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Eleições 2010

Análise de hoje: Ângela Amin (PP)

Ângela Amin (PP) - Foto: Janine Moraes/Ag. Câmara

Ângela Amin (PP) - Foto: Janine Moraes/Ag. Câmara

Publiquei esta semana a análise que o Remy Fontana fez sobre os pré-candidatos ao governo do estado que foram entrevistado, em maio, na TV Com. Cada dia um candidato, na mesma ordem em que foram entrevistados (para ler os textos já publicados, é só clicar na linha do dia):

Domingo: texto de abertura (A desidratada política estadual sob exame)
Segunda: Ideli Salvatti (PT)
Terça: Raimundo Colombo (DEM);
Quarta: Eduardo Pinho Moreira (PMDB); e
Quinta: Ângela Amin (PP).

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Entrevistas com pré-candidatos ao governo de Santa Catarina*

Personae, performances, políticas

Hoje: Ângela Amin (PP)

Por Remy J. Fontana**

Se as artes da conversação e as premissas da teoria vocal são consistentes ao indicar que o uso da voz revela o estado de espírito e mesmo muito da personalidade de alguém, então a pré-candidata Angela Amin enfrentará sérias dificuldades na campanha, como alías já ficou evidente na entrevista da TV-COM. Ali sua performance foi sofrível: pareceu nervosa, encurralada, confusa e um pouco perdida. O que é surpreendente numa figura pública com tão grande bagagem e longa trajetória nas lides políticas. Parece que pouco aprendeu da sutil e exigente arte da política ao longo do exercício dos cargos executivos e mandatos legislativos. Alguém que demonstre tal falta de auto-confiança diante de interpelação jornalistica – que faz parte do ofício de um governante -, sugere pouco preparo e perfil duvidoso para quem pretende se habilitar às artes e exercícios governativos.

Se uma das principais atribuições de um governante é inspirar coletividades, energizá-las diante da complexidade das sociedades, encorajá-las diante das dificuldades e infundir-lhes confiança para superá-las, o que esperar de tão bisonha performance, de uma tal falta de clareza e de objetividade, de carência de idéias ou de capacidade para enunciá-las, de confusão mental e de vazio de horizontes, como a demonstrada pela candidata do PP ?

Parece que lhe faltam reflexos políticos e expressão pessoal próprios para ser bem sucedida nas altas esferas da vida pública. Sua personalidade parece não combinar muito bem nem ficar à vontade sob os spotlights inerentes ao cargo de principal mandatário de um Estado. Governar exige nervos de aço, clareza de julgamento e avaliação, forte presença e liderança, características escassas na candidata, pelo que se viu.

Na entrevista, abusou de um cacoête verbal revelador, ao repetir ad nauseam a expressão “tenho muito claro”, quando demonstrou escassa clareza na maioria dos pontos indagados ou discutidos. Não demonstrou possuir nem o clássico ardil da esperteza política de contornar perguntas incômodas ou embaraçosas, deslocando seu foco ou respondendo-as por analogia ou aproximações.

Sua truncada e titubeante argumentação afasta-se de um discurso propriamente político, descendo com frequência ao nível de seus referentes privados. Invoca constantemente valores familiares e padrões de conduta pessoal como âncoras de suas ações e parâmetros de conduta pública. Usa expressões como carinho, dedicação, sinceridade, amor à família e à cidade e outras pouco próprias à esfera pública. Se tais atributos e virtudes compõem usualmente as bases formativas de um bom ou íntegro caráter, pelo menos há cinco séculos, com Maquiável, sabe-se que eles não são nem essenciais nem talvez desejáveis para o sucesso de um governante. Bom coração e discursos amorosos sobre o bem público podem embalar almas singelas, mas nada asseguram sobre as condições de uma boa governança.

Seu ponto forte nesta pré-campanha são os bons índices de preferência em pesquisas eleitorais, nas quais aparece em primeiro lugar. É com base neles, adotados como critério exclusivo ou determinante, que afirma sua candidatura pelo seu partido, ou como cabeça de chapa numa eventual coligação.

Se esta posição destacada nas pesquisas lhe é um dado auspicioso, é de boa prudência relativizá-lo, seja para não inflar expectativas ou antecipar resultados em seu próprio campo, seja para não apresentá-los com soberba numa eventual mesa de negociações para composição de alianças.

Convém pois relativizar este dado, pela consideração de alguns pontos: a) Efeito recall de eleições passadas, inclusive a majoritária em 1994; há 5 ou 6 meses de uma eleição, este índice pode ser mais uma indicação de lembrança de um nome do que uma declaração segura de intenção de sufrágio; b) numa campanha os índices de preferência eleitoral podem sofrer alterações drásticas entre candidatos, por uma dezena de motivos, desde os mais substantivos e estruturantes aos mais fortuitos e circunstanciais; c) como candidata de um partido (PP) que deixou de ser, a nível nacional, um partido de primeira grandeza, não pode afirmar-se como candidatura portadora de projeto que tenha articulações significativas no âmbito nacional-institucional; d) a nível estadual, seu partido e a liderança de seu marido, Esperidião Amin, da qual é ancilar, estão em declínio depois de 25 anos de protagonismo; o PP não é mais, como já foi, inclusive sob outras denominações , o agregador dos anseios, interesses e das apostas dos setores estratégicos e poderosos da economia catarinense e nem o destinatário preferencial de seus recursos e apoios; e) enquanto máquina partidária, posições de poder e bases sociais o PP está fragilizado em SC, no sul do pais e a nível federal.

Assim, o partido ou partidos que apostam, como critério determinante, as chances de um provável candidato a partir dos índices de preferência eleitoral dados nos primórdios da campanha, estão fazendo uma aposta de alto risco.

Se no início de sua carreira política o fato de ser esposa de Esperidião Amin foi uma inegável alavanca, na sequência embora tenha adquirido alguma desenvoltura própria, fica sempre uma dúvida quanto ao que deve ainda ao seu marido e ao seu nome o relativo prestígio e visibilidade que desfruta junto ao eleitorado catarinense.

O fato que resta demonstrar é qual seria sua qualidade, qual idéia força condutora com a qual estaria associada sua imagem, o que a torna neste início de campanha eleitoral uma candidata aparentemente tão competitiva, a confiar nas pesquisas desta pré-campanha.

Angela é candidata de oposição à LHS, e ao PMDB, que qualifica como adversário político institucional (sic). Se quiser manter uma postura de alternativa ao governo anterior, seria desejável que tivesse clareza sobre o o que pretende fazer com as Secretarias Regionais, a espinha dorsal do governo LHS, motivo de críticas agudas e permanentes de seu partido. No entanto, tudo o que disse aos entrevistadores foi de que vai avaliá-las, incapaz que foi de apresentar um outro modelo ou indicar ajustes possíveis.

Com exceção do PMDB, diz estar aberta à conversações com todos os partidos, em torno da análise dos cenários eleitorais, possíveis composições e estabelecimento de objetivos comuns num possível futuro governo. Acha que este diálogo enriquece o processo democrático, não se tratando apenas de articulações em torno de candidaturas. Questionada se destas conversas partidárias não estaria ausente os interesses reais de SC, alega que tudo se dá às claras, com a divulgação de idéias e metas programáticas baseadas em príncípios. Instada a dizer quais seriam estes, confunde proposta de política pública para o setor de segurança (basicamente a indicação de um técnico para chefiá-la) com princípios de governança, e acrescenta o que seria um segundo príncipio, visar em todas as ações do governo a qualidade de vida dos cidadãos, o que pareceu excessivamente genérico para quem lhe fez a pergunta.

Para reforçar suas qualificações políticas invoca recente titulação acadêmica obtida na UFSC, onde pesquisou sobre novas bases para uma boa governança, pela utilização de indicadores na formulação de projetos e pela adoção de análise de risco. Para uma política supostamente experiente não deixa de ser constrangedor o fato de pretender equalizar bons resultados acadêmicos com a arte de governar. São dois mundos, duas racionalidades completamente distintas, de cujo encontro não resultam qualquer melhora significava nas competências próprias de cada área.

Sobre a área da saúde, apontada como crucial na preocupação dos catarinenses, Angela propõe uma atuação diferenciada, sendo esta a necessidade de reafirmar um pacto entre os entes federativos, definindo claras competências para assegurar a harmonia entre eles e pela recurso às parcerias. Parece que não há muito aqui além do usual para sustentar sua pretensão de inovação no setor.

Sobre se vai continuar apoiando o Teatro Bolshoi, disse que sim, reconhecendo sua importância. Aqui, teve um de seus poucos bons momentos, ao diferenciar-se de outras candidatos, ao lembrar corretamente ser necessário uma política estadual de cultura, embora não adiantasse maiores idéias em que esta consistiria.

Ao ser indagada sobre a motivação para querer ser governadora, novamente remeteu-se ao âmbito doméstico, não ao público, afirmando primeiro ser um sonho pessoal (diferente pois de apresentar-se como a encarnação de uma aspiração coletiva) e a seguir disse que seu eixo e sustentação para tal sonho era a familia, a sua própria e a de seus pais, não como poderíamos esperar as classes sociais, atores coletivos ou grupos de cidadãos com seus projetos, suas ideologias e esperanças.

Outra dificuldade de Angela foi explicar as razões de sua baixa visibilidade política no exercício de seu mandato parlamentar na Câmera Federal, apontada pelos três entrevistadores. Foi constrangedor vê-la responsabilizar as dificuldades de sua assessora de imprensa pela fraca atuação, resumida à participação, quase burocrática, ao trabalho nas Comissões Parlamentares, que produzem subsídios ou sistematizam matérias para ulterior deliberação do plenário. É muito pouco para quem está em seu segundo mandato.

Talvez emblemática de sua falta de clareza e objetividade e mesmo compreensão da organização e funcionamento do aparato governamental deduz-se da resposta que ofereceu à questão sobre a FAPESC, fundação de apoio à pesquisa. Em vez de responder o que lhe foi perguntado sobre que planos teria para a fundação para torná-la mais efetiva no financiamento e fomento de pesquisa, inovação e desenvolvimento disse apenas ser importante uma parceria com as universidades, para logo na sequência remeter-se a uma prosaica historieta sobre a implantação de um laboratório genético de bezerros em Campos Novos. Como em outras tantas respostas, a candidata Angela, a despeito de sua recente incursão bem sucedida no âmbito acadêmico, demonstra imensa dificuldade de elaborar argumentos, construir explicações ou esboçar planos com o grau de consistência esperado de quem almeja tal alto cargo, valendo-se do recurso fácil e nem sempre adequado de exemplificações tópicas. Resta-nos esperar, caso seja eleita, que seu desempenho como governadora esteja acima do que demonstra como candidata.

*Entrevistas realizadas entre 10 e 14 de maio pela TV Com (canal 36 da Net), do grupo RBS.
** Sociólogo. Professor no Depto.de Sociologia e Ciência Política da UFSC (1976-2010)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. O problema do comentário, a despeito da questão óbvia de apresentar o aparente despreparo da candidata.
    É a questão do autor esquecer um fenômeno típico das Américas sulistas.
    Esqueceu que Evita e Isabelita Peron também eram um zero político, mas de um magnetismo “familiar” que deu no que deu na Argentina. Imagina com uma famiglia que já tem um sucessor “mandando bala” na Câmara dos Vereadores.

    Posted by homero | junho 10, 2010, 14:49
  2. Será mesmo que foi este desastre todo? Pois parece que não teve nada de bom, nada de aproveitável, que merecesse elogio. Outra coisa: depois que o LHS foi eleito duas vezes sem responder a nada, com uma dicção horrorosa, sem apresentar projetos (só falta virem dizer que o Plano 15 era plano de governo), escapando de todas as inquirições, fugindo sempre do debate, nervoso, desequilibrado até em certos momentos, deixei de considerar essa performance como fator tão importante.

    Posted by Marcelo Santos | junho 10, 2010, 16:33
  3. Pelo que li, Ideli é a melhor candidata ao governo do Estado. O Moreira seria afetado pelos escândalos do governo LHS, mas Ideli nem de longe seria chamuscada pelos mensalões e aloprados do pt. O DEM é um partido em decadência, mas o pt, não. Claro, cresce ao se apoderar da máquina do Estado.
    A análise do professor da UFSC não me decepciona. Analisa os candidatos a partir da viseira ideológica pré-queda do Muro de Berlim. Nada diferente poderia vir de um departamento de sociologia, onde costuma predominar o esquerdismo mais rastaquera – com as exceções de sempre.

    Posted by paulo henrique | junho 10, 2010, 18:30
  4. Se uma titulação acadêmica obtida na UFSC não pode ser levada em consideração numa administração estadual, então pra que existe a UFSC, é só para fazer de conta? Aliás, realmente deve ser isto, pois este senhor deve conhecer bem a UFSC, pelo que diz é sociólogo e professor da mesma. Não vi esta entrevista e nem as outras, mas dona Angela, conforme relatos do sr. Remy, deve ser a pior entre os seres. Só não consigo entender como ela conseguiu ser por vários anos a melhor prefeita de capitais no país. Sr. Remy está fora da casinha.

    Posted by Rogério Machado | junho 10, 2010, 21:01
  5. Achei as análises muito boas. Não tive a impressão do Paulo Henrique. Achei, incluisive, que a análise do Pinho Moreira foi a mais leve, e não a da Ideli. Todos tem pontos bons e pontos ruins. Todos tem boas idéias para determinadas situações e zero para outras. Os planos ainda estão sendo construídos, afinal, até o momento, nem as candidaturas estão totalmente certas. Vai ser difícil.

    Posted by Aline Graziela | junho 11, 2010, 13:23
  6. O que é isso?O da Angela Amim ñ abre pra q possamos ver o conteudo da sua entrevista!!Este Senhor Remi Fontana só aparece em épocas de eleições o q ele faz o resto do ano??Pra TER TANTA AUTORIDADE ASSIM ?

    Posted by maria mara | junho 13, 2010, 13:13
  7. Maria Mara, o link da Ângela não abre pela simples razão que o texto está logo abaixo, inteiro. É, como diz o título desse post, “a análise do dia”. O Remi não aparece “só em épocas de eleições” e no resto do ano ele continua sendo o que sempre foi, um sociólogo, professor, que tem uma interessante visão crítica da política e seus personagens. E a “tanta autoridade assim” foi atribuída por ti. Pra nós, ele é apenas um sujeito que teve paciência para assistir às entrevistas e usou suas décadas de vivência política para avaliar os pré-candidatos.

    Posted by Cesar Valente | junho 13, 2010, 18:24

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