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Amigos

Lanzetta e a vingança do araponga

Daniel Herz, Lanzetta e eu, jovens, na longínqua década de 80

Daniel Herz, Lanzetta e eu, jovens, na longínqua década de 80 (acervo de família)

Antes de começar, acho bom dizer (para que vocês saibam exatamente onde me situo) que sou amigo do Luiz Lanzetta desde a década de 70, trabalhamos juntos no Bom Dia, Domingo (jornal semanal do George Daux), entramos juntos na UFSC como professores, fizemos mestrado na UnB juntos e na década de 90 ele me levou para trabalhar na CDN, empresa de assessoria de imprensa da qual era um dos diretores, em São Paulo. Durante alguns meses morei no apartamento dele. Depois, fui para a Gazeta Mercantil e nos afastamos um pouco, cada um com seu caminho, com muito pouco contato nos últimos tempos. Mas, para o bem ou para o mal, eu o considero meu amigo. E é com olhos e coração de amigo que tenho acompanhado o noticiário envolvendo seu nome. Portanto, não acredito em muita coisa que nas últimas semanas têm sido dita sobre ele e sobre a forma como teria conduzido seu trabalho.

Acho que ele explica o caso nesta entrevista ao Fernando Rodrigues, da Folha, que transcrevo abaixo, de uma forma bem consistente. E é nisso que acredito: um araponga tentou vender seus serviços, não conseguiu e resolveu criar um caso. Como qualquer coisa que se fale envolvendo comando de campanhas presidenciais ganha repercussão, o troço decolou. Naturalmente, turbinado pelo fato nada desprezível que o Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, que foi quem levou Lanzetta para a campanha, estar sob fogo cerrado de outros petistas graduados, desejosos de tomar-lhe o lugar. Os inimigos internos ajudaram a repercutir a história do araponga e a coisa teve resultado: Pimentel enfraquecido e Lanzetta fora da campanha, chamado até de “aloprado”.

05/06/2010-15h05
Jornalista sai da campanha de Dilma após polêmica sobre dossiê

FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

O jornalista e consultor Luiz Lanzetta pediu hoje desligamento da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT) a presidente. A sua empresa, a Lanza, era usada até agora pelo PT para contratar a maioria dos integrantes da equipe de comunicação dilmista.

Hoje de madrugada, depois de ler uma entrevista do delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo Sousa à revista “Veja”, acusando-o de ter proposto a montagem de um esquema de espionagem contra tucanos, Lanzetta oficializou sua saída enviando uma carta a Helena Chagas, coordenadora da assessoria de imprensa de Dilma.

À Folha Lanzetta negou ter proposto a montagem de um esquema de espionagem contra tucanos. Apesar das acusações, disse ter ficado aliviado com a entrevista de Onézimo. Assumiu toda a responsabilidade pelo episódio. “Tudo o que aconteceu diz respeito a mim. A reunião foi um ato feito voluntariamente por mim. E agora ficou claro que não tem central de arapongas e dossiês porque ninguém foi contratado. Então eu posso me desligar e me aliviar e ir embora”.

A reunião à qual Lanzetta se refere foi um encontro no dia 20 de abril, no restaurante Fritz, em Brasília. Além dele próprio, estavam presentes outras quatro pessoas: o delegado Onézimo, o jornalista Amaury Ribeiro Jr., Idalberto Matias de Araújo, o Dadá (sargento da reserva e ex-agente do serviço secreto da Aeronáutica) e Benedito de Oliveira (empresário de Brasília com boas ligações no governo petista).

Segundo Onézimo relatou à “Veja”, no encontro no Fritz foi feita uma proposta de operação de espionagem de adversários políticos do PT. Lanzetta nega: “O importante disso tudo é que há duas coisas que se confirmam. Primeiro, os cinco dizem que não houve negócio. Segundo, dos cinco presentes só um diz que eu propus algo para ele. Os outros relatam que algo foi proposto a nós”.

Lanzetta relata o que teria ouvido de Onézimo: “Ele veio se oferecer para acompanhar o Marcelo Itagiba [deputado federal pelo PSDB do Rio e ligado a José Serra, pré-candidato tucano a presidente]. Disseram que sabiam que o Marcelo Itagiba estava trabalhando porque já trabalharam na equipe dele e o conheceram. Falaram que o Marcelo Itagiba estava fazendo cem dossiês contra a base aliada. Estaria fazendo isso com uma série de ex-agentes da Polícia Federal e da Abin no gabinete dele. Essa informação era o que eles queriam dar e depois se ofereceram para ir atrás disso. Era uma coisa um pouco pirotécnica. Mas da nossa parte nada prosperou. É impressionante: é uma coisa da qual caímos fora e ficou como se tivéssemos feito”.

Lanzetta exime de responsabilidade todos os integrantes da cúpula petista nesse episódio do restaurante Fritz. Nega também que seu principal contato na direção da campanha, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, soubesse do encontro previamente.

A seguir, trechos da entrevista:

Folha – Quem estava na reunião de 20 de abril no restaurante Fritz, em Brasília?
Luiz Lanzetta – Cinco pessoas. Onézimo, Amaury, o Dadá, o Benedito e eu.

Folha – Quem marcou a reunião e fez os convites?
Luiz Lanzetta – Eu não me lembro.

Folha – Por que pessoas como o Benedito e o Amaury estavam nessa reunião?
Luiz Lanzetta – O Benedito estava lá até para me servir de testemunha agora. Até porque o Onézimo parece ter sido acometido por uma crise de ética que ficou retida por dois meses. Ele chegou ao encontro dizendo que transportava dinheiro. Os dois, ele e o Dadá, falaram ter conhecimento de que o Marcelo Itagiba estaria montando cem dossiês. Ofereceram-se.

Folha – Como foram os contatos seguintes?
Luiz Lanzetta – Nunca mais vi os dois. O fato a ser dito é que não foi feito nenhum contrato.

Folha – Numa entrevista, Onézimo falou ter sido proposto a ele grampear e espionar pessoas. Isso não é fato?
Luiz Lanzetta – Ele que ofereceu serviços de espionagem. Eu fui lá ouvir. Levantei e fui embora.

Folha – Mas Onézimo é muito assertivo ao dizer que foi proposto a ele buscar dados da vida pessoal do pré-candidato José Serra.
Luiz Lanzetta – Não é verdade. Não se tratou de Serra. Ele montou essa reunião agora para dar essa mídia toda. Não teve isso. Eu fui para uma reunião, ouço um monte de coisa, levanto e vou embora. Não faço contrato. Nunca mais falo com a pessoa. De repente aparece como se fosse uma proposta minha? Eu nunca mais quis encontrar com ele.
Ele veio se oferecer para acompanhar o Marcelo Itagiba. Disseram que sabiam que o Marcelo Itagiba estava trabalhando porque já trabalharam na equipe dele e o conheceram.

Folha – Mas Onézimo se ofereceu explicitamente para investigar Marcelo Itagiba?
Luiz Lanzetta – Explicitamente.

Folha – Qual serviço exatamente foi oferecido?
Luiz Lanzetta – Eles começaram a falar o que eles têm de serviço. Demonstram como seguem, como gravam. Essas coisas todas. Eu comecei nem prestar mais atenção. Eles falaram que o Marcelo Itagiba estava fazendo cem dossiês contra a base aliada. Estaria fazendo isso com uma série de ex-agentes da Polícia Federal e da Abin no gabinete dele. Essa informação era o que eles queriam dar e depois se ofereceram para ir atrás disso. Era uma coisa um pouco pirotécnica. Mas da nossa parte nada prosperou. É impressionante: é uma coisa da qual caímos fora e ficou como se tivéssemos feito.

Folha – Onézimo diz ter sido convidado para a reunião no Fritz pelo Pimentel. Isso ocorreu?
Luiz Lanzetta – É delírio. O Pimentel nem sabia disso. Só fui falar depois, quando começou a aparecer essa reunião. Falei para ele como tinha sido e que nada havia sido acertado.

Folha – Há uma informação de que Fernando Pimentel tinha conhecimento sobre a finalização da apuração que Amaury Ribeiro Jr. fazia, sobre privatizações e negócios de Verônica, filha de José Serra. Como se dava essa troca de informações?
Luiz Lanzetta – Não tinha. De minha parte, não.

Folha – Mas o Amaury poderia falar diretamente com Pimentel?
Luiz Lanzetta – Ah… só se houve algo assim. Porque nunca houve reunião que eu tenha visto dos dois.

Folha – Há também uma informação de que por algum canal, da pré-campanha ou do PT, Amaury Ribeiro teria sido remunerado regularmente para continuar suas apurações. Essa informação é real?
Luiz Lanzetta – Não tenho conhecimento. Pelo que eu sei não houve nada. O Amaury tem recursos para tocar a vida dele.

Folha – Quais serão seus próximos passos na pré-campanha?
Luiz Lanzetta – Hoje devo soltar uma nota a respeito de tudo. Tudo o que aconteceu diz respeito a mim. A reunião foi um ato feito voluntariamente por mim. Hoje [ontem] eu mandei uma carta para a pré-campanha e me desliguei. E agora ficou claro que não tem central de arapongas e dossiês porque ninguém foi contratado. Então eu posso me desligar e me aliviar e ir embora. Ninguém foi contratado, não existe. Mandei uma carta hoje [ontem] de madrugada. Quando eu vi as entrevistas [de Onézimo e uma reportagem sobre Dadá] eu pensei: ‘Dá para falar’. Fiquei tranquilo porque tudo está no meu âmbito. A carta foi para algumas pessoas, mas basicamente para a Helena Chagas.

Folha – Mas o seu contrato não vai até o final de junho?
Luiz Lanzetta – Eu estou saindo pessoalmente. O meu contrato eu estou abrindo mão e com grande alívio.

Folha – Mas se ao seu juízo nada errado foi feito, por que então sair da campanha?
Luiz Lanzetta – Por que não tenho como ficar na campanha nessa situação. É melhor para todos a minha saída. Foram 40 dias dizendo que eu fiz uma coisa que eu não fiz. E o principal é que ficou esclarecido que nenhum negócio foi feito como nos acusaram.

EM TEMPO

O Paulo Brito, que tem memória melhor que a minha, informa que a foto acima foi tirada durante um aniversário do Daniel (filho dele, xará do Herz) celebrado no restaurante do Coxinha, localizado na praia da Saudade em Coqueiros, “bem ali naquela curva do Tritão, hoje Trintão”. Ele acha que o fotógrafo foi o Pedro Melo, que na época era servidor da UFSC e trabalhava no curso de Jornalismo.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Pô Tio Cesar, nossa relação (sic) jornalística começou, pois, antes de 1981, na UFSC e do Lanzetta, Deniel Hertz, Adelmo e tantos outros. Como vcs eram jovens e quão frango éramos os estudantes daquelas primeiras turmas. Meu primeiro `emprego` foi como entregador de Bom Dia Domingo, que pegávamos aos fardos (pequenos) ao lado da Catedral, de bicicleta, em manhãs `aventurosas` e bem-aventuradas para três amigos que saíam do glorioso Estreito, ali perto da Marcelino Simas com a Gaspar Dutra, de bicicleta, para dar umas bandas por uma Florianópolis silenciosa, tranquila e segura. Era puro divertimento. Quanto ao Lanzetta, foi engolido pela concorrência interna do fogo-amigo petista, engolfado e regorgitado pela própria raça com o estigma de aloprado crivado na testa. Minha falecida mãe reproduzia minha falecida vó quando eu fazia alguma mhélda: quem dorme com cachorro amanhece com pulga.

    Posted by LesPaul | junho 7, 2010, 08:52
  2. Help me Sr. Cesar. Meio atolemado do pirão que sou, num compreendi:

    Folha – Quem estava na reunião de 20 de abril no restaurante Fritz, em Brasília?
    Luiz Lanzetta – Cinco pessoas. Onézimo, Amaury, o Dadá, o Benedito e eu.

    Folha – Quem marcou a reunião e fez os convites?
    Luiz Lanzetta – Eu não me lembro.

    DEPOIS:

    Folha – Quais serão seus próximos passos na pré-campanha?
    Luiz Lanzetta – Hoje devo soltar… Tudo o que aconteceu diz respeito a mim. A reunião foi um ato feito voluntariamente por mim….

    Posted by TOLINHO DIFARINHA | junho 7, 2010, 09:42
  3. Tolinho, eu entendi que ir à reunião foi um ato voluntário. Ninguém o obrigou a ir (respondeu dessa forma decerto porque tem gente querendo dizer que Pimentel e Dilma tinham mandado ele lá). Quanto à amnésia momentanea sobre quem organizou a reunião, não acho muito relevante, uma vez que em outros trechos da entrevista e em outras matérias ficou claro que a conversa teria sido marcada de comum acordo: um queria falar, o outro queria saber do que se tratava. Depois que a conversa começou, parece que a coisa desandou, mas a partir daí acho que mesmo os tolinhos entenderam…

    Posted by Cesar Valente | junho 7, 2010, 11:34
  4. Cesar, mas que o fogo é “amigo”, parece que sem dúvida é. Ou sou tão tanso quanto o comedor de pirão? E aqui está o busilis da quaestio: até que ponto as brigas internas do PT, imaginando-se mais (ao menos) 4 anos então sob a batuta de Dilma, … as brigas interferirão na campanha. semana passada, se não me engano no Boechat, um senador nordestino do PMDB disse que depois das pesquisas favoráveis o salto alto da `ekipe` de campanha e a disputa interna poderiam derrubar a candidata oficial.

    Posted by LesPaul | junho 7, 2010, 12:29
  5. Então porque tanto escândalo? Os repórteres não falaram com o Lanzetta e com o Amaury antes de sair com a versão do araponga como se fosse a mais pura verdade? Existe algum indício de algo mais sério acontecendo? Me parece que não, estão tentando apenas criar caso para vender revistas e jornais (para ficar apenas nas motivações de cunho comercial).

    Posted by Carlos Henrique | junho 7, 2010, 16:23
  6. Uma coisa é certa: Esse Jornalista Amaury Jr tem peito. Disse que pode provar palavra por palavra dos diálogos com os tais arapongas. Se ele gravou a conversa, a casa de alguém está para cair, se não houver uma operação abafa muito forte, o que parece já estar acontecendo. E o Jornalista Lanzetta parece ter caído de gaiato ou não ter um traquejo como o Amaury para lidar com esse tipo de gente. A salvação dele seria uma possível divulgação de áudios da conversa, mas mesmo assim a pecha de aloprado já colou nele. A mídia não perdoa.

    Posted by Yuri | junho 8, 2010, 00:37

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