quatro andares, ao lado, nos protegia do vento sul. Quando fazia barulho, era nordeste. Quando fazia frio, sem espalhafato, era sul.

Mais tarde, depois de algumas idas e vindas, voltei a encasquetar com a facilidade com que o vento entra nas nossas casas (ou, pelo menos, em algumas delas). Tal liberalidade só teria sentido se vivessemos em outra latitude, de temperaturas mais constantes e, principalmente, mais altas. Aqui, o mote “terra de sol e mar” é razoavelmente apropriado, desde que não se leve em conta as temperaturas. Temos dias lindíssimos, de sol, com mar resplandescente, frios pra cacete.

Deveríamos, nós e as diligentes autoridades que planejam nosso futuro (kkkkkk), pensar seriamente em adaptar melhor nossas vivendas para as temperaturas que realmente enfrentamos. A começar por portas e janelas que se encaixem perfeitamente nos seus batentes, isolando o interior do exterior. Isso nem é um problema de custo, é de projeto, de maneira de construir. E de exigência do cliente. Só nisso aí já economizaríamos alguma coisa, quando tivéssemos que refrigerar o ambiente no verão e aquece-lo no inverno.

E, em vez de comprar aquecedorezinhos ineficientes, portáteis, ou colocar condicionadores de ar de parede barulhentos, seria de se pensar em soluções semelhantes às que usam nossos vizinhos, no Uruguai e Argentina. Vi, há pouco em Montevideo umas placas de cerâmica importadas da África do Sul, fáceis de instalar, que substituem aqueles radiadores antigos e são relativamente econômicas. Com esse sistema e um isolamento razoável, o aquecimento de um apartamento pequeno, de três quartos, adiciona, à conta de luz, cerca de R$ 200,00 num mês.

Ouvi uma história, há alguns anos, de um professor norte-americano que começou a trazer seus alunos, nas férias de verão deles (inverno aqui), para Florianópolis, em viagem de passeio e estudos. Na segunda turma teve que desistir: eles passavam muito frio. Mesmo quem vinha de regiões habituadas à neve, não estava aguentando ficar em casas e hotéis onde a temperatura interna era igual à externa. Essa situação deve criar problemas para o turismo de inverno. Porque nas regiões realmente frias a gente anda, dentro de casa, nos restaurantes, hotéis e demais lugares abrigados sem casaco, quando não de camiseta de manga curta. À noite, nem precisa de muita coberta na cama. Mas aqui, que nem é tão frio…

Bom, mas chega de divagações sobre o frio. Daqui a pouco vão começar a entrar em detalhes, de que é preciso janelas duplas, que o isolamento encarece tudo, que é melhor deixar como está, acendendo álcool numa latinha de goiabada pra aquecer o banheiro (cuja água é fornecida por inacreditáveis duchas corona ou lorenzetti). E que, afinal, é um conforto que não vale a pena. Ou que, sei lá, não merecemos. Ou não temos dinheiro pra pagar. Essas coisas que gostam de dizer aqueles que costumam deixar tudo como está pra não ver como ficaria.

Discussão

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  1. Dia desses vi na TV que em Gramado os clientes estavam jantando de luva nos restaurantes da cidade, tamanho o frio. Uma cidade de turismo focado no inverno fazer os turistas manejarem garfos e facas com luvas, por falta de calefação, chega a ser ridículo.

    Posted by Alex | julho 16, 2010, 12:48
  2. Perfeito, César. Com raras exceções a referência para construções é “o Brasil tropical” hehehehehe. Mas sem queixumes…minha solução é mesmo a latinha com álcool no banheiro e a ducha corona soltando vapor…..Abraços!

    Posted by Hélio A. Schuch | julho 16, 2010, 13:36
  3. Oi Cesar, sai de Floripa no ano passado e estou aqui morando no Canada desde entao. Vivo numa cidade em que -30 celsius eh coisa comum no inverno. A verdade eh que eu nunca passei frio aqui como passei quando morei em Floripa e em Chapeco. Eh simplesmente ridiculo o que acontece ai em casa. Ta mais que na hora de perceber que se precisa gastar para que as pessoas tenham dinheiro. Investindo em infrastrutura se criam novos empregos, que criam pessoas com poder de compra que necessitam de mais infraestrutura. Eh um circulo virtuoso. Eh uma pena que nao se pense assim ai.

    Posted by Rafael | julho 16, 2010, 14:20
  4. Realmente, existem lugares que o frio é maior que aqui e passam menos frio que nós aqui. Fui uma vez para a Alemanha e pude perceber que dentro de casas, mercados, onde for você pode tirar o casaco que não passa frio, todos os lugares possuem calefação, diferente daqui que não estamos preparados para um frio de 0 graus.

    Posted by Rogério Machado | julho 16, 2010, 14:34
  5. Eu acho que em Urubici não faz tanto frio….

    Posted by Maria José | julho 16, 2010, 20:16
  6. Uma das coisas que mais me perguntam é se não acho muito frio aqui no Canadá. Primeiro, Vancouver tem um clima muito mais ameno do que o resto do país. O inverno não é tão rigoroso, e o verão não é tão quente. Em Toronto, por exemplo, o inverno pode chegar a -20 Celsius, e o verão, a 35 graus positivos – com sensação de mais de 40.
    pois bem, nunca passamos frio aqui. Moramos em um prédio antigo, mas o aquecimento é total. No inverno, usamos camiseta dentro de casa; lá fora, entre 0 e 5 graus.
    E tenho dito que passamos mais frio no inverno no Brasil do que aqui. Todos os lugares têm aquecimento: skytrain, onibus, etc.

    Posted by paulo henrique | julho 17, 2010, 01:44
  7. Sentimos mais o frio porque não estamos preparados, pois históricamente eram poucos os dias realmente frios e não valia o investimento. Mas com as temperaturas extremas se acentuando, a reclamação é maior. Todos reclamam porque as casas, assim como locais de trabalho e ambientes fechados em geral não estão preparados e nem foram projetados para temperaturas baixas. Também não existe o hábito de usar roupas (ceroulas p. ex.) e calçados mais apropriados para enfrentar temperaturas baixas.

    Posted by Max Paul Jr | julho 17, 2010, 16:43

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