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Caraminholas

Idéias cinzentas numa terça chuvosa

Na época da ditadura militar brasileira, ficou famosa uma frase que teria sido dita pelo então vice-presidente, Pedro Aleixo, ao ministro da Justiça, Gama e Silva, numa discussão sobre o AI-5, o ato institucional que transformava a, vá lá, ditabranda numa ditadura propriamente dita. Segundo reza a lenda, Gama e Silva, em defesa do AI-5, teria perguntado a Pedro Aleixo: “Vossa Excelência não respeita a posição do Presidente, não acredita na Justiça com que ele vai conduzir isso?” E a antológica resposta dele: “Não tenho nenhum receio em relação ao presidente, eu tenho medo do guarda da esquina”.

Essa frase teve inúmeras demonstrações trágicas de sua clarividência nos anos de chumbo, mas continua valendo. Basta ver o que ocorreu na porta de uma agência do Bradesco, em São Paulo, onde um vigilante armado baleou um cliente que morreu algum tempo depois.

Este poder quase de vida ou morte que os bancos (e a legislação brasileira) dão aos vigilantes despreparados de porta de banco parece razoável quando examinado em nível de diretoria ou à distância. Claro,  é preciso proteger o patrimônio, funcionários e clientes de malfeitores. É preciso ter segurança. E o banco “jamais” iria fazer algo contra seus clientes (exceto aquilo que todo banco faz, desde que inventaram o dinheiro).

No dia, a dia, o que se vê é moleques irresponsáveis com a mão no controle remoto, fazendo a porta travar na cara de quem eles acham que deve ser bloqueado. Mesmo que não tenha nenhum objeto de metal no corpo. Divertem-se, no mais das vezes, com a irritação do otário. Não é à toa que de vez em quando alguém ameaça tirar a roupa diante dessas portas. E isso só os diverte mais ainda.

O assassinato do aposentado Domingos Conceição dos Santos é um caso que deveria ser usado como exemplo de como as coisas andam mal paradas. Os portadores de marcapasso cardíaco não podem passar pelo detetor de metais. Mas Domingos era negro. Na ignorância do vigia, na sua prepotência, na sua psicopatia, viu ali uma ameaça. E mesmo diante do papel que atestava a condição, o vigia criou um caso e não abriu a passagem lateral. Na discussão que se seguiu, deu um tiro na cabeça do aposentado. E resolveu a questão.

Alguém poderá dizer que é um caso isolado, que nem todos agem assim. Mas continuo achando que há um sistema que não só permite esse tipo de “acidente”, como os estimula. Ao colocar armas na mão de despreparados. Ao colocar controles remotos na mão de gente mal treinada, que não entende o que significa o fato de alguém ser cliente de um banco, sem fiscalizar seu uso. E, principalmente, ao livrar a cara dos bancos em episódios como esse. Ou vocês acham que o Bradesco (do qual, por falar nisso sou cliente e onde, em várias ocasiões, tive discussões ásperas com os vigias, nas portas) será severamente responsabilizado pela morte de seu cliente (que apenas queria retirar os proventos da aposentadoria)? Que nada, a carga provavelmente recairá apenas sobre o idiota que puxou o gatilho. Com pequeninos respingos, se tanto, sobre a empresa terceirizada que o colocou ali.

FICHA LIMPA JÁ

Com a prisão do Edson Olegário, ex-prefeito de Camboriú suspeito de ter mandado matar desafetos desaba, mais alguns metros perau adentro, o bom nome da assim chamada “classe política”. Porque este caso demonstra, com lamentável claridade, que não há qualquer objeção ao que o sujeito faça ou deixe de fazer, para ser recebido em palácio e ocupar cargos de… vejam bem… “confiança”.

Não é possível que o governador Pavan, homem esperto e bem informado, não soubesse das suspeitas que recaíam sobre o “Edinho”. Pavan é chefe político antigo e respeitado da região onde Edson Olegário atuava: não existe jeito nem maneira de não ter sido colocado a par do jeitão Olegário de ser de seu correligionário. Mesmo assim, deu-lhe abrigo em palácio. E ofereceu-lhe um empreguinho “de confiança”, do qual só foi saído quando a coisa ficou insustentável.

O clima “ficha limpa” deveria se instalar em todas as práticas públicas. Não deveria ser apenas um dispositivo legal limitado ao processo eleitoral. A vida pública, como o próprio nome indica, exige ficha limpa. Porque é pública. E porque lida com dinheiro público.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Prezado Cesar: Se Pedro Aleixo, vice-presidente, era civil e Gama e Silva, ministro da Justiça, era civil, como era civil quase todo o Congresso, a maioria dos governadores e prefeitos, por que a ditadura era “militar”?

    Posted by Nei Duclós | maio 11, 2010, 12:17
  2. “Governador Pavan, homem esperto e bem informado”? Tio César, foi vc quem escreveu isso ou se apossaram de seu espírito? rss

    Posted by Lázaro Lemos | maio 11, 2010, 15:02
  3. Nei, acho que podes responder com maior propriedade tua própria pergunta (e tens feito isso, de certa forma, quando tocas nesse assunto, no teu blog e no tuíter). Eu, cá na minha ignorância histórica (em todos os sentidos), sempre achei que, como levavam o pessoal para torturar em quartéis… militares, a ditadura era militar.

    Posted by Cesar Valente | maio 11, 2010, 17:39
  4. Pois levavam também para delegacias da polícia civil, tanto é que o mais emérito torturador era policial civil, o delegado Fleury. A ditadura foi civil- militar.Foi desencadeada pela direita civil, que usou e foi usada pelos militares até 1985, quando a farda foi descartada. Ficou só a direita, com Sarney à frente. Não se trata de ignorância, Cesar, mas de uma ilusão bem plantada, que enganou a todos nós.

    Posted by Nei Duclós | maio 11, 2010, 17:52
  5. Ditabranda?

    Posted by Yuri | maio 11, 2010, 21:28
  6. Yuri, leia com calma o período inteiro. E ligue o modo ironia.

    Posted by Cesar Valente | maio 12, 2010, 10:41
  7. Viram? Eu sabia que o Nei tinha a melhor resposta para a pergunta que ele fez ;-)

    Posted by Cesar Valente | maio 12, 2010, 10:43
  8. Mais ou menos pelos mesmos motivos da excelente resposta do Nei que perguntei “Ditabranda?”. Foi recentemente que a FSP usou este termo para relativizar esse período nefasto da nossa história recente. A FSP fazia e faz parte da “sociedade civil”…

    Posted by Yuri | maio 12, 2010, 15:14
  9. Tá, Yuri, mas espero que tenha ficado claro que utilizei o termo de forma diferente do articulista da FSP, né? Antes que a cavalaria ligeira venha pra cima: utilizei-o para o período antes do AI-5, como forma livre (ainda podemos falar livremente, pois não?) e levemente irônica (ainda podemos brincar com coisas sérias, pois não?) de contrastar com o que veio depois. Porque me pareceu que antes do AI-5 as coisas eram um pouco menos duras do que depois.

    Posted by Cesar Valente | maio 12, 2010, 15:56
  10. Desculpe-me, tio. Estava com pressa e não me expressei bem. Ou melhor: Faltou um complemento na minha resposta: É facilmente perceptível no teu texto o uso do dito termo para diferenciar os períodos pré e pós AI-5, assim como a grande diferença entre tuas palavras e aquelas lamentáveis publicadas na FSP. Lá o sentido era amenizar tudo…
    [Irony Mode Off] :)

    Posted by Yuri | maio 12, 2010, 19:54
  11. Prezado Cesar. Meu comentário não teve intenção de armadilha. Entro aqui com o espírito desarmado, confiando que estou entre amigos. Chamei a atenção para uma expressão consolidada, sem querer dar “a melhor resposta” à pergunta que fiz. Isso seria um desperdício e uma postura que não faz parte do meu feitio.

    Posted by Nei Duclós | maio 13, 2010, 03:18

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