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Cartinha do Emanuel

Bolchevismo sem utopia

“Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca (1aC-65dC): era a respeito desse (precioso) livro que iria escrever.

Relia-o aqui no Planalto Central: pretendia meditar sobre as lições do estoicismo, pensar sobre a nossa finitude, refletir sobre a necessidade da filosofia no cotidiano, não como algo abstrato, mas como lição de  vida e necessário aprendizado existencial.

Sempre internalizando a percepção de que o homem é um ser para morte, mas que nesse breve trânsito pode construir uma obra, porque sendo o único animal que sabe que vai morrer, deixará algo que ultrapassará a poeira do tempo.

O ato da criação é aquele  através do qual o homem arranca algo à morte, “transformando em consciência uma experiência” (personagem Garcia, em “A Esperança”, de André Malraux).

Lenin

Lenin

Mas a percepção do nosso cotidiano falou mais forte: um horror feito de pasmo e resignação.

Lembrei-me de uma expressão: “Bolchevismo sem utopia”.

Quer dizer, os vitoriosos líderes da Revolução Russa tinham uma utopia.

No Brasil: a noção subleninista  do aparelhamento do Estado (lógico, muitos não se deram conta, pois tiveram má formação intelectual, leram pouco) está grudada no governo Lula e tomou conta do PT.

Eu sei, hoje o partido é apenas uma sublegenda ou apêndice subalterno do presidente.

No chamado pragmatismo dos dirigentes do PT, percebe-se essa fome insaciável por cargos e desejo compulsivo do aparelhamento total.

E uma visão paranóica: todos os que criticam são de “direita” ou fazem o seu jogo.

Alguns sim. Nem todos.

E calam-se vozes – através do dinheiro e de cargos públicos – que já foram da esperança e da inquietude (CUT, UNE, MST), através da pecúnia, de cargos, de prebendas e de  Ongs manipuladas e cheias de verbas.

Não adianta afirmar que nossa crítica é humanista: a paranóia facilitaria diz que é “conspiração tucana”, do PSDB, esquecendo-se até do passado honrado e de resistência dos seus críticos.

E carecem de visão internacionalista, ficam com uma percepção meramente paroquial. Falta uma visão de mundo, falta a noção de que o planeta precisa ser preservado.

Enfim, carecem de humanismo, de uma noção da “vida plena”, não calcada no consumismo ou em cargos.

O que vemos?

Uma política de terra arrasada, a ausência completa de princípios éticos, a devastadora “pedagogia” que é passada às novas gerações (“se eles roubam, também vou ser corrupto”).

Não agüento mais a lembrança dos governos passados do PSDB.

Insisto à redundância: a velhacaria dos outros não pode ser a medida dos nossos valores.

* * *

Em 64 anos de vida, poucas vezes vi um quadro tão carente de perspectivas (sim, pelo menos não nos prendem, torturam ou nos mandam para o exílio….)

O PSOL é apenas um grupelho, muitas vezes delirante, e contaminado por infantilismo ideológico.

A aliança PSDB-DEM não é sinal de dias melhores.

Não alegra o coração saber que a candidata Marina Silva é da Assembléia de Deus.

(As escolas vão adotar o criacionismo, negar Darwin, e as mulheres não poderão mais se pintar ou cortar o cabelo?)

E, então? Não sei. Realmente não sei.

Mas lembro-me de Eduardo Galeano:  “Ela está no horizonte… Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Por mais que caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia?

Serve para isso. Serve para caminhar.”

* * *

ANO NOVO

Um excelente 2010 para todos os leitores.

Um abraço sinceramente afetuoso no César Valente (que abriu este precioso espaço para um velho amigo e conterrâneo), e para o Mário Medaglia,  que tão bem  substituiu o editor, em suas merecidas férias..

Queria comunicar que, no próximo ano, escreverei uma coluna por mês.

Voltarei em fevereiro.

Dentro dos meus projetos, está o preparo dos originais de dois livros novos, o que consumirá muito tempo.

Como os leitores e os editores do blog, sou inteiro naquilo que faço.

Grato pela atenção, pela ajuda tão proveitosa fornecida pelos comentários,  incluindo (é claro) os que discordaram das minhas posições. Até.

(EMANUEL MEDEIROS VIEIRA)

Discussão

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  1. Caro,

    Bele texto, concordo com sintese que mostra uma vida sem prespectiva, porém, não concordo que reside na política o problema. Não que a mesma não seja um problema, é, e não discordo, principalmente nessa conjuntura personalista e clientelista que vivemos, entretanto, não é o âmago da questão. Estamos sobre um sistema que faz com que todos sejam assim, ou pelo menos, tende a guinar os homens nessa direção para que os mesmos consigam sobreviver.
    No mais, quanto ao desejo de Lênin, não gosto de falar qye era ele utópico, já que o mesmo, enfim, foi deturpado totalmente com a entrada de Stalin. O estudo da história nessa passagem do passado “comunista” da ex-URSS mostra isso.
    No fim, querer ética absoluta num modelo corrompido como o capitalista (seja lá qual foi a denominação que damos para o que vivemos hoje) para mim, é sim, uma grande utopia.
    Abraço!

    Posted by Diego Simão Rzatki - Tainha | dezembro 28, 2009, 19:22

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