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Eleições 2010

A desidratada política estadual sob exame

A gente se acostuma a ler as análises apressadas e superficiais dos jornalistas sobre os candidatos a cargos políticos e acaba sempre se queixando de não conhecer direito quem está disputando nosso voto. Por isso, a partir de hoje, vou publicar, em capítulos, uma avaliação que o Remy Fontana (Sociólogo, professor no Depto.de Sociologia e Ciência Política da UFSC desde 1976) fez, depois de assistir às entrevistas que os pré-candidatos ao governo de Santa Catarina deram na TV-Com (canal da RBS para assinantes) em maio último.

Hoje publicarei o texto de abertura e, a partir de amanhã, sempre às 12:34h, a análise de cada candidato, na ordem em que foram entrevistados (a hora não tem nada especial, só achei legal a sequencia 1234):

Segunda: Ideli Salvatti (PT);
Terça: Raimundo Colombo (DEM);
Quarta: Eduardo Pinho Moreira (PMDB); e
Quinta: Ângela Amin (PP).

Bom proveito.

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Ideli, Colombo, Pinho Moreira e Ângela

Ideli, Colombo, Pinho Moreira e Ângela

Entrevistas com pré-candidatos ao governo de Santa Catarina*

Personae, performances, políticas

Por Remy J. Fontana**

Campanhas eleitorais constituem um momento propício para expandir e qualificar o debate democrático, avivar o interesse por questões coletivas, aferir o peso e a relevância dos diferentes atores e de suas organizações, mapear os problemas, carências e demandas do presente e avançar propostas para o futuro. O pressuposto para que isto ocorra é um ambiente institucional e sócio-econômico que assegure condições abertas e justas de competividade e meios de divulgação e formação de opinião franqueados a distintos interlocutores, candidatos, ativistas, intelectuais, políticos, trabalhadores, empresários, sem-terras, estudantes, agricultores, etc. Se não podemos esperar que condições ótimas estejam presentes e disponíveis por igual a estes diferentes atores, a disputa eleitoral, a despeito de suas limitações, abre importantes oportunidades para a difusão e o confronto de idéias e projetos, afirmação ou negação de hegemonias.

A imprensa, notadamente a televisão, é um dos meios privilegiados deste processo. Neste sentido a TV-COM, do Grupo RBS, em maio de 2010 promoveu uma série de entrevistas com cada um dos quatro pré-candidatos ao governo de Santa Catarina: Ideli Salvatti (PT), Raimundo Colombo (DEM), Eduardo Pinho Moreira (PMDB) e Angela Amin (PP).

Três jornalistas da editoria política (Renato Igor, Moacir Pereira e Roberto Azevedo) entrevistaram durante uma hora cada candidato em dias sucessivos, explorando questões e temas reputados relevantes, ao seu juízo, sobre a sociedade catarinense e o processo político em curso. Embora com competência e pertinência em sua interpelação aos entrevistados, os jornalistas não eram particularmente intimidantes, nem a atmosfera muito desafiante ou exigente. Muitas questões, especialmente relativas a demandas óbvias dos catarinenses, como obras de infra-estrutura, ou outras, como modelos administrativos ou de formulação de políticas públicas foram idênticas para os candidatos. Assim, se em alguns momentos os entrevistadores procuraram estocar flancos mais vulneráveis, no conjunto os candidatos não foram surpreendidos, e nem por isto se sairam todos com igual sucesso. Alguns, aliás, com desempenho bem sofrível, como adiante se descreverá.

De qualquer forma a série de entrevistas contribuiu para uma primeira e ampla apresentação dos candidatos nesta campanha. Serviu para uma exposição de personalidades, estilos e idéias dos que pretendem governar o Estado, no momento em que se armam estratagemas de viabilização de candidaturas, com seu jogo e artimanhas de bastidores, de conversas cruzadas e inícios de mobilização de apoiadores partidários. Particularmente útil, pois, neste ano em que há uma atmosfera nebulosa de quem é quem, o que propõe, com quem pode contar, quem são os aliados, como montar uma aliança, como se apresentar ao eleitorado.

Sem o recurso da maquiagem do marketing político, que pasteuriza os candidatos nos programas produzidos para a propaganda eleitoral nas TVs, onde todos aparecem mais ou menos desenvoltos e seguros, entrevistas como esta da TV-COM os expõem em parte, revelando facetas de personalidade, habilidades argumentativas e eventuais outros atributos esperados de um aspirante a posições de poder.

O dado mais relevante desta conjuntura eleitoral é a desidratação da política estadual, no que concerne à candidaturas e coligações para sustentá-las, submetidas que estão à armação da grande política nacional e às candidaturas presidenciais. Com diferentes ênfases, todas as pré-candidaturas ao governo estadual carecem de eixo ou dinâmica próprios, andam vagando erráticas, tateando às cegas ou estão simplesmente paralisadas num pântano de indefinições.

Poucas vezes se viu lideranças tão confusas, ausência de estratégias, frouxidão política, pasteurização ideológica, falta de ousadia e carência de iniciativas. Todos Esperando Godot, como na peça de  Samuel Becket, expoente do “ Teatro do Absudo”, em que os protagonistas reagem a um mundo aparentemente sem sentido e como bonecos controlados ou ameaçados por forças exteriores invisíveis. Os partidos e seus candidatos em SC, como na peça de Becket, estão numa situação em que nada acontece, enquanto os espectadores/eleitores aguardam ansiosamente ver alguma coisa acontecer.

Uma das principais características de liderança está exatamente em fazer as coisas acontecerem, isto é, gerar e angariar apoios para o êxito de ações. Outra é apontar caminhos quando estes ainda não estão visíveis, e trilhá-los, mesmo quando parecem cheios de risco.

O que vemos é o contrário, todos esperam o movimento dos outros, aguardam para ver quem se compõem com quem, num vazio de critérios, cronogramas e objetivos. A única coisa que compartilham é a mesma irredutível e obstinada afirmação personalística de sua própria candidatura, que por sua vez se viabilizaria não por potência própria ou pelo jogo de forças da política estadual, mas pelo efeito residual das composições em torno da disputa presidencial. Em vez de se apresentarem como lideranças regionais que se afirmam a partir das inegáveis potencialidades do Estado e da sociedade catarinense, apequenam-se e enfraquecem a já historicamente enfraquecida posição e identidade estadual no concerto federativo e em sua relação com o poder central.

E finalmente, ao protelar a principal decisão de uma campanha, qual seja, ser ou não candidato, a que cargo e com qual composição partidária, os pré-candidatos acabam por enfraquecer suas próprias postulações.

Enquanto alguns líderes surgem por seus méritos ou por circunstâncias favoráveis, apenas alguns poucos aprendem a desenvolver suas potencialidades ou aproveitar oportunidades. Por isso tão poucos tornam-se grandes. Líderes precisam ser antes de tudo fortes interiormente consigo próprios. Tem de ter coragem para arriscar fracassar, coragem para assumir responsabilidades pelo destino de seu partido e coragem para hipotecar seu futuro no potencial ainda não realizado de suas forças partidárias e de seus apoiadores.

(Amanhã, Ideli Salvatti)

*Entrevistas realizadas entre 10 e 14 de maio pela TV Com (canal 36 da Net), do grupo RBS.
** Sociólogo. Professor no Depto.de Sociologia e Ciência Política da UFSC (1976-2010)

Créditos das fotos: Waldemir Barreto/Ag. Senado (Ideli); Geraldo Magela/Ag. Senado (Colombo); Neiva Daltrozo/Secom (Pinho Moreira); e Janine Moraes/Ag. Câmara (Ângela).

Discussão

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  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Maria Júlia Manzi, PGCMdebiasi. PGCMdebiasi said: Sociólogo Remy Fontana analisa os pré-candidatos ao governo de SC. Cada dia um candidato diferente em http://bit.ly/da4ve1 [...]

    Posted by Tweets that mention De Olho na Capital | A desidratada política estadual sob exame -- Topsy.com | junho 7, 2010, 13:57

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