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Fala leitor

Na ponta do lápis o ônibus perde…

O texto abaixo é de um estudante de Engenharia, que se deu ao trabalho de calcular o custo do transporte em Florianópolis. Num gráfico, mostra a relação entre o ônibus e o automóvel particular. O resultado é mais ou menos aquele que a gente imaginava: não existe qualquer estímulo para deixar o carro em casa. Ao contrário. Taí, divirtam-se:

INFELIZMENTE O CARRO É MAIS BARATO

Por Pedro Magalhães
Estudante de Engenharia Mecânica da UFSC

Há muito que o termo “sustentabilidade” deixou de ser somente um jargão acadêmico e passou a guiar as ações governamentais ao redor do mundo. Não só no Brasil, inúmeros esforços se dão no sentido de aumentar a eficiência energética dos processos industriais, diminuir o consumo dos automóveis, bem como reduzir a utilização de combustíveis fósseis optando por fontes mais limpas de energia. Estas ações têm a intenção de mitigar a atuação dos gases do efeito estufa na atmosfera, causadores do aquecimento global, e melhorar a qualidade do ar nas cidades.

No entanto, estes esforços só se mostram eficazes havendo uma ampla participação da população. Para a construção de uma sociedade sustentável, é fundamental, por exemplo, economizar energia elétrica e água, assim como diminuir o consumismo. Não menos importante é reduzir o uso dos automóveis. Segundo o Balanço Energético Nacional de 2009 – estudo feito pela Empresa de Pesquisa Energética, EPE – os veículos a gasolina e álcool foram responsáveis por mais de 12% da energia consumida no país no ano de 2008. Além deste fator, os veículos contribuem de forma direta e indireta na poluição atmosférica.

Em Florianópolis, o prefeito Dário Berger parece trabalhar contra uma vida urbana melhor. Somado ao problema ambiental, o elevado número de automóveis na cidade vem trazendo um grande problema de mobilidade para a população, que presencia diariamente os engarrafamentos das avenidas. Como se já não fosse demais, o preço da passagem aumenta indiscriminadamente, sem levar em conta os fatores sociais e ambientais, ou seja, priorizando somente o ganho das empresas do transporte.

Como forma de ilustrar o tipo de política viária de Florianópolis foi criado o gráfico abaixo. Ele mostra o custo em função da distância percorrida, associado a uma determinada modalidade de transporte. Na vertical temos o custo por pessoa, em reais, e na horizontal a distância percorrida, em quilômetros. As modalidades de transporte são: o transporte público, o carro com apenas um passageiro e o carro com dois passageiros. Para o cálculo, assume-se que a pessoa já possua um carro a gasolina, com um consumo médio de 10km/l, que o preço da gasolina seja de R$2,50 por litro e que o preço da manutenção do veículo seja de R$0,10 por quilômetro.

CQD

CQD

Para os casos do carro com um ou dois passageiros, o custo por pessoa aumenta conforme a distância percorrida. Para o transporte público, como a tarifa assumida é a tarifa única de R$2,95, o custo por pessoa permanece constante, ou seja, pode-se andar livremente, independente da distância, pagando apenas uma tarifa.

Através do gráfico, nota-se que para uma pessoa dirigindo um veículo sozinha, não é vantajoso utilizar o transporte público quando se deseja percorrer uma distância menor que 8km, ou seja, para se deslocar da UFSC ao Centro, é mais barato ir sozinho de carro do que ir de ônibus. Ainda, para um trajeto intermediário, como da Lagoa da Conceição ao Centro, continua sendo mais vantajoso ir num automóvel com duas pessoas do que utilizar o ônibus.

Não há nenhum benefício para se usar nosso Transporte Coletivo. As tarifas são abusivas, os ônibus não são freqüentes e, principalmente, o sistema não é confiável, sujeito a constantes mudanças de horários e linhas. Assim, o uso do automóvel é incentivado como política pública, agravando o problema ambiental e os congestionamentos na cidade. Só anda de ônibus quem não pode escolher. Quem tem carro, por mais que se preocupe com os problemas ambientais, escolhe não andar de ônibus devido ao sistema inconveniente e caro. O transporte público precisa oferecer benefícios para que essa escolha seja diferente.

Inicialmente, é necessário diminuir drasticamente o preço da passagem para que Florianópolis volte a se mover. Outras soluções podem ser implementadas juntamente com a diminuição da tarifa única, como por exemplo, a tarifação da passagem feita por zonas, incentivando o uso do ônibus para curtas distâncias e assim diminuindo o tráfego no Centro e em outros “gargalos” da cidade. Em relação aos engarrafamentos, existe a possibilidade de se utilizar o famoso “corredor de ônibus”, aprovado em diversas cidades do país. Priorizando-se o transporte coletivo, a cidade economiza em obras públicas necessárias para suportar o crescente número de veículos, além de manter a qualidade de vida, colaborando com os esforços mundiais para diminuição do efeito estufa.

A afirmação simplista do prefeito Dário Berger reflete a sua péssima administração: “Não tem como fazer mágica. Infelizmente alguém precisa pagar essa conta. Sempre que houver reajuste de salário, haverá aumento das passagens”. Ora, nada mais absurdo! As ações da prefeitura junto às concessionárias do serviço de transporte público devem ser para que haja uma melhoria na qualidade do transporte e para que o preço da passagem seja acessível à população, e não em defesa da incapacidade dessas empresas, que não conseguem – ou não tentam – diminuir os custos. A otimização do sistema de transporte, bem como a redução de custo, deve ser exigência da prefeitura e problema das empresas. A partir do momento em que estas não forem capazes de atender às exigências, devem perder a concessão do serviço e uma nova licitação deve ser realizada. Não há mágica!”

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Muito bom! Parabéns ao Pedro Magalhães. Isso é pauta. Saiu matéria em algum jornal?
    abs

    Posted by paulo henrique | maio 13, 2010, 17:14
  2. PH: of course not!

    Posted by Cesar Valente | maio 13, 2010, 18:12
  3. Repito e insisto: acabem de vez e radicalmente com a Zona Azul. Deixará de ser barato estacionar o carro no Centro, além do que teremos um ganho enorme com a humanização da cidade.

    Posted by Guilherme | maio 13, 2010, 18:29
  4. Mandou bem o rapaz.
    Faltou ainda computar o tempo perdido com o onibus, em todas as paradas e baldeações.
    Moro na Esteves Jr, e trabalho no Itacorubi, se usasse o onibus tava f… teria que sair pelo menos 30 minutos antes de casa. E 30 minutnhos a mais de sono é bom nao? E gastaria mais ou menos a mesma coisa.
    Tem a opção do amarelinho, mas é caro pela carroça que tem na rua, e alguém teve a oportunidade de pegar um amarelo na Gama D’eça pela manhã? Tem que laçar o bicho.

    Posted by Wilmor Henrique | maio 13, 2010, 21:31
  5. [...] This post was mentioned on Twitter by Germano Martins. Germano Martins said: É matemática! Não tem porque andar de ônibus em Florianópolis…E olha que o carro do cara é beberão…. http://bit.ly/baUzzJ [...]

    Posted by Tweets that mention De Olho na Capital | Na ponta do lápis o ônibus perde… -- Topsy.com | maio 13, 2010, 22:00
  6. Obrigado por publicar o texto, César.

    Quanto aos jornais, acho que provavelmente sai alguma coisa nos próximos dias, pois o texto foi enviado somente hoje à tarde por email…

    Posted by Pedro Magalhães | maio 13, 2010, 22:34
  7. Sem falar de todo o conforto neh… custo de oportunidade. Latão hoje nem pensar…

    Posted by Aline Graziela | maio 14, 2010, 08:42
  8. Enquanto isso, reparem a hora do Rush na Holanda.
    http://www.youtube.com/watch?v=n-AbPav5E5M

    Posted by Alessandro | maio 14, 2010, 11:03
  9. É preciso, além de baratear o busão, encarecer o uso do carro. Área azul a 70 centavos a hora (em Blumenau) é mumu! Queria ver se fosse 5 paus…

    Posted by Leo Laps | maio 14, 2010, 11:08
  10. Parabéns pelo texto, colocou no papel de forma clara o que penso a tempos. A prefeitura precisa agir dos dois lados: dificultar o uso do carro (com restrições ao tráfego e estacionamento) e incentivar o uso de transporte coletivo e individual não motorizado (bicicletas). Estamos parados na década de 70, discutindo a ampliação de avenidas, pontes e viadutos, fazendo o possível para transformar nossas cidades em um local cada vez mais agradável… para os carros!

    Posted by Luiz | maio 14, 2010, 11:39
  11. Cálculos totalmante equivocados! Para impressionar, o autor fez os mesmos pelo valor da tarifa embarcada (R$ 2,98, apenas 20% dos pagantes do sistema), sem considerar que se pode utilizar o cartão eletrônico com a tarifa de R$ 2,38 ( mais de 70% do sistema), bem como, o desconto de 50% para estudante ficando a tarifa em R$ 1,19, da tarifa social de R$1,60 (cartão) e R$ 1,95 (embarcada).
    Para destacar a vantagem do uso do automóvel considerou somente o preço do litro da gasolina, sem levar em conta o “custo de capital para aquisição do automóvel” (não existe nenhum carro novo com valor inferior a 24 mil e a média nacional de aquisição, são carros com valor acima de 32 mil), “taxa de depreciação”, “licenciamento”, “seguro”, “manutenção” etc, etc…
    PARA TERMOS UM TRANSPORTE BARATO, EFICIENTE E COM CONFORTO TEMOS QUE LUTAR POR: vias exclusivas para implantação do “BRT – Bus rapid transit”, restrição de estacionamento no centro da cidade,eliminação das inúmeras gratuidades e descontos existentes, pois a tarifa do transporte nada mais é que o resultado da equação: QUANTO CUSTA dividido POR QUANTOS PAGAM !

    Posted by Elias Sombrio | maio 14, 2010, 15:34
  12. Caro Elias,

    Acredito que nenhum cálculo seja equivocado. Na conta que fiz, não quis forçar nenhum resultado. O que assumi foi, simplesmente, uma pessoa que já possui carro e tem as opções de utilizar o próprio veículo ou o transporte coletivo.

    Se você ler o texto, vai ver que foi considerado sim um custo de manutenção por quilômetro rodado. Ainda, foi utilizado um valor da gasolina que é mais alto que o valor atual. Ah, o famoso “corredor de ônibus” foi mencionado.

    É claro que se você deseja fazer um cálculo para saber se é viavel SOMENTE utilizar o ônibus, vai ter que considerar os impostos, seguro e taxa de depreciação. Porém, a curto e médio prazo, acho que a maioria não vai optar por se desfazer do carro, não é mesmo?

    Aproveitando a deixa, gostaria de saber onde você conseguiu a informação de que somente 20% dos passageiros pagam a tarifa dos “sem-cartão”. Acho que tem muita gente atrás desses dados…

    Atenciosamente,
    Pedro

    Posted by Pedro Magalhães | maio 14, 2010, 17:11
  13. Em Blumenau implantaram aquele sistema de “aluguel” de bicicletas públicas. Alguém sabe se está funcionando bem?

    Posted by Carlos Henrique | maio 14, 2010, 17:13
  14. Se o transporte público da capital é uma simples equação entre “QUANTO CUSTA” e “QUANTOS PAGAM” (e não o Direito Fundamental à Cidade) a pergunta que fica é: se essa conta nunca fecha (como diz o dizem o Prefeito e seu vice) por que diabos os empresários continuam neste ramo?

    Ora, convenhamos. Num contexto de otimismo generalizado em torno da realidade econômica brasileira, não seria mais inteligente partir pra qualquer outra área? Vão construir fábricas, vão! Vão comprar títulos da dívida pública!

    Atividades da Administração Pública, em especial o Serviço Público, não é, nem existe para se submeter à estúpida lógica do lucro. Ainda que o lucro seja necessário ao funcionamento ciclo do sistema, não é em virtude deste que o transporte existe. O transporte público existe para SERVIR AS PESSOAS – o que não é o caso desta cidade.

    Cria-se uma cultura para além do automóvel individual quando se constituem condições adequadas para a saudável vivência na cidade sem a sua necessidade. O dia que eu puder visitar a minha avó na Trindade (moro em coqueiros) num domingo, sem perder duas horas e meia da minha vida, ou que eu possa ir para a Lagoa num sábado à tarde sem perder horas à espera de ônibus inexistentes – aí sim. Aí sim poderei dizer que o transporte está voltado para as pessoas. Estou falando do direito à cidade, meus caros. Que se exploda o lucro de quem sempre viveu à base de relações obscuras com o Poder Público. São esses os parasitas que têm destruído esta ilha. Devem ser extirpados pela raiz.

    Posted by Fernando J. C. Bastos Neto | maio 14, 2010, 17:59
  15. É preciso encarecer o uso do busão. Passagem a dez reais, assim todo mundo vai andar de bicicleta na marra. (para o Leo Laps).

    Posted by cego | maio 14, 2010, 18:27
  16. (…) É tão simples perceber que o transporte público em Florianópolis é uma porcaria que até quem é cego enxerga o problema. Só não vë quem está ganhando com essa situação.

    Posted by Joanidlo | maio 14, 2010, 18:53
  17. Graziela mencionou “custo de oportunidade”, que é um dos conceitos mais interessantes e intrigantes de economia.
    Só o Elias não percebeu que o raciocínio trata da escolha: usar o próprio carro (que a pessoa já tem!) ou o ônibus. Diante disso, só anda de ônibus quem não tem outra alternativa. E não adianta apelar para a consciência ambiental dos cidadãos. Além de custo de oportunidade, os honoráveis gênios da prefeitura devem prestar atenção em outro conceito importantíssimo: incentivo. Pessoas respondem a incentivos!

    Posted by paulo henrique | maio 14, 2010, 19:43
  18. faço todos os meses cálculos parecidos com o que o Pedro colocou aqui para ver se continua valendo a pena andar de carro (adquiri o meu primeiro há um ano). Como vamos eu e minha esposa trabalhar de carro, vale muito a pena. Gastamos, em média, R$ 190 por mês com combustível (incluindo passeios de fim de semana, viagens, etc.). Se fôssemos os dois trabalhar de ônibus, gastaríamos R$ 210 só de passagens, mais o combustível do fim de semana e viagens.

    “Ah, mas e o seguro, a manutenção do carro, etc.!”. Sim, é verdade, existem esses gastos. Mas com o carro chego no trabalho em 10 minutos (de ônibus, levava de 30min a 50min, dependendo do dia), vou sentadinho, confortável, ouvindo música e protegido da chuva. Melhor de tudo: tenho estacionamento de graça no local de trabalho. Pesando os prós e os contras, se continuar como está hoje, jamais quero voltar a andar de ônibus. A não ser que a tarifa baixe muito.

    acho que o grande erro desse sistema é ter tarifa única numa cidade onde algumas linhas percorrem 5km e outras 50km. Quem mora longe, que é a minoria (pelo menos 50% da população mora no Centro e bairros próximos), deveria pagar mais.

    Posted by Felipe | maio 18, 2010, 10:07

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