Deve ter sido o dia chuvoso, cinza e frio, mas depois de dar uma olhada nas folhas, de papel e de pontinhos luminosos, fiquei com pena do prefeito Dário Berger.
Em mais de uma ocasião ele se queixou da incompreensão das leis, do rigor dos oponentes, da insensibilidade dos críticos e das dificuldades de exercer um cargo político. Imagino como não estará agora, debaixo dessa chuvinha chata e persistente, sob a luminosidade bruxuleante de alguma lâmpada sacudida pelo vento frio, vendo ruir, sob seus pés, o que ainda restava de confiança na humanidade.
Vejam só se não é um calvário ígreme e pedregoso, esse que ele tem escalado:
1. Não teve absolutamente nada a ver com o rolo da árvore de Natal ou do concerto do Bocelli e a bomba estoura no colo dele, paralisando obras que seriam a redenção da cidade e a solução de todos os problemas. E ainda têm a coragem de dizer que só porque ele foi o ordenador primário, teria que dar conta do dinheiro desaparecido. Que desaforo! Que falta de cultura administrativa!
Todos sabem que o ordenador primário só assina a documentação pro forma, como uma espécie de autógrafo de celebridade no decote da fã mais afoita. Não vale para o mal. Só está ali para o caso de dar tudo certo e o show ser um sucesso. Aí o prefeito poderia, com todo o direito, afirmar em público: “fui o ordenador primário”.
Como deu merda ele tem, em sua defesa, afirmado, cheio de indignação: “incluam-me fora disso, fui apenas o ordenador primário, vão atrás do Cavallazi”.
E quem é esse secretário da Fazenda, magrelo de uma figa, pra ficar dizendo que o estado não pode repassar dinheiro pro município enquanto o dinheiro do Bocelli não aparecer? Ah, se o LHS ainda estivesse no governo, isso não aconteceria. Afinal, se o Dário foi o ordenador primário, quem sugeriu o tenor e encheu o Cavallazi de gás pra contratar o cara, foi o próprio LHS. LHS foi o ordenador pré-primário.
2. E agora vem o procurador geral eleitoral desafiar os eleitores catarinenses, dizer que, de fato, um prefeito não pode ficar disputando eleição indefinidas vezes. Onde ele acha que está vivendo? Que país ele pensa que é este? Desde quando a Constituição obriga todo mundo a se comportar feito carneirinho, obedecendo à mesma ordem, como se ninguém tivesse criatividade e apoio popular?
Se o povo de Florianópolis não deu bola para esse detalhe mínimo, não cabe certamente aos tribunais contrariar a vontade do eleitor. Além de tudo, essa raça é muito devagar. Perderam o ponto, não conseguiram embarcar no ônibus sem ar condicionado da história. Agora que o Dário está no final do quarto mandato, não adianta mais nada dizer que foi tudo ilegal.
Vão fazer o quê? Cassar simbolicamente? Gente mais sem noção. Tão fazendo isso só pra incomodar um prefeito dedicado, eficiente e bonitão. Ainda se anulassem todos os atos praticados pelo prefeito nos seus dois últimos mandatos, ainda teria alguma graça. Criaria uma enorme confusão, mas pelo menos os blogueiros teriam assunto pro ano todo. Mas que nada, é capaz de valer tudo mesmo que, no TSE, cassem o diploma do cara.
3. Aí, pra organizar a casa e deixar a prefeitura bem instalada, o Dário escolhe um terreninho jóia pra construir o tal de “próprio municipal”. O que fazem os “do contra”? Implicam com esse gesto proativo do prefeito. Esta é uma cidadezinha cheia de malas mesmo. Se não faz nada, é porque não faz nada. Se se afasta, pra refrescar a cabeça e deixar os auxiliares trabalharem em paz, é porque é ausente. Se toma uma decisão e resolve ocupar um terreno meio vago com um prédio moderno para a prefeitura, é porque é contra parques e jardins.
Ora, já dizia o sábio ex-vereador Juarez Silveira, que Florianópolis não é como Porto Alegre, aqui o pessoal não liga para parques. Não temos tradição de parques. A gente não sente falta disso. Talvez porque nunca ninguém tenha feito um parque bacana por aqui. Mas o fato é que depois de tanta mudança no Plano Diretor, o que é que custava ter mudado mais uma vezinha, pra permitir a construção do espigão do Dário?
4. Tá, os peemedebistas tinham a faca, o queijo e a goiabada na mão, podiam ter um candidato a governador que fosse assim com a Dilma, um político dinâmico que, além de tudo, é irmão do patrão da filha do cara, mas preferiram o Dr. Moreira. Baita sacanagem. E agora ainda querem o apoio dele. Bem que ele faz, deixando o corpo molinho e fazendo olhar de paisagem. Ainda é cedo para embarcar nesta ou naquela canoa.
Poderia ficar aqui a tarde inteira, enumerando as pedras que essa gente maldosa coloca nos sapatos de cromo alemão do galego. Na maior parte dos casos, é pura inveja. E em outra parte, é despeito. Mas o futuro mostrará que Florianópolis nunca mais será a mesma, depois que os irmãos Berger colocaram sua marca na cidade. E vamo que vamo.
EM TEMPO
Faltou falar da ressaca. Desse mar ingrato que agora resolveu também atazanar a vida do Dário. Que culpa pode ter o coitado do prefeito, se as pessoas constroem à beira-mar, se fecham canais, se alteram a faixa de arrebentação, se ficam bulindo com a natureza? Aposto que vão achar que a emergência na Armação tem a ver com o dinheiro desaparecido no Natal. Vingança do Papai Noel?
Daqui a pouco vai aparecer algum engraçadinho dizendo que a prefeitura deveria monitorar o litoral. Ora, ora, se o MPF vive dizendo que a faixa de marinha é da União, por que o Dário teria que se preocupar com isso?
Debochado….
Salvei o texto nos favoritos e vou compartilhar com muita gente daqui e de fora..Parabéns.Fazia tempo que não lia algo tão bom nos blogs da cidade.Benvindo de volta.
A matéria da RBS sobre a praia da armação veio bem a calhar com os interesses do Prefeito e a falta de dinheiro da prefa para pagar suas contas e receber dinheiro do Estado… cheiro de mutreta no ar.
[...] Tadinho do Dário [...]