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Os sul-americanos são eles

Como estão cansados e cansadas de saber os leitores e as leitoras deste blog, manjo muito pouco de futebol. De vez em quando valho-me dos amigos experts, como o Mário Medaglia, para adicionar algum verniz esportivo. Hoje meu amigo Lourenço Cazarré publicou um artigo sobre a copa do mundo no Correio Brasiliense (Caderno Superesportes, página 11), que diz muitas coisas que não só gostei de ter lido, como até gostaria de ter escrito. Por isso, tomei a liberdade de surrupiar o texto e publicá-lo aqui na íntegra.

“Os sul-americanos são eles

Esta Copa provavelmente será disputada pelos dois times que exibiram o futebol como ele é jogado por aqui: Holanda e Alemanha

Lourenço Cazarré*

Torcedor que se dá o respeito gosta é de ganhar; se necessário, com gol de mão, em impedimento, na prorrogação.

Invoquei essa lei do futebol nos minutos finais da partida contra a Holanda, quando pedi aos deuses da bola que fizessem com que um daqueles abúlicos rapazes de camiseta azul empurrasse, mesmo que criminosamente, uma bola para dentro do gol de Stekelenburg.

Não fui atendido naquela hora. Os santos só se pronunciaram horas depois, nos estertores da peleja entre Uruguai e Gana, quando ergueram o braço de Luisito Suarez, não para impulsionar a bola, mas para detê-la, num lance que transformou uma partida até então mediana na mais dramática deste Mundial.

No dia seguinte, coloquei-me à frente da televisão para exercer a nossa segunda maior paixão nacional: torcer contra a Argentina. Sucesso total. Nem mesmo o mais otimista dos brasileiros poderia imaginar que as entidades mágicas do balão esférico se pronunciariam de forma tão peremptória em nosso favor. Se no dia anterior havíamos caído da laje na qual fazíamos nosso churrasquinho de gato, os tangueiros foram ejetados da cobertura na qual estavam preparando um suculento “ojo de bife”.

No jogo que encerrou as quartas, senti que a ajuda sobrenatural que nos faltou quando precisávamos dela desesperadamente se apresentou mais uma vez em favor do nosso continente, no pênalti que seria batido por Cardozo. O que vimos depois certamente não tem registro na história do futebol: os dois times perderam um pênalti em poucos minutos e a Espanha marcou o gol mais chorado da competição depois que a redondinha bateu três vezes nas balizas antes de, caprichosamente, procurar a rede paraguaia.

Se é que necessitamos de um consolo para o fracasso diante da Holanda, basta lembrar que as derrotas da Argentina e do Paraguai foram mais dolorosas do que a nossa e que a classificação do Uruguai decorreu de um milagre.

Assim, liberados de praticar o fanatismo a que somos condenados pela nossa condição de brasileiros, podemos agora tentar alcançar o jamais cogitado patamar de torcedores desinteressados (nem tanto, mestre!) nos jogos finais.

Não tendo mais que idolatrar obrigatoriamente aqueles risonhos e simpáticos rapazes que fizeram tantas propagandas televisivas, poderemos concluir, seguindo nossa tradição de generosidade e modéstia, que jogadores como Schweinsteiger, Özil, Mueller, Robben e Sneijder, por exemplo, bem que poderiam jogar num time brasileiro da série B.

Com relação à Holanda, quero destacar aqui apenas a atuação cinematográfica de Robben ao cavar uma falta em cima do Michel Bastos. Quando o carequinha holandês voou a cinco metros de altura trazendo no rosto uma dor que só se vê numa tragédia grega, imaginei que o pobre canhotinha havia sofrido fratura tripla na tíbia. No replay, porém, constatei que Michel nem tocou nele. Palmas para Robben, dono de uma catimba que não encontrou paralelo, neste campeonato, em nenhum jogador sul-americano.

Aliás, pensando bem, como imaginávamos desde o início, essa Copa provavelmente será disputada pelos dois times que exibiram o melhor futebol sul-americano – agressivo, habilidoso e rápido – dos últimos tempos: Holanda e Alemanha.”

*Lourenço Cazarré é jornalista, teatrólogo e escritor, autor de Nadando contra a Morte e de outros 34 títulos.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Holanda já está na final… o “polvo vidente” acredita na Espanha (risos).

    Posted by Aline Graziela | julho 6, 2010, 18:10
  2. Os vencedores estão provando que futebol não se resume apenas a superstição talento e entusiasmo. Por enquanto está prevalecendo a força, a disciplina tática, a organização, o planejamento e, principalmente a inteligência emocional e um bom preparo psicológico.

    Posted by Max Paul Jr | julho 6, 2010, 21:50

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