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Cartinha do Emanuel

Corrupção

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A corrupção é crime contra a vida.

Num país de injustiças estruturais – que deveria chocar mesmo as consciências mais apáticas e resignadas –, ela se torna mais grave ainda.

A corrupção é vício humano? É.

Só a percepção de que será rigorosamente punida (não em frases de efeito ou propagandas partidárias), poderá inibi-la.

Com o imperativo da lei, realmente respeitada.

E com fiscalização constante de todo os poderes e da sociedade civil.

Não quero filosofar, mas na minha vivência em casas políticas, percebi que uma das maiores dificuldades (talvez a maior) do homem público é saber lidar com o poder.

Pelo que vi em longos anos de observação, poucos escapam da tentação da onipotência, da soberba, esquecendo-se de que seu mando é passageiro e de que sua vida é finita.

Não adianta: não aprendem: anões do orçamento, Collor, sanguessugas e mais centenas de escândalos.

É preciso ter sólidos valores internos.

Sem tradição civilizatória, com a nossa formação forjada na escravidão, no patrimonialismo, no mandonismo e na apropriação privada da “res” (coisa) pública, como ocorre no Brasil, a corrupção prospera.

Estou falando da corrupção nos poderes (falei no plural) do Distrito Federal, que se espraiou como uma metástase.

Os leitores não imaginam com os homens de bem que aqui vivem estão se sentindo!

Sentem-se órfãos de dirigentes dignos e honrados.

São 2,6 milhões de pessoas vivendo aqui, a maioria formada de cidadãos honestos que trabalham, criam seus filhos, são dignos e pagam os seus impostos.

Mas era, uma crônica de uma morte anunciada.

O que quero dizer?

Vista aérea parcial da SQS 114, Brasília, DF

Vista aérea parcial da SQS 114, Brasília, DF

José Roberto Arruda (DEM/DF) morava na SQS 114.

Eu resido nessa quadra há mais de 30 anos.

É muito arborizada, realmente bela, cheia de pássaros.

(O que um coração humano pode pedir mais?)

Permito-me a uma digressão: a escola pública da quadra, para o primeiro grau, foi inaugurada pela rainha da Inglaterra.

O grande Darcy Ribeiro, quando era Chefe da Casa Civil do governo João Goulart, no momento do golpe militar de 64, precisava de recursos para fugir do país e veio– com enorme sentimento de urgência –, pedir ajuda a um amigo que morava aqui na 114 Sul, no meu bloco.

Esta quadra é da década de 60.

Dizer que já tivemos homens públicos do porte de Darcy!

Arruda (d) e Lula. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Arruda (d) e Lula. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O Arruda (deve ser o nome…) é um homem de muita sorte, financeiramente falando, e depois comprou uma propriedade muito cara ( só com salário de deputado!, tem um invejável poder de reproduzir a pecúnia) ) num condomínio perto da Papuda.

Para quem não sabe, Papuda é o nome da penitenciária de Brasília.

Local muito apropriado para algumas pessoas, dirão as más línguas…

Na época, a propriedade custou mais de um milhão de reais, e ele pagou à vista. Hoje deve vale mais que o triplo.

Começou como engenheiro do metrô da capital (ele enriqueceu muita gente!)

Ah, nesse condomínio onde o governador (quase ex) do DF mora agora, quem também tem propriedade é o deputado Antonio Palocci, o homem que não ama caseiros.

Arruda começou sua carreira pelas mãos de Joaquim Roriz, de quem foi secretário de Obras.

Creio que não preciso dar explicações suplementares sobre criador e criatura.

Quando ocorreu o escândalo da violação do painel do Senado, em 2001, ele primeiramente negou sua participação, fez teatro, consultou publicitários amigos, chorou, realizou toda uma pantomima.

Questão de tempo.

Depois, confessou a verdade, pediu perdão, escreveu uma carta-circular para os seus antigos vizinhos pedindo desculpas (era uma missiva piegas e lacrimejante), encenou conversão e humildade.

Quem conhece a alma humana, só tinha uma dúvida: quando ele “aprontaria” a próxima?

Alguém dirá que eu não acredito na conversão do ser humano.

Na juventude, acreditava mais.

A maturidade me ensinou: raramente ela ocorre.

Pessoas de má índole a conservam durante a vida afora.

O povo diz: pau que nasce torto…

A reincidência do Mal, infelizmente, é mais comum.

* * *

Regredindo ainda mais.

Pessoas que militaram pela cidadania no Distrito Federal, como eu, em Brasília, já no final da década de 70 e, principalmente, no início da de 80, foram para a rua, lutaram, fizeram comícios, redigiram textos em prol da representação política do Distrito Federal.

Lembro-me que uma vez a polícia nos cercou perto do Campo da Esperança, o maior cemitério de Brasília.

Os irônicos dirão: “já estavam perto da eternidade.”

Já era o final da ditadura.

Não, não houve pancadaria, nem cassetete.

A conciliação prevaleceu.

Voltamos para casa sem marcas, ao contrário das passeatas de que participei na década de 60 (acho que fui a todas, na época, em Porto Alegre).

* * *

Veio a representação política para o DF.

Foi um tremendo erro nosso. Que pena!

A Câmara Legislativa sempre foi um horror.

Até as assembleias legislativas, por incrível que pareça (pois não lembram colégios franciscanos), são melhores.

A Câmara Legislativa nunca deveria ter sido criada.

Filme de terror é pouco para qualificá-la.

Qual o sonho?

Que ocorresse um plebiscito para discutir a sua extinção.

O plebiscito é sonho de um velho com certa ingenuidade…

Poderiam varrer toda a representação política do DF: governador, 3 senadores e 8 deputados, administradores regionais (com as mesmas funções dos prefeitos de outras regiões do país).

Toda essa representação foi em toda a sua curta história, um foco de corrupção. Só corrupção.

Mas a corrupção é uma via de mão dupla: há corruptos e corruptores. Não poderemos esquecer das empresas que corrompiam, como também dos que se deixaram corromper.

Em qualquer país decente, essas pessoas estariam na cadeia.

Não vivemos num país decente.

O mínimo exigido seria que devolvessem o dinheiro roubado.

Não vão devolver, é claro.

Contratarão advogados caríssimos que impetrarão recursos e mais recursos que irão à eternidade. É sempre assim. Não?

* * *

Quem conhece as cidades satélites do Distrito Federal sabe de suas brutais carências nas áreas da saúde, da segurança, de transportes.

Elas começaram a inchar com a nomeação de Joaquim Roriz por Sarney (sempre ele!) como governador biônico do DF em 1988.

Para nosso infortúnio, ele foi governador por mais 3 vezes.,

Distribuindo lotes sem parar, trouxe a escória de várias regiões do país, inchou a cidade, deteriorou seu excelente padrão de vida.

Mas essa é outra (triste) história.

Eu comecei dizendo que a corrupção é um crime contra a vida. É. Nem preciso falar de alguns lugares do sertão baiano que conheci e do subúrbio ferroviário de Salvador, que frequento.

Olhem (por favor!), o Maranhão do clã Sarney.

Insisto: a corrupção é crime contra a dignidade humana.

Está no Evangelho de Lucas:

“É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm. Melhor seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só desses pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos”. (17, 1:2).

* * *

Há algo de muito grave, que os brasileiros do resto do país não têm a obrigação de conhecer.

Os homens de bem da cidade sempre foram contra a aprovação da lei que revisou o Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal (PDOT).

Suspeitava-se que tenebrosas transações houvessem ocorrido, objetivando a sua aprovação.

Segundo o Ministério Público, estávamos certos.

Alterações no projeto feitas pelos deputados distritais a pedido do governo Arruda ampliaram a área urbana da capital federal com prejuízos ao meio ambiente e descumprimentos das regras de tombamento da cidade.

Comentava-se que rios de dinheiro foram irrigados para a aprovação do projeto na Câmara, fornecidos por empresários interessados.

O Ministério Público do DF ajuizou na quinta-feira (dia 3 de dezembro) ação no Tribunal de Justiça local contra a lei complementar que revisou o PDOT.

Os promotores incluíram na ação depoimentos que fazem parte da investigação do mensalão do DEM e apontam para o jogo de interesses de construtoras e empresários locais, numa troca de favores com o governo do DF e os deputados.

O inquérito afirma que houve “pagamento dos deputados distritais da base do governo em razão da aprovação do Plano Diretor de Ordenação Territorial do DF”.

O suborno teria sido bancado com dinheiro “arrecadado entre as empresas que se beneficiaram com a aprovação do PDOT.”

Por exemplo, foi criado um novo setor na cidade, o Noroeste que, segundo especialistas, atingirá mananciais e afetará brutalmente o meio ambiente da região.

A lei aprovada pelos distritais viola a Lei Orgânica do DF que estabelece que “as terras públicas, consideradas de interesse para a proteção ambiental, não poderão ser transferidas a particulares, a qualquer título.”

Lula brinca de bombeiro com o Arruda. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Lula brinca de bombeiro com o Arruda. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Para o senhor Lula, as imagens não falam por si próprias.

Não sei o que o espantará.

No mínimo, é um homem complacente com a corrupção.

Para um presidente da República, tais palavras soam como um álibi para todos os ladrões da coisa pública.

Decerto, advertido por um assessor, posteriormente, ele foi mais severo com os desvios descobertos pela Operação Caixa de Pandora*, da Polícia Federal.

O efeito devastador desse novo escândalo para a população é alimentar ainda mais a descrença nos homens públicos

De todas as cenas, para mim, a mais escabrosa foi aquela dos deputados distritais rezando em agradecimento às propinas recebidas.

Um dele é filho de um do pastor conhecidíssimo em Taguatinga e adjacências.

Usam no me do sagrado para trapacear, ludibriar e enganar.

Os evangélicos decentes não mereciam isso.

Um advogado teria dito para um dos envolvidos: “Fica calmo, o povo logo esquece.”

Desta vez, espero que não.

“Aquele que perturba a sua própria casa herdará o vento”, ensina Salomão em um dos seus provérbios.

* * *
POEMA

“Mentem desde cabral, em calmaria/
viajando pelo avesso, iludindo a corrente/
em curso, transformando a história do país/
num acidente de percurso.”

(Affonso Romano de Sant’Anna)

Pandora abre sua caixinha...

Pandora abre sua caixinha...

*PANDORA: A palavra é de origem grega.

Pandora seria a primeira mulher, segundo a lenda conservada por Hesíodo.

Zeus atribuiu-lhe a missão de castigar a raça humana, presenteada havia pouco tempo com o fogo divino por Prometeu.

Com Pandora, começou a infelicidade dos homens.

Zeus mandou-a a Epimeteu – irmão de Prometeu –, que resolveu desposá-la, fascinado por sua beleza.

Prometeu, antes de ser condenado a ficar 30 mil anos acorrentado no Monte Cáucaso, alertou o irmão quanto ao perigo de se aceitar presentes de Zeus.

Pandora trazia consigo um jarro (ou uma caixa) contendo todos os males, fechado por um tampo que os impedia de sair de onde estavam; incapaz de conter a curiosidade, Pandora removeu o tampo e os males que haveriam de afligir a humanidade dali em diante, como o trabalho, a doença, a mentira e a paixão, espalharam-se pelo mundo. Assustada, ela fechou o tampo, mas só ficou no jarro a esperança, que estava no fundo da mesma.

(Em alguns jornais, quando foi deflagrada operação da Polícia Federal, foi escrito que a caixa foi aberta por Epimeteu. A mitologia ensina que quem a abriu foi Pandora.)

Qual a metáfora?

A beleza da mulher seria sempre um elemento desestabilizador?

A própria mulher – que gera a vida –, seria a causa de alguns dos nossos infortúnios?

A curiosidade excessiva é a causa de nossos males?

Não a curiosidade que gera conhecimento, mas aquela que estimula a intriga e a maledicência.

A esperança nunca morrerá?

Desde os 20 anos, tais mitos me fascinam.

Nunca encontrei resposta.

Só uma: filosoficamente, somos todos gregos.

Quem pensa, é obrigado a começar por eles.

Por exemplo, todos os temas que movem a arte (a cobiça, o tempo, o amor, o ódio, a morte) já estão na Tragédia Grega.

É só saber lê-la.

O que nós, homens modernos, fizemos depois foram variantes sobre o mesmo tema.

A pergunta que fazemos é a mesma de todos os tempos: o que é o homem?

(EMANUEL MEDEIROS VIEIRA)

Discussão

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  1. Vejam algumas passagens do artigo “Impasse à Vista?” do Professor Doutor Belmiro Valverde Jobim Castor, publicado na Gazeta do Povo desta data:
    “Impase….nossa tradição consagrada é evitá-las a qualquer custo: tudo se resolve na base do formalismo, dos jeitinhos, dos conchavos, tapinhas nas costas e na certeza da lentidão da justiça.
    “…ou ficamos repetindo Ruy Barbosa face ao triunfo das nulidades, a prosperidade da desonra, o crescimento da injustiça e o agigantamento do poder na mão dos maus, ou vamos buscar inspiração em Winston Churchill,… que sugeria a pergunta..não é se estamos contentes ou descontentes com alguma coisa, mas o que pretendemos fazer com ela.”
    “De uma forma ou outra temos de FAZER COM QUE AS LIDERANÇAS POLÍTICAS ABANDONEM A APATIA E O ACOMODAMENTO, ANTES QUE SURJA UM IMPASSE COM A DESMORALIZAÇÃO COMPLETA DO REGIME DEMOCRÁTICO.
    “Essa jornada purificadora cmeça pela ressureição de algumas atitudes que entraram definitivamente em desuso, como a de pedir demissão para demonstrar discordância ou repúdio…O que se vê? Altos funcionários do governo Arruda não ficam nem vermelhos…, outros esperam determinações de seus partidos.
    “O executivo e o legiuslativo….valem-se de todas as desculpas para desculpar os culpados…
    “Resta o judiciário, que se estiver realmente disposto..não pode continuar a ser refém da tecnicalidade e formalismos arguidos por advogados espertos”
    Conclusão: O poder é uma festa. Quando flagrados em franco delito, usam da chantagem com seus pares para escapar de punições, que raramente ocorrem, pois são todos farinha do mesmo saco.
    ‘E nóis ? E nóis dança’. E, está se alastrando perigosamente a maldita frase do “rouba, mas faz”.

    Posted by Max | dezembro 6, 2009, 12:14
  2. Caro Emanuel,

    Por aqui, já faz algum tempo, a Caixa de Pandora deveria abarcar um tal de Aldinho!
    Mas muito de vocês fazem muito silêncio sobre isto.

    Posted by lh | dezembro 6, 2009, 19:47
  3. TEM UM BOM ESTUDO SOBRE A CORRUPÇÃO BRASILEIRA, PUBLICADO HOJE, 7 DEZ, NA FOLHA DE SÃO PAULO.

    Há simetria entre o comportamento da população e o dos políticos no Brasil
    SANDRA JOVCHELOVITCH
    Psicóloga social afirma que ideia de “sangue corrupto” está arraigada no imaginário social do povo brasileiro
    A corrupção na política é simétrica ao comportamento do brasileiro no seu cotidiano. O remédio não se restringe às reformas institucionais, há anos prometidas, e inclui uma mudança radical no imaginário social sobre a corrupção e o espaço público. É isso o que aponta a psicóloga social Sandra Jovchelovitch, 49, professora da LSE (London School of Economics), no Reino Unido, desde 1995, e autora de um estudo sobre as representações sociais e a esfera pública no Brasil.

    Posted by Carlos Viana | dezembro 7, 2009, 10:06
  4. dêem nome aos bois. E desculpem a ingnorância, mas o que é a Caixa de Pandora?

    Faltei essa aula.

    Posted by Petit | dezembro 7, 2009, 17:27
  5. “Dizer que já tivemos homens públicos do porte de Darcy!”

    O tal que fez aquelas porcarias dos Cieps?E que dava surras em mulheres que não ‘davam’ pra ele??

    Vamos esperar alguma desculpa esfarrapada como a ‘piada do menino do MEP’.Ora pois,pois…

    “HOUAISS – Você conseguiu se levantar e sair de lá?

    DARCY – Consegui levantar hoje, não conseguiria , ela pisando na minha mão. Dei uma surra nela, rapaz! Ela ficou quietinha, chorou muito e depois me deu.”

    Posted by Lia¬¬ | dezembro 7, 2009, 20:33
  6. Pelo jeito não faltastes só a essa aula. Faltaste àquela que ensinou a ler: tá explicado ali, com bastante clareza, o que é. Da mesma forma, os bois estão todos nomeados.

    Posted by Cesar Valente | dezembro 7, 2009, 21:14
  7. Ah ta. Foi mal.
    É que parei de ler quando o Manu voltou a dizer que somos finitos.
    Que pessimismo.

    Posted by Petit | dezembro 8, 2009, 00:33

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