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Caraminholas

Vontade política & interesse político

Cenas impressionantes foram vistas hoje em Brasília: políticos de vários partidos, vários candidatos a governador (adversários, portanto), o próprio governador Pavan com sua bengala, o ministro Gregolin com seu juvenil aparelho nos dentes e as tais lideranças empresariais, todos de mãos dadas, unidos no mesmo lobby. Não lembro de ter visto algo assim antes. Mas também, como sou muito distraído, posso ter esquecido ou deixado passar.

De repente, depois que pararam de prestar atenção apenas na composição das chapas eleitorais, os políticos catarinenses parece que acordaram de uma sonolenta omissão e foram à luta. Tá certo que, em véspera de eleição, ninguém quer ser acusado de ser contra “milhares de empregos, desenvolvimento e progresso para Santa Catarina”. Também tá certo que todo mundo, em todos os setores produtivos, vive louco de vontade de dar uma patada nos ecochatos, que mais recentemente ganharam uma cara institucional, o tal ICMBio (Instituto Chico Mendes), poderosa pedra ambiental no sapato de empreendedores de vários calibres.

Sei que ultimamente vocês só têm olhos e ouvidos para crimes que envolvam sobrenomes famosos ou atletas famosos, mas permitam-me sugerir que, diante dessa história do estaleiro, munam-se de doses generosas de cautela e caldo de galinha.

Vamos por partes, como talvez tenha dito o Macarrão ou um de seus amigos.

1. Navegação na baía norte

Por maior temor que tenham os ambientalistas sobre efeitos de barcos de vários calados indo e vindo, parece ser mais do que razoável que, em algum momento, se restabeleça a vocação marítima desta ilha. Até quase o começo da década de 70, se não estou enganado, navios entravam pela baía norte até o porto embaixo da ponte Hercílio Luz. A exportação de madeira para a Argentina, por exemplo, foi feita por esse porto, que hoje é apenas pesqueiro. Antes, navios de carga e passageiros, da empresa Hoepcke, iam até o cais da Rita Maria.

Essa vocação, sufocada por algum desvio de rumo, deveria ser recuperada. Assim como é de se pensar seriamente na recuperação do canal de navegação. Seja qual for o resultado do projeto de construir um estaleiro em Biguaçu, não se deve parar de falar sobre essa possibilidade de navios aportarem na ilha.

2. As áreas de preservação

É preciso ter muito cuidado com este capítulo, porque o litoral catarinense só atrai turistas porque é do jeito que é. Se começarem a mexer muito, em nome do “progresso”, é capaz de matarmos a galinha dos ovos folheados a ouro (já não põe ovos de ouro maciço, porque tem muita coisa que se perdeu). Pode ser que exista algum exagero, que deve ser estudado e, se for o caso corrigido. Mas desconfio muito quando vejo tanta gente empenhada em derrubar limites. Lembram-se da história do código ambiental catarinense, que meio que se repete agora no projeto de código florestal brasileiro? Ao demonizar ambientalistas e reservas de preservação, alguns mais fominhas só querem mesmo é salvo conduto para liberar geral. E que se dane o futuro.

3. O grande empresário e seus limites

O estado precisa, com certeza, de empresas que gerem empregos, que paguem impostos, que façam melhorias na área de sua atuação. É possível que o estaleiro produza, de fato, o desenvolvimento regional. Vou contar uma historinha que talvez me ajude a mostrar onde quero chegar: técnicos da área de petróleo dizem que o acidente que ocorreu nas costas dos Estados Unidos não aconteceria nas costas da Noruega ou de outros países do mar do Norte. Por que? Ora, porque as empresas exploradoras guiam-se pelos regulamentos e normas dos países em cujas águas atuam. Os liberais Estados Unidos têm normas frouxas, se comparadas às normas norueguesas. A mesma BP provavelmente tem um tipo de conduta num país como os Estados Unidos e outra num país mais rigoroso.

Por isso, é fundamental que, ao atrair investimentos e dar aos empresários incentivos, o governo local não abra demasiadamente as pernas. Costumo dizer, sobre isso, que quem muito se agacha acaba deixando a bunda de fora e encostando a cara na lama. Para tudo tem que haver limites, assim como para tudo tem que ter uma certa flexibilidade e bom senso. Os empresários bem intencionados, por mais ricos que sejam, sabem compreender esses limites. E, até porque são bem sucedidos, estão preparados para cumprir uma cota razoável de responsabilidade social e ambiental. Faz parte do jogo. Agora, se o governo local não exigir nada, não pedir nada, não cobrar nada, é claro que eles não vão reclamar. Sairão no sobrelucro (acima do lucro já previsto mesmo com o respeito a eventuais limites).

4. A união faz a força

Sem querer desfazer do gesto solidário e nobre (embora encharcado de interesse político) de nossos representantes e autoridades, fica um certo travo na língua. Por que só agora? E por que só em defesa desse projeto? Santa Catarina tem sofrido, de tempos em tempos, de falta crônica de apoios, carência endêmica de união política, perdendo, aqui e ali, força, verbas, posições e até mesmo espaço político. Nada, em todo caso, parecia ser suficiente para unir as tais “forças vivas” e faze-las bater com a bengala na mesa de Brasília. Que bom que agora conseguiram. Espero que tenham aprendido alguma coisa com isso. E que não só a iniciativa privada seja brindada com tanta vontade política. Ainda temos sequelas de tragédias climáticas, rodovias inacabadas, rodovias por fazer, esgoto poluindo nossas praias e tantas outras coisas que talvez, quem sabe, poderiam merecer uma demonstração de força.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Discordo.
    O local é totalmente inadequado para o referido empreendimento.
    Porque não realizá-lo em Imbituba,ou outra área menos exposta a tamanha degradação ambiental?
    Os empregos (minoria) e sub-empregos(maioria),
    distribuição de renda (mínima), favela (quantas?), criminalidade, e todas as mazelas sociais geradas, serão deixadas para as gerações futuras.
    Mais um crime executado pelas gerações para outras gerações, através dos tempos.
    Ao olhar o Brasil e o mundo de hoje vemos os exemplos dessas tragédias feitas em nome de empregos, desenvolvimento, riqueza, etc, pipocando como pústulas da varíola na pele do ser humano.
    Empregos e sub-empregos, são e serão momentâneos, mas o crime ambiental contra a mãe-terra, é Permanente!
    Grande abraço, e que os seres humanos pensem de qual maneira pretendem ser autofágicos, ou não.

    Posted by Luiz Antônio | julho 7, 2010, 23:28
  2. O Instituto Chico Mendes em sua nota informa que deu três alternativas de instalação no Estado (quais são, a notinha é meio medíocre).

    Mas, ou seja, o Estado e suas `forças vivas`- que coisa mais escrotis – não perderia o investimento e já sairia na frente com o AVAL ANTECIPADO do temido instituto, pentelhis incravadus de 10 em cada 10 projeto de instalação.

    Aquele projeto, naquele local , esconde seus peculiares desdobramentos futuros. Envolve um tal grupo espanhol, passa na alteração e criação estapafúrdia de um código ambiental particular para SC??? São perguntas pertinentes.

    Posted by LesPaul | julho 8, 2010, 00:09
  3. De acordo com o Luiz acima.

    Não há justificativa suficiente para “reativar” tal porto. Novos tempos. Foi exatamente as atividades que citaste em seu texto que tornaram os “ovos dourados” em “folheados”.

    Novamente, os políticos catarinenses mostram sua falta de preparo, buscando apenas o hoje, o imediato, o “brilho de ostentar uma grande obra de infraestrutura”, que novamente como o Luiz comentou acima, deixará para as populações locais, muito pouco.

    Posted by Henrique Jucá | julho 8, 2010, 08:20
  4. Infelizmente o que se vê é novamente a ideia que o “progresso” tem que ser feito a qualquer preço. E, como sempre, a justificativa para os grandes embolsarem grandes lucros é que vai dar empregos aos pobres (que seram explorados). NÃO AO ESTALEIRO EM BIGUAÇU!!!!!!!!

    Posted by Paulo Sérgio Miguel | julho 8, 2010, 09:53
  5. A Fatma libera tudo sob pressão dos políticos catarinenses, inclusive a mudança que foi realizada no código ambiental catarinense.
    O ICMbio apesar de dar alternativas a OBX e acredito corretas do ponto de vista ecologico, mas esta empresa já investiu nas terras de Biguaçú.
    As terras existentes em Imbituba na zona de exportação, que não exporta nada, mas só cabide de emprego que o catarinenses bancam mensalmente, transformar em terras para o estaleiro e emprego para os catarinenses.
    As ameaças são mais dos políticos do que da empresa.
    Abs.
    Célio

    Posted by Célio Maciel Machado | julho 8, 2010, 12:08
  6. Talvez seja interessante que o Luiz Antonio venha um dia a conhecer a realidade social de Biguaçu e adjacências, pois o que lá existe, hoje, é exatamente o que ele acha que será gerado pela instalação do estaleiro.

    Posted by Guilherme | julho 8, 2010, 13:37
  7. Recebo todos os anos a visita de vários estrangeiros, a maioria franceses, mas também alemães, americanos, e outros. Em geral, sujeitos viajados, que inclui áreas pouco desenvolvidas na África e na Ásia. Todos ficam extremamente espantados com as nossas baías e mares vazios de barcos, navios, iates, velas… É difícil explicar a razão, mas uma delas, com certeza, é a mentalidade doutrinada nas escolas e universidades que gera adultos com aversão ao desenvolvimento, por causa de uma visão esquerdista empoeirada, disfarçada de preocupação ambiental.

    Posted by Victor Carlson | julho 8, 2010, 13:46
  8. Este DONC está DUCA!!! hehe
    Minha opinião sobre o assunto “estaleiro OSX”?
    Confiram em meu blog: “Carta Aberta à Ministra do Meio Ambiente” http://bit.ly/bodFQt

    Posted by Ernesto São Thiago | julho 8, 2010, 14:54
  9. Uma visão equilibrada no debate, parabéns.
    Apesar de em minha opinião, achar que mega empresários pensam em algo que não o lucro.
    Ainda mais este à frente deste empreendimento, sabidamente desinteressado até de entregar as próprias promessas.

    Posted by Leonardo | julho 8, 2010, 15:16
  10. É verdade, temos que ter mta cautela deste caso. Concordo que temos os dois extremos: ditos ambientalistas que são contra pelo contra e que nada tem de ambientalistas; assim como temos empreendedores que fazem qualquer coisa e em qualquer lugar sem o menor cuidado com o meio ambiente. Mas não esqueçamos que nesse meio, entre esses dois extremos existe sim pessoas, técnicos e empresários decentes que realmente fazem a coisa certa. Concordo com vc César, pois tbém me causa uma certa desconfiança qdo vejo uma mobilização de políticos, como essa que se fez em Brasília em favor do empreendimento no local em questão. Se há outros dois locais possíveis e já dito pelo Instituto Chico Mendes como mais adequados, e que estão igualmente em SC, o Estado não perderia nada, nem o empreendedor no caso de mudança de local. Então creio que há que se fazer aqui uma avaliação: quem está de fato por trás dessa mobilização de tantos políticos catarinenses? O Empresário que pode instalar seu empreendimento em outros dois lugares sem passar por este desgaste ou “empresários”, “politiqueiros” da região objeto defendendo interesses próprios? Leiam a nota do Instituto Chico Mendes no http://cangarubim.blogspot.com/ , é mto interessante, para quem aí está com o simples discurso de que o Estado de SC perderá o investimento por causa de “ecochatos”. Cautela, cautela, cautela.

    Posted by Neri | julho 8, 2010, 16:33
  11. …esgoto poluindo nossas praias, morros, mangues e beiras de mar (Armação, Campeche, Barra da Lagoa…) entupidos de favelagem, e cadê ecoxiitas com tanta disposição para lutar contra? Só querem “arrancar rabo” de endinehirados?!? É por isso que digo e repito: não é movimento ambiental, imbecis! É movimento anti-empresarial! É no lamaçal do miserê que as hordas daninhas se movimentam muito, muito mais facilmente…

    Posted by Maria Aparecida Nery | julho 8, 2010, 17:04
  12. Na verve das opiniões, vê-se que muitos falam sem conhecimento da causa específica e sim pelos sentimentos já pré estabelecidos.
    E é justamente sobre isto que Cesar faz um alerta, para que a decisão seja acertada, não pode se sujeitar a decisões tendenciosas, seja de um lado ou de outro.
    Parece que toda vez que se trata de tema dessa ordem, se parte para uma Cruzada insana, onde o que menos importa é o busílis.

    Posted by Mauricio | julho 8, 2010, 18:13
  13. Guilherme, conheço muito bem a situação sócio-econômica do município de Biguaçú. Ela é resultado de administrações irresponsáveis, e inchaço urbano na região metropolitana de Florianópolis. Inclusive tenho um terreno em Tijuquinhas, próximo ao referido estaleiro e financeiramente é favorável a minha pessoa, se este empreendimento for aprovado. Entretanto, prefiro manter minha consciência de contribuir com o consumo mínimo do planeta, em troca de algumas moedas. O verdadeiro “ouro de tolo”.

    Posted by Luiz Antônio | julho 8, 2010, 19:37
  14. Concordo com a Maria Aparecida Nery, e digo mais – a pior poluição é a poluição da falta de esgoto. Também precisamos acabar com esse preconceito contra os empreendedores e os empresarios, tratando o lucro como o maior dos pecados, pois ninguem monta uma empresa ou aplica seu dinheiro para fazer caridade, mas sim para ganhar dinheiro.

    Posted by Max Paul Jr | julho 8, 2010, 22:14
  15. Sozinha, a Maria Aparecida Nery, gaúcha de quatro costados, sem pretensão política, sem interesses econômicos, vem fazendo mais por Florianópolis, combatendo incansavelmente, e com método, os ecoxiitas, do que todos nós juntos!!!
    E ela está só começando…
    Todo motor avante, Maria!!!

    Posted by Ernesto São Thiago | julho 9, 2010, 14:00
  16. Concordo com Vitor e com Maria. Em Floripa, predomina a visão romântica anti-capitalista disseminada pela esquerda mais rastaquera. Floripa talvez seja a única ilha do mundo que não tem transporte marítimo. Precisam dar um pulo aqui em British Columbia pra ver como funciona.
    Eu costumo dizer que, quando você quer preservar absolutamente tudo, tornar o ambiente intocável, acaba fomentando a ilegalidade. Se não pode desmatar nada, haverá desmatamento ilegal muito maior do que se fosse regulado. O mesmo vale para os peixinhos e golfinhos.

    Posted by paulo henrique | julho 10, 2010, 06:24

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