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Florianópolis

O grande poema do Natal florianopolitano

De tempos em tempos a gente precisa republicar este poema do Affonso Romano de Sant’Anna porque, infelizmente, tem sempre um novo contexto onde ele cabe como uma luva. Esta republicação, precisamente, dedico ao meu querido secretário do turismo, Mário Cavallazzi e a seu tutor, o igualmente estimado Dário Berger. Ho ho ho! Feliz Natal!

A implosão da mentira

Affonso Romano de Sant’Anna

Fragmento 1

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.

Mentem com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
—diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.

Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Este poema foi publicado em diversos jornais em 1980. Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, foi publicado também em várias antologias, como “A Poesia Possível”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1987. Pode ser encontrado também no livro ‘Poesia Reunida’, Editora L&PM, v. 2.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. E que coisa mais deplorável a entrevista ao vivo, cabelos ao vento, do Cavalazzi no jornal do Almoço, heim? O Mário Motta deve estar puto até agora!

    Posted by carlos | dezembro 11, 2009, 15:43
  2. Muito oportuno. Excelente o poema, obrigado professor.
    zeca

    Posted by zeca nunes pires | dezembro 12, 2009, 06:45
  3. Outra mentira que está caindo por terra é a do “retapeamento” das estradas e ruas. Hoje, com todo esse mal tempo, os trabalhos na SC 401 continuava. Ué , mas não era preciso de tempo bom com sol pra poderem fazer?

    Posted by Ale | dezembro 12, 2009, 19:23

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