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Caraminholas

Sua majestade, o automóvel

Melhorar o transporte coletivo e conseguir tarifas mais baixas não depende de uma decisão isolada, que possa ser tomada de uma hora para outra. Nem pelo prefeito, nem pelo governador, nem pelo presidente da República e muito menos pelo Papa ou pela ONU.

Quem acha que consegue fazer baixar tarifa de transporte na marra, não entende a complexidade do sistema que engendrou esse… sistema. Se a cidade quisesse dar aos seus cidadãos (os famosos e sempre desrespeitados eleitores/contribuintes) um padrão decente de mobilidade, teria que, pra começo de conversa, planejar uma extensa e profunda modificação nos hábitos e nas prioridades do transporte. Coisa que, naturalmente, não se faz em pouco tempo.

A cidade, há muitos anos, trata o automóvel (o transporte individual) como rei e senhor. Tudo é feito em função dele. O pedestre é sempre um empecilho. Uma pedra no caminho. O ciclista, um idiota. Mas, em nome de um duvidoso marketing da “qualidade de vida”, a cidade tem reservado estreitas faixas vermelhas para dizer que tem ciclovias. Finge a autoridade municipal que se importa. Posa para fotos e logo embarcam todos em seus SUVs e saem fazendo poeira.

Nesse quadro, o ônibus (o latão, porque muitos não passam disso) é apenas um mal necessário. Para conduzir os pobres que ainda não têm R$ 300,00 por mês para comprar um carro. Ou menos ainda, para comprar uma moto. Há mais estímulos e facilidades para comprar um carro do que para comprar a casa própria. É mais fácil do que educar um filho.

Ninguém, no município, está realmente preocupado em melhorar o transporte público fora do período eleitoral. Ninguém, no município, parece acreditar na viabilidade de uma inversão de prioridades, que nos ofereça uma real, confortável e econômica alternativa ao transporte individual.

Mas há milhares de pessoas que deixariam de bom grado o carro na garagem, se pudessem contar com um sistema confiável, rápido e barato de locomoção, em especial no centro da cidade. Essas pessoas, infelizmente, fazem parte daquilo que se convencionou chamar de “maioria silenciosa”, que não faz passeatas, não promove quebra-quebras, não apita nas ruas. E, pelo jeito, também não sabe votar.

Bom, mas acho que estou chovendo no molhado. Vocês, que não têm grandes poderes, provavelmente pensam como eu. E quem poderia mudar alguma coisa, não está nem aí. Os jovens, nas ruas, vão fazer barulho, talvez criar algum evento memorável (que, espero, não seja especialmente sangrento). Quem sabe até, na melhor das hipóteses, adiar o aumento e fazer a prefeitura dar mais algum subsídio às empresas. Mas, a mudança estrutural que todos desejamos não se dará pela força, no grito. Porque exige, antes, uma nova consciência.

Discussão

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  1. De fato, uma mudança de consciência não apenas nos políticos, mas no povo é necessária. Mas essa coisa de saber votar é meio complicada. Em quem eu devo votar nas próximas eleições, no 6 ou no meia-dúzia? É difícil tomar essa decisão, não é simplesmente não saber votar. Concordo que isso acontece também, mas nem sempre é fácil tomar partido, dada a situação política atual. Independente disso, devemos fazer a nossa parte e conhecer os candidatos sim.

    Posted by Marlon | maio 10, 2010, 20:38
  2. “O ciclista, um idiota. Mas, em nome de um duvidoso marketing da “qualidade de vida”, a cidade tem reservado estreitas faixas vermelhas para dizer que tem ciclovias. Finge a autoridade municipal que se importa. Posa para fotos e logo embarcam todos em seus SUVs e saem fazendo poeira.”

    Um grande exemplo de desrespeito aos ciclistas está no “coração” da cidade, bem embaixo do nariz de todos. É só observar para a esquina que vai do restaurante japonês da moda até a entrada da famosa clínica ortopédica. Eu pago pra ver o dia que não tiver um carro estacionado em cima daquela ciclovia. Mas Cesar, você acha que o sistema de transporte curitibano, que sempre leio que é elogiado ao máximo (procede?) daria certo aqui (tirando de cena, claro, quem sempre atrasa o lado do cidadão)?.

    Posted by Gabriel | maio 10, 2010, 22:00
  3. Gabriel, tenho a impressão que assim como um remédio não deve ser usado indistintamente por todas as pessoas, mesmo que tenham o mesmo sintoma, as soluções urbanísticas precisam ser “personalizadas”. Cada caso é um caso e uma capital, numa pequena ilha cheia de montanhas, é caso especialíssimo.

    Posted by Cesar Valente | maio 11, 2010, 08:14
  4. A verdade é que, no tocante ao custo do transporte coletivo, muito pagam caro, para que poucos não paguem mais caro. Refiro-me àqueles que, por qualquer motivo, residem a mais de trinta quilômetros do Centro da Capital, como nos Ingleses, Morro das Pedras, Ribeirão etc. Todos que decidem morar em localidades mais afastadas devem ter consciência que isto tem um custo, que não pode ser repassado àqueles que moram a pouco mais de cinco quilômetros do Centro.

    Posted by Guilherme | maio 11, 2010, 10:08
  5. Guilherme, o problema é que as pessoas que utilizam o transporte público e moram mais longe do centro em grande parte o fazem justamente porque não tem condições de morar numa região mais valorizada. Para ficarem no centro, só subindo os morros, o que acho que ninguém quer.

    Mas sou defensor do subsídio público ao transporte coletivo, que deveria ser de tal monta a reduzir substancialmente os valores atuais. Se assim fosse, a coletividade já estaria dando sua contribuição, e nesse caso acharia justo que se acabasse com a tarifa única e fossem praticados valores proporcionais à extensão do trecho percorrido.

    Posted by Carlos Henrique | maio 11, 2010, 14:10
  6. Quanto ao transporte coletivo, primeiramente, as linhas atuais deveriam ser licitadas, tanto no serviço convencional quanto no executivo.
    Além disso, poderia ser adotada solução semelhante à de Porto Alegre, em que uma empresa pública (a Carris) “concorre” com os consórcios privados, ou assume as linhas que não são tão interessantes para exploração comercial.
    Existe uma outra questão que sempre me encucou: muitos pais fazem questão de pagar R$ 600,00/mês para o filho estudar numa escola privada, mas este ganha o direito de usufruir da meia passagem. Como reflexo, os usuários “normais” pagam uma pasagem ainda mais cara, para compensar o custo da medida. Será justo isso?

    Posted by Fernando Silva | maio 12, 2010, 12:52

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