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Caraminholas

Reflexões sobre linchamentos em praça pública

Nas profundezas da alma humana reside aquele troglodita que, todos imaginamos, foi domado por séculos de civilização. Mas ele está lá, vivo e arfante, esperando um descuido, um pequeno descuido da nossa nem sempre atenta consciência, para romper esse verniz de boa convivência social que às vezes é tão tênue que chega a ser translúcido.

Sempre que um linchamento se anuncia, vivemos um daqueles momentos graves e tristes, em que os camponeses incultos, achando que podem alcançar a justiça com suas próprias mãos, deixam escapar seus monstros interiores, que emergem luzidios da baba viscosa do fanatismo, profundamente cegos (porque o que estão prestes a fazer exige completa cegueira) e alimentados por recalques ancestrais e sentimentos rasteiros de vingança que estavam adormecidos.

Com as tochas fumegantes das trevas nas mãos, marcham ensandecidos em direção a outros monstros que pretendem justiçar. Não lhes interessa mais, a essa altura, ouvir qualquer palavra que não seja “mata, esfola, decapita, castra, trucida!” Está em curso um processo conhecido, que assim como as erupções vulcânicas, lembra à parte civilizada da humanidade o terror que se oculta sob a crosta terrestre.

Nem sempre os linchamentos destroem a vida de quem, no instinto tosco e monocórdico da turba, “merece morrer”. Porque a multidão de zumbis enfurecidos, cegos e embriagados de ódio, não tem como distinguir o bem do mal, o claro do escuro, a luz das trevas: é um rinoceronte em desabalada carreira. Não vê um palmo diante do nariz e é capaz de se espatifar numa parede, mas não consegue mudar de direção nem parar. Dificilmente cumpre, de fato, o destino que aqueles que tentam justificar sua fúria procuram: destruir os verdadeiros culpados por alguma coisa que, no minúsculo cérebro da malta, seria grave o suficiente para justificar toda a desgraceira.

Não raro os justiceiros somam ícones que gostariam, no íntimo, de destruir pelos mais diversos e ocultos (ou não) motivos à inicialmente justa indignação por um crime gravíssimo, diante do qual todos os seres humanos concordam que precisa haver esclarecimento rápido e severa punição dos culpados.

Aí, sob a justificativa nem sempre inverídica de que a justiça é lenta, que seus agentes podem ser comprados e que, afinal, não se fará justiça, permitem que seus ogros interiores aflorem, reunindo-se a outros, urrando e batendo no peito, com esgares que pedem sangue e morte a qualquer preço, como se isso fosse sinônimo de justiça.

Sem qualquer dúvida ou contemplação, condenam sumariamente todos que alguém, por algum motivo (verdadeiro ou falso, não importa), acusou de serem autores do fato hediondo. E acreditam, os linchadores, que todos os seus próprios crimes serão perdoados porque têm, no seu ódio, um propósito ancestral de “justiça”: olho por olho, dente por dente.

Achar que talvez não seja o melhor caminho cometer crimes hediondos para punir autores de crimes hediondos é muita sofisticação, exige um nível de inteligência incompatível com a descerebrada massa de vingadores. Também não adianta falar na necessidade da correta apuração de responsabilidades. Querem apenas divertir-se com o circo em que essas execuções em público acabam se transformando, desde a pré-história.

Claro, quando a turba se volta contra algum de nós, por causa de algum dedo apontado em riste em nossa direção, vamos querer que os mecanismos que a civilização inventou para conter os monstros sanguinários sejam acionados. Mas aí, quem sabe, pode ser tarde demais. A multidão, vocês sabem, se acostuma rapidamente ao gosto e ao cheiro do sangue alheio. E o fato de alguém ser ou não ser culpado de verdade, não vem ao caso. Não interessa. A condenação se deu lá no primeiro momento,  naquele instante em que alguém disse: “foi o fulano, eu sei que foi ele”. E se não foi ele? Azar. Não tem como escapar. Por isso se chama barbárie.

E, como sempre, em situações como essa, de absoluta insanidade, conversas como esta, que estou fazendo aqui, em defesa de condutas civilizadas, serão interpretadas, por vários cabeças de motim, como uma defesa de criminosos. E não será de admirar se parte da turba resolver me incluir no rol daqueles que serão atropelados no seu caminho sem volta em direção ao cadafalso.

E o que estimula esse comportamento selvagem é a falta de um poder público com credibilidade. Autoridades que se encolhem, enfiam a cabeça na areia e fogem de suas responsabilidades. Cagões que têm medo de sair em defesa da lei. Que não querem ficar mal com a turba enfurecida, mas também se esforçam para agradar algum poderoso eventualmente envolvido. E, covardemente, correm da raia, deixando um rastro malcheiroso e nojento.

Sempre que, em situações semelhantes, quem tiver a nobre tarefa de defender a lei se omitir, estará dizendo aos cidadãos que eles estão por conta própria. Esse é o recado que, tal qual um despertador de vuvuzelas, faz acordar a besta. E a lei, que deveria ajudar a resolver os conflitos que surgem todos os dias na convivência dos humanos, acaba rasgada, pisoteada e enlameada pelos fanáticos que trotam em busca de suas vítimas. Como se, da idade da pedra até hoje, não tivéssemos aprendido nada. E, enquanto continuarmos ignorando a lei, continuaremos patinando no glaciar eterno da barbárie.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Parabéns pelo texto! A sedução pela barbárie e pelo linchamento é algo muito poderoso. O problema é que, depois de saciada a sede de sangue, não sobra nada de aproveitável. Só a besta-homem, que tem que voltar para casa e reconstruir a sua racionalidade.
    Márcia

    Posted by Márcia | junho 30, 2010, 08:37
  2. Este texto é muito + do q apenas bom senso!!! É um porto seguro para a humanidade!!!

    Posted by Ernesto São Thiago | junho 30, 2010, 09:21
  3. Muito boa a reflexão Cesar. Mas é necessário considerar que o linchamento só ocorre quando há a perda de confiança na justiça e nas leis.

    Posted by Maioria Silenciosa | junho 30, 2010, 09:45
  4. Magnífico texto, Cesar, pela lucidez das colocações. Não quero que pareça que estou “puxa-saco”, ou que elogio por ser amigo. Olhe que, junto com mais alguns, ando sempre à cata do que elogiar e/ou recomendar, mas está difícil. Poucos, muito poucos, continuam escrevendo com a simples e certeira independência de outros tempos – bons tempos.

    Posted by Saint-Clair | junho 30, 2010, 10:36
  5. Concordo plenamente com tudo o que disseste. E atrevo-me a complementar: o pior é que a turba, ensandecida e primata (quanto maior a multidão, menor o QI…), muitas vezes destrói também a vítima do crime original.

    Posted by Gilnei | junho 30, 2010, 10:44
  6. Só me resta aplaudir.
    Ótimo texto.

    Posted by Wilmor Henrique | junho 30, 2010, 12:12
  7. Seu texto é fantástico, e concordo que “o que estimula esse comportamento selvagem é a falta de um poder público com credibilidade”.
    Grande abraço e parabéns!

    Posted by Maria Marta | junho 30, 2010, 13:57
  8. Parabéns, o texto na teoria é muito bonito… Cesar observar um fato como observador é uma coisa e ser personagem principal são outros quinhentos. Só pra exemplificar o teu caso do assalto a umas semanas atrás (que já passei por situação parecida), qual era o teu sentimento logo após o episódio?

    Posted by Fabio | junho 30, 2010, 14:25
  9. Fabio, aí é que tá. Se deixar cada vítima fazer “justiça” com as próprias mãos, retornamos imediatamente ao estágio mais bárbaro da humanidade. É claro que, como vítima, o meu impulso inicial, é estrangular quem quer que me tenha feito mal. Ou fazer como se faz em mesa de bar, quando um valentão acha que alguém olhou feio para sua namorada: sair na porrada. Não acho que se trate de “espectador” e “envolvido”. Trata-se de estabelecer um sistema que evite justamente que saiamos todos matando nossos desafetos cujas famílias, por sua vez, também sairão matando quem eles acham que cometeu os crimes e assim por diante, até chegarmos a um banho de sangue sem sentido. O grande problema é quando o sistema, que já se mostrou eficaz em outras paragens, parece meio emperrado. Mesmo assim, sou contra o justiçamento da forma como descrevi no post.

    Posted by Cesar Valente | junho 30, 2010, 16:24
  10. Texto inteligente, sóbrio, claro, conciso. Magnifica interpretação da roda da humanidade.

    Parabéns

    Posted by Silvio | junho 30, 2010, 18:03
  11. O que esperar de uma criatura irresponsável que se apossou de seu criador, domina sua alma tosca em busca de acessos – a qualquer custo e a qualquer preço -, de luzes e de holofotes, inflado por uma `coragem` meio sem-vergonha que lhe carimba pretensa aura de super-herói. Quando acorda, veste a capa do paladino que vingará todos os males da humanidade. Pobre mal que faz a vítima original; obtusa percepção que sequer alcança o fato de que incendiar o circo nem redime os seus e nem os pecados da humanidade. Muito menos mata os canalhas que protagonizaram a maldade. Estouro da boiada serve à massa de manobra. Hoje é essa, ensandecida clamando por uma `justiça` tão vil quanto o fato censurado. E que deve ser punido severamente. Daqui alguns dias, semanas ou meses, será contra qualquer um, e também à margem da lei, inclusive contra quem pontifica a manada.

    Posted by TOLINHO DIFARINHA | junho 30, 2010, 22:49
  12. Caro César parabéns por seu veemente repúdio à prática do linchamento em praça pública. Como não sou de meias palavras ou indiretas, acrescento meu igual repúdio ao linchamento moral e abuso moral em praça pública ou na internet, especialmente quando envolve menores de idade – por equívoco de julgamento, desinformação, vaidade, egocentrismo, ou fins políticos que não observam direitos e ética!
    Minha objeção a seu texto se restringe a seu ponto de partida. Não acredito em “alma humana” ou qualquer essencialização do que seja “humanidade”, assim como não acredito em atavismos primitivos guiando nosso comportamento. O homem é um produto histórico de seu tempo e sua cultura, marcado por aspectos de uma psicologia individual e coletiva. O que não cai na categoria “loucura” é ação responsavel e produto de uma decisão. Deixar-se levar pela turba ou assumir um comportamento exibicionista e antético é, antes de tudo, produto da fragilidade moral e ética, politicalha barata e produto de um sistema de crenças abominável!
    Gr. abraço, Flávia
    (Se vc me autorizar, gostaria de fazer o link p meu blog)
    ah: obrigada pela recomendação via twitter

    Posted by Flávia | julho 4, 2010, 10:29
  13. Flávia,fica à vontade.

    Posted by Cesar Valente | julho 4, 2010, 10:51

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