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Eleições 2010

Análise de hoje: Raimundo Colombo (DEM)

Raimundo Colombo (DEM) - Foto: Geraldo Magela/Ag. Senado

Raimundo Colombo (DEM) - Foto: Geraldo Magela/Ag. Senado

Estou publicando esta semana a análise que o Remy Fontana fez sobre os pré-candidatos ao governo do estado que foram entrevistado, em maio, na TV Com. Cada dia um candidato, na mesma ordem em que foram entrevistados (para ler os textos já publicados, é só clicar na linha do dia):

Domingo: texto de abertura (A desidratada política estadual sob exame)
Segunda: Ideli Salvatti (PT)
Terça: Raimundo Colombo (DEM);
Quarta: Eduardo Pinho Moreira (PMDB); e
Quinta: Ângela Amin (PP).

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Entrevistas com pré-candidatos ao governo de Santa Catarina*

Personae, performances, políticas

Hoje: Raimundo Colombo (DEM)

Por Remy J. Fontana**

Colombo compõe uma figura simpática, afável, com boa postura e segura articulação verbal. Um ar de bom mocismo, com sua vivacidade de espírito e jovialidade, constituem atributos valiosos na composição de uma imagem de candidato. No entanto seu discurso de renovação é artificial, seja porque seu partido (embora sob outras siglas) e principais lideranças faziam parte de grupos que dominaram a política catarinense por muitos anos, inclusive por meio de formas oligárquicas; seja porque fizeram parte do governo Luiz Henrique nestes últimos 8 anos. Enquanto candidato também não convence como encarnação do novo pois, como afirmou nesta própria entrevista, está na vida pública há mais de 30 anos, tendo ocupado vários cargos, nos três âmbitos da federação (municipal, estadual e federal) e participado ativamente de toda a trama política tal como ela é, com seus acertos e mazelas. Mais convicente seria se computasse estes anos como enriquecedores de experiência, que qualificariam sua pretensão à primeiro mandatário.

Como candidato tem assim várias fragilidades, a começar por seu partido DEM, antigo PFL, em franca decadência a nível nacional e em menor escala em SC. Depois de participar com a titularidade de 5 secretarias no governo L. Henrique (e mais cinco secretarias regionais, que alías eram criticadas acerbamente como “cabide de emprego” pelo mesmo Colombo em campanha anterior), o DEM abandona suas posições, num desembarque mal explicado. Para jornalistas e analistas tratou-se de uma retirada tentanto evitar contaminação pelo escândalo político da “Operação Transparência” e denúncia da promotoria pública contra seu aliado Leonel Pavan, que assumia o governo estadual (em função da renúncia do titular, LHS, que foi cuidar de seu prórprio projeto senatorial). Colombo tenta justificar esta saída de seu partido, não como rompimento político mas como necessária para afirmar sua independência e para viabilizar seu próprio projeto. Assim temos algumas opções para justificar este movimento, estratégia como afirma Colombo, ou vulgar oportunismo eleitoral, como sugerem os jornalistas.

Isto nos traz ao tema da responsabilidade governamental e das concepções de políticas públicas.

Ao ser inquirido sobre os problemas e distorções da política salarial do governo LHS, do qual foi integrante o DEM nas secretarias-chaves da Administração e da Fazenda, isenta-se de responsabilidade apesar de ser o presidente do partido, dizendo não estar em condições de avaliá-la e por estar ocupado com a senatoria em Brasilia. Instado a delinear uma política salarial para o servidor público, não vai além de platitudes, como baseá-la no mérito, quando o problema não é apenas de propô-la sob os auspícios de consagrados e saudáveis principios e mecanismos da boa gestão administrativa; mas de assumir um compromisso com seriedade e tenacidade, como governante, de impedir a porosidade fisiológica na concessão de cargos e preenchimento de funções no aparato do estado por partidários e apoiadores. E, mais importante e consequentemente, comprometendo-se com uma estruturação racional-legal de cargos e salários que atenda às necessidades do Estado e da sociedade e respeite a dignidade funcional dos servidores.

A este propósito diz comprometer-se, se eleito, com a indicação de um técnico para a sensível Secretaria de Segurança Pública. Como muitos outros bem intencionados, Colombo confunde a natureza e as funções próprias de Estado, com seu inerente caráter público, que requer compreensão integrada de conjunto, capacidade de articulação de interesses, habilidade para construir consensos e visão de longo prazo, com as habilidades especificamente técnicas e operativas, que devem situar-se em escala hierárquica inferior.

Não se pode cair na simples e equivocada dicotomia técnicos versus políticos, quando se pretende evitar o preenchimento de cargos por indicação partidária-fisiológica. Partidos sérios e governantes lúcidos devem compreender com adequação a natureza do Estado, suas atribuições e funções, e atuar de acordo. Isto vale também para o processo decisório, que não basta vir respaldado pelo saber técnico, como disse o pré-candidato, mas requer interlocução ampliada, capacidade de avaliação, discernimento entre escolhas alternativas, critérios claros e objetivos, espírito público do governante.

Sobre o modelo de segurança pública que proporia se valeu de idéias que teria recolhido em visitas a outros países, como por exemplo a introdução de polícia comunitária e a urbanização de locais deteriorados. São idéias eventualmente válidas desde que se adequem aos nossos contextos, com a ressalva de muito possivelmente nossas metrópoles e grandes cidades não funcionarem pela lógica comunitária, mas por outras, muito mais individualistas, fragmentadas e tensionadas.

Na questão das polêmicas Secretarias Regionais, Colombo tendo migrado da posição de crítico à de partícipe, após reconher terem sido legitimadas com a eleição de LHS em 2002, não vê outra alternativa que mantê-las, porém mais enxutas e com outras funções. Deste presumido enxugamento restariam apenas três ou quatro (sic) funcionários com atribuições coordenativas e motivadoras dos agentes locais com vistas ao desenvolvimento regional. Convenhamos, secretarias regionais, com tal exíguo número de funcionários, para que? Será que toda a estrutura política convencional de prefeitos à deputados e toda a máquina estadual não poderiam então realizar tais tarefas?

Ao tratar do Teatro Bolshoi, se continuaria a receber apoio público em seu eventual governo, afirma que sim; visitou o Teatro, reconhece sua importância para projeção cultural do Estado, mas também perdeu oportunidade de delinear idéias sobre uma política cultural.

“Eu quero ser o mais prefeito dos governadores”; esta afirmação textual de Colombo é indicativa de sua concepção de governança. Pode ser algo simpático indicar uma gestão próxima aos cidadãos, através do contato pessoal, mas certamente um tanto irrealista.

Trata-se mais de um componente de uma cultura provinciana, dos velhos tempos, em que os governantes saíam à rua, de suas pequenas e médias comunidades, ainda não trespassadas pelo caos urbano de hoje, para auscultar uma população que se movia ainda pela lógica de relações pessoais e de vizinhança. Nas condições de hoje, de alta complexidade social e estatal, além de uma impossibilidade, este procedimento seria totalmente contraproducente e equivocado.

Na mesma linha, declara ser a favor do voto distrital, pelas mesmoas razões de favorecer a proximadade do eleitor de seus representantes e supostamente diminuir o custo das campanhas. Afirmou isto na mesma semana que na Inglaterra, o modelo clássico do voto distrital, se produzia a maior confusão política dos últimos tempos, e diante de um clamor para eliminá-lo, trocando-o pelo sistema proporcional.

Indagado sobre a motivação do eleitor e sobre qual critério de escolha deverá prevalecer nesta eleição, Colombo foi tão rápido quanto temerário ao responder que o eleitor vota no indivíduo, não no partido. Temerário, porque ao não fazer uma ressalva diante desta suposta inclinação dos eleitores, parece subscrever esta preferência, o que não fica muito bem para o presidente de um partido. Nem faz muito bem para uma cultura política já viciada pelo personalismo e pela fácil subscrição do senso comum de que todos os partidos são ineptos e corruptos. Mas entenda-se esta baixa estima por partidos tolerada por Colombro, no contexto do que se anuncia como declínio irreversível de seu partido, restando-lhe portanto a defesa da personalização da política.

Como ex-presidente da empresa, foi muito lacônico, sobre o modelo de gestão da CASAN, que recentemente provocou inquietações e ressalvas na opinião pública ao distribuir generosos bônus à diretores e acionistas, em detrimento de investimentos.

Sobre a questão da saúde, disse ser sua prioridade número um, dois e três; afirmação que repetiu. Há aqui também uma possível falta de discernimento e um pouco de oportunismo, já que a saúde foi apontada como a principal preocupação dos catarinenses, em recente enquete. Ora, um governante, diante da pletora de carências e demandas, e das responsabilidades sobre o conjunto dos setores de atividades de uma sociedade, não pode focar a ação do Estado, com tal ênfase, numa política pública singular, por mais relevante que seja.

Quanto à sua trajetória recente, detendo um mandato senatorial por quatro anos, não criou uma imagem de parlamentar muito atuante ou uma identidade expressiva,, seja adquirindo prestígio entre os pares, tomando iniciativas legislativas, por sua atuação como oposicionista ao governo federal ou como carreador de recursos para o Estado.
Isto sugere não ter sido um ativo ou ouvido interlocutor com a sociedade, no grande debate público, mas antes enquadrar-se-ia numa atuação pontual, entre seus partidários ou em sua base regional. Sem presença constante e relevante na imprensa nacional ou regional não teria construido um espaço político proporcional às suas atuais pretensões.

Talvez o que chame mais atenção na postulação de Colombo seja uma certa falta de eixo como pretendente-governador, situando-se entre a esfera municipal, a qual toma como norte e modelo administrativo, e uma desesperada adesão à candidatura de Serra, no plano nacional, de cujo êxito depende a sobrevivência de seu partido, o DEM.

(Amanhã, Eduardo Pinho Moreira)

*Entrevistas realizadas entre 10 e 14 de maio pela TV Com (canal 36 da Net), do grupo RBS.
** Sociólogo. Professor no Depto.de Sociologia e Ciência Política da UFSC (1976-2010)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Muito bons, tanto o do Colombo quanto o da Ideli. Colombo é o velho de cara nova. Ideli é a saída rápida pela esquerda quando as perguntas são pura pimenta no olho.

    Posted by Aline Graziela | junho 9, 2010, 08:45

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