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Cartinha do Emanuel

Detritos distritais

Só a mobilização social poderá afastar do poder os corruptos de Brasília, verdadeiras gangues formadas com o dinheiro público.

A juventude é a primavera dos povos.

E ela quando ocupou a carcomida e degradada Câmara Legislativa, estava defendendo a cidadania.

Porque da maioria dos deputados distritais só poderemos esperar o pior (de um conjunto de 24 parlamentares, aproximadamente 10 estão envolvidos na roubalheira).

Desse gente só virá a consagração da impunidade mais cínica e o corporativismo mais desonroso.

A Câmara Legislativa é a verdadeira casa dos horrores.

É uma casa com muita tolerância.

Na quarta-feira (9 de dezembro) a polícia militar do DF portou-se como guarda pretoriana dos corruptos, guardiã  dos ladrões, protetora da corja de bandidos que infestou o governo local.

Os policiais da cavalaria agrediram inclusive estudantes desarmados e indefesos que estavam rendidos no chão.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF crê que o policiamento não tentou estabelecer nenhuma espécie de diálogo com os manifestantes, e está preparando representação contra a PM junto ao Ministério Público.

Também a Polícia Civil do DF emitiu nota (na quinta-feira 10) contra a postura da Polícia Militar, que bateu cidadãos que estavam exercendo seus direitos constitucionais.

Sim: o comando da PM impediu a livre manifestação de opinião, prevista na Constituição.

Estudantes apanharam e foram presos, enquanto os ladrões estão soltos.

O comportamento selvagem e covarde da cavalaria lembrou os mais soturnos tempos da ditadura.

Além de tudo, Arruda usou dinheiro público para arregimentar servidores comissionados, pagos como nosso dinheiro, para realizar manifestações orquestradas na Câmara Legislativa.

Foi concedido até ponto facultativo nas administrações regionais.

Tinha até administrador regional de uma cidade-satélite, que exerce o papel de prefeito de outros lugares.

a base de sustentação de Arruda se reúne para garantir sua permanência.

Não será na base dos $$$$?

Descobriu-se que o mensalão do DEM pagava até churrascos do governador.

Como se não bastasse, descobriu-se que a nova sede da Câmara Distrital custará 323% além do orçado.

Previsão era gastar R$23,6 milhões na obra, mas o custo final deve chegar a R$100 milhões.

A casa dos horrores (A Câmara Legislativa) detém o título de Legislativo mais caro do País.

A verba para pagar assessores do gabinete de cada um dos 24 deputados é de R$97.601, contra R$ 65 mil dos deputados federais.

Essa é a cota pessoal de que cada deputado dispõe para contratar servidores de confiança, quase sempre cabos eleitorais e apadrinhados políticos.

Talvez seja redundante, mas é pedagógico explicar aos habitantes de outras regiões do país: Brasília e suas cidades-satélites não têm Câmara municipal. Não têm prefeitos. É o governador que nomeia administradores para cada uma das cidades (sempre um loteamento de cargos), o que quase sempre lhes garante a eleição para a Câmara Legislativa e para a Câmara dos Deputados.

O que prepondera é o desrespeito à lei, o não respeito aos valores morais.

Trata-se de apropriação patrimonialista da coisa pública, revelador de algo perverso: o caráter não Republicano daquilo que Raymundo Faoro definiu na densa obra “Os Donos do Poder”,  como estamento burocrático.

É um conceito relacionado a uma sociedade estamental, a um grupo de indivíduos, tal qual ocorria em sociedades pré-modernas, que desfrutam de um direito quase natural à apropriação do patrimônio público.

O estamento burocrático gere o Estado, mas o faz, em parte, em benefício próprio.

Indaga Marcos Fernandes Gonçalves da Silva: como funciona uma máquina política?

“Imagine um governador que retribui seus correligionários com propinas ou com dinheiro retirado de empresários: os correligionários podem açambarcar deputados, o Judiciário loca. Isso é uma máquina política, uma instituição, uma regra do jogo que faz com que, dados os incentivos, as motivações derivadas das propinas, os agentes (políticos, burocratas, jornalistas cooptados, desembargadores) atuem na forma de quadrilha.”

As máquinas políticas não existem em razão de uma ou outra eleição: elas se entranham dentro do Estado: são um esquema permanente de uso ilegal da coisa pública.

É o que ocorreu em Brasília.

Os poderes estão todos contaminados: Executivo, Legislativo, Judiciário, incluindo o Tribunal de Contas do GDF, o Detran e outros órgãos.

É um passeio desonroso pelo Código Penal.

Mas o esquema revela uma particularidade nacional (ou uma característica intrínseca ao Estado brasileiro), não mero privilégio da “elite do Cerrado”: os membros da clientela – do estamento burocrático e agregados – se atribuem um direito natural ao uso privado da coisa pública.

* * *

E os principais jornais de Brasília têm um DNA governista.

Não é um jornalismo que serve à comunidade:

Muitos acreditam que a “ética” desta imprensa é, no geral, a do balcão dos negócios.

E o governo Arruda é um anunciante perdulário (com o nosso dinheiro).

Ele gasta rios de dinheiro com publicidade.

Com segurança, transportes e saúde ele gasta muito menos.

Não será semelhante a outros estados?

Quem perde é o jornalismo independente, honrado e combativo.

Enfim, não é a imprensa escrita que aprendemos a respeitar e a admirar.*

===============

* Redigi antecipadamente o meu texto semanal devido aos gravíssimos acontecimentos que ocorrem na Capital da República (minha opção de viver e de sobreviver, onde construí a minha família), e ao comportamento selvagem e fascista da Polícia militar do Distrito Federal em relação a manifestantes e estudantes desarmados.

O dia em que perder a minha honra pessoal e a minha capacidade de indignação, peço que seja drenada do meu espírito a minha e energia criativa.

(EMANUEL MEDEIROS VIEIRA)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Excelente… não é só no DF. O país todo está imundo!

    Posted by Aline | dezembro 10, 2009, 16:19
  2. Excelente… Uma verdadeira aula de cidadania…Um grito de alerta com palavras tão cheias de vida, sábias, nos despertando para realidade…
    Só nos basta erguer as mãos para o céu desejando que jamais “a tua energia criativa” seja drenada Emanuel…

    Posted by Míriam Vieira de Córodova Pereira | dezembro 10, 2009, 17:46
  3. Como se diria aqui no RS, “não podêmo se entregá pros homem …”. A luta contra a corrupção deve ser sistemática, persistente, diária.

    Posted by Francisco de Assis Vieira Sanseverino | dezembro 11, 2009, 09:02
  4. A única vantagem que vejo em presenciar essa situação é a esperança de que sirva para purgarmos da vida pública esses verdadeiros sanguessugas do dinheiro público.

    Posted by Tamara | dezembro 11, 2009, 09:11

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