Em memória de Adolfo Luiz Dias, de Alberto
Albuquerque, de Jarbas Benedet e de Roberto Motta
Para Clarice e Lucas – o futuro
Para Célia – companheira
O que a ditadura militar não conseguiu, o modelo reinante em nossa sociedade obteve.
Pensem bem: quais os valores que presidem essa “ideologia” da globalização excludente?
Aparência em vez da essência, futilidade em
detrimento da densidade. Escutem as conversas.
Qual o verbo mais conjugado? Comprar.
“Vou comprar um carro, vou trocar de geladeira, vou adquirir um imóvel”.
A pior forma de capitalismo é aquela que é internalizada nos corações e nas mentes.
É o modelo do salve-se quem puder.
Do individualismo completo, da negação do outro.
Lógico, pontificam o oportunismo, a pilantragem, o querer levar vantagem em tudo, subir buscando puxar o tapete alheio.
Você percebe esse egoísmo atroz, no trânsito, nas pessoas que jogam lixo nas ruas, nos motoristas que dirigem falando ao celular, não respeitando filas nem vagas para idosos ou deficientes.
Me repito? Sim. Porque essa negação do humano também tem se repetido.
Muitos terceirizam sua vida em função de ídolos idiotizantes.
Li que mais de 300 mil pessoas acompanham as bobagens que uma moça fútil da TV (que segundo a revista, namoraria com um deputado, que já teria namorado uma outra apresentadora que subiu às custas do cadáver de Airton Senna), conta numa espécie de mini-blog (com limite de caracteres).
Perdoem se me equivoco na linguagem técnica.
Não é o meu terreno.
Ficam lendo futilidades e idiotices que imbecilizam o ser humano como “agora estou eu no banheiro.”
Quem age assim, renuncia à sua vida, nega todos os valores a ela imanentes, o próprio crescimento em função de um terceiro.
É como uma pessoa que diz: “sem ti, não sou nada”, que seria prova de amor.
Não é prova de amor.
Mas de alienação, de negação do seu próprio ser, de sua auto-estima.
Renunciam à própria vida.
Quem fica tão subalterno em relação aos ídolos (e que ídolos!) nega a própria vida.
Que existência vazia têm essas pessoas!
(Pois precisam das bobagens que uma mulher, de efêmera fama na TV, coloca em seus diários oligofrênicos.)
Biblicamente, estou cada vez mais convencido de que são muitos os chamados e poucos os escolhidos.
Quando um filme de vampiro reciclado é o maior sucesso entre a garotada, sem passadismo, algo está errado.
Antes de me julgarem um tipo azedo e sem romantismo, reflitam: o que faz um vampiro? Chupa o sangue do outro.
No fundo, mata o outro.
Por mais sentimentalismo e psicologismo primários que apareçam na obra, com diversos clichês renovados, a essência é a negação do outro.
Estou sendo claro?
Serei mais solar: está matando o outro.
Quando um partido joga no lixo toda a base ética que era a sua gênese, está dizendo: “sejam patifes, corruptos, esqueçam os seus ideais.”
Exemplo: o governo “ajuda” os mais pobres, com as mais diversas bolsas-esmola; do outro, ajuda os banqueiros com uma taxa de juros que é das mais altas do mundo.
Grande parte desses lucros é apropriada por setores estrangeiros e vai financiar o desenvolvimento econômico externo.
Os petistas continuaram com o “sopão dos pobres” (programas sociais para anestesiar a miséria).
Serei redundante: toda a política econômica favorece primordialmente os banqueiros e especuladores do mercado financeiro.
Afrontar o Banco Central é considerado pecado mortal. Naquilo que alguém chamou de teoria do purgatório, constata-se uma lógica cristã.
Aos mortais, promete-se salvação futura – a felicidade chegará ainda que em outra vida.
Ao Absoluto, o “mercado”, assegura-se uma vida sem pecados.
“Nesse caso, a felicidade, infelizmente, também fica para o futuro. Ou para outra vida.”
Por exemplo, um partido que prometia algo e faz outro (caso da crueldade com os aposentados), sepulta a esperança dos cidadãos em qualquer outro, e contribui para tornar o brasileiro um povo sem esperança.
Que só se mobiliza para o futebol, para o carnaval, para festas de arromba e para ir à praia.
Ou para destruir “orelhões”, queimar ônibus a mando de traficantes ou agir como os “de cima” (com total impunidade: assaltar os outros).
Quando o filho” do “filho do Brasil” pega um avião presidencial em São Paulo, coloca 15 amiguinhos e vem a passeio à Brasília, que exemplo está dando?
E o ministro da Defesa (servidor de todos os governos) diz que não vê nada de mal nesse ato.
As pessoas esquecem.
Mas esse avião da impunidade é pago com o nosso dinheiro.
Quanto à mobilização popular, estou sendo injusto? Talvez.
A luta pela anistia e pelas eleições direitas mobilizou muita gente.
(Mas há bastante tempo…)
Mas essa resignação popular, sinceramente, não é estoicismo (que é uma nobre filosofia): me parece passividade, indiferença ou incapacidade de lutar coletivamente para um país melhor.
Não adianta só reclamar nos botecos da vida, encher o Maracanã ou as ruas no carnaval.
Ou transformarem-se em “cadáveres adiados que procriam” – no forte verso de Fernando Pessoa.
Estou sendo duro? Estou. Mas só assim teremos um chance de construir um país menos obsceno, socialmente falando.
O filho do Brasil…
Como lembrou alguém, a própria hipervalorização de um “operário” pela intelectualidade abestalhada da classe média (que adora histórias de sanduíche de mortadela), é prova dessa degradação moral e mental.
O filho do Golbery…
Dizem que agora a turma dos muitos vivos que filmou a história do nosso Napoleão, quer filmar um livro de Sarney.
Será mais um tiro no humanismo.
Ou outro apagão da inteligência.
Se a ministra do apagão ganhar as eleições (com esse
elogio da ignorância, não duvidem de nada), seria uma ideia iluminadora a debandada da inteligência para algum outro lugar.
Os relatos que recebo do Nordeste (e eu próprio vejo: vou com freqüência à Bahia) são aterradores: como se previa, rios de dinheiro serão gastos, o jogo já está pesadíssimo.
A “aliança do Bem, da Luz e da Pureza” (PMDB/PT) promete uma revolução moral nos hábitos políticos brasileiros.
O nível que está sendo estabelecido para a campanha de 2010 deixaria ruborizados os coronéis nordestinos que o PT tanto combatia.
O “filho do Brasil” teria dito, como dono de capitania hereditária: “Até São Paulo, o Brasil é meu.”
Ele realmente teme o que vem abaixo.
Escutei o programa “Café com o Presidente”.
Até a leitura de uma bula de remédio é mais emocionante.
A fala tem a profundidade de um pires.

O Napoleão de Abel Gance
E dizer que assisti a uma das maiores obras-primas do cinema: “Napoleão” (1926), de Abel Gance, um dos grandes pioneiros da sétima arte, como Griffith e Eisenstein.
(Esse Napoleão era o verdadeiro…)
Mas o sobrenome é Gance, não Barreto (nada contra os Barreto de SC).
Para Rosiska Darcy de Oliveira, “das velhas práticas da esquerda, o PT guardou as piores. O que os regimes autoritários do socialismo real fizeram usando a polícia política, o PT inovou, substituindo a repressão pelo dinheiro. Azeitou a máquina com cargos e propinas. Aderiu ao espírito do nosso tempo, em que o argumento convincente é o dinheiro. Era essa a ‘revolução’ com que contava para se perpetuar no poder.”
Estamos diante de um fenômeno novo em nossa história. Ele tem várias dimensões
Uma delas é a introdução na esquerda brasileira, em larga escala, daquilo que Marx chamava, em outro contexto, de o “poder dissolvente do dinheiro.”
As sociedades antigas, baseadas na tradição, na hierarquia e na religião, desconfiavam dos banqueiros e de grandes comerciantes, e não raro os reprimiam – como lembra César Benjamin em seu texto intitulado “O Mito do Paraíso Perdido” –, porque percebiam que o fortalecimento da esfera do dinheiro desagregaria tudo o mais.
Lógico: tornou-se desnecessária a batalha das ideias.
À cúpula do PT bastava o dinheiro.
No fundo, a militância virou um estorvo.
Assino embaixo com o autor: apesar dos índices das pesquisas e da adulação quase geral, dessa responsabilidade histórica (muitíssimo grave, como diz Benjamin) Lula não escapará.
Nossa vida humana é muito breve diante do cosmos.
Não me importo de remar contra a corrente.
Nesse rastro, o tempo revelará quem foram os traidores e os patifes.
E quem não vendeu a sua alma.
VALORES (I): Meu pai – o homem honrado e mais generoso que conheci na minha vida –, e minha família sempre quiseram que eu fosse um “homem de valor” e não um “homem de sucesso”.
E ele, meu pai, sempre lia a Bíblia: “Aquele que não poupou o próprio filho mas o entregou para todos nós, como não vos dará também com ele todas as coisas?”
(Rm, 8/32).
VALORES (II): Não importa o que temos.
Importa o que amamos.
Emanuel,
Primeiro quero te dizer que “sem ti, no soy nada” é um verso de uma música que não lembro o autor que deves procurar para não me fazer pensar que se trata de um plágio ou para te atualizares fora da TV. A vida na TV das adrianas e dos luizes é para o povo, como era a rádio e tu preferiste os livros. E nestes teus livros eles qualificam um capitalismo que nos obriga a pagar uma taxa de impostos tão grande como se paga no Brasil? Que capitalismo é este em que o estado toma quase a metade do que tu cobras pelo serviço que prestas, além de pagar IR mais de duas vezes ao ano?
Queres me dizer que o filho do presidente da República do Brasil, presidente viagem de ônibus convencional, sentando no banco da roda? E o teu filho, viaja como? Se somos nós que pagamos esta viagem é muito pouco pelo que pagamos para os agregados encostado-se ao governo. O meu filho não iria de ônibus e acho que ele tem direito e nós devemos pagar sim.
Emanuel Medeiros deixaste de babar pelo Lula? Deixaste de pedir votos para ele? Mudastes? Por quê? Ele não conseguiu realizar a tal da revolução popular e tu vens criticar as meninas populares da TV?
Não é de se estranhar para quem acredita nas histórias contadas pela Bíblia, principalmente pela primeira que é a criação do mundo. Se acredita nas outras, acreditares em todas.
O tempo, o tempo muda as pessoas. Falas de uma Ilha e moras em Brasília, preferiste Brasília por interesses individuais, estar perto do poder ou porque o emprego ali era fácil. Ame Brasília porque a tua Ilha não existe mais, esta morrendo com cada um de nós que morro, inclusive os Barreto da vida.
Abs
Brito
Muito bom. Só faltou um fundo musical com aquela música do Raul Seixas ” ê, ê, ô vida de gado, povo marcado… e povo feliz”.
E agora em tempos de natal de papai noel, se perguntarmos nas ruas o que se comemora no natal já sabes a resposta: um grande feriadão com gastanças e comilanças, e que ninguem ouse falar em outra coisa.
Parabens Emanuel, vc está cada vez melhror!Excelente sua crônica deste domingo.A reação do Sr Paulo aí é porque vc mexeu com o PT, tem gente que vive de “álibi compensatorio” segundo Freud, não quer enxergar,tem desculpa pra tudo…O partido tá em derrocada por culpa exclusiva de seus filiados qeu foram com muita sede ao pote!!Mostrou a cara!Uma sucessão de falcatruas|!!
Pouco me interessa o passado ou o presente do autor do texto, se o autor do texto é fiel à cartilha que apresenta. Fico com o texto: ele é bom, diz verdades e é instrumento de reflexão e de mudança do ser humano para melhor, por nos arrancar do torpor do pragmatismo materialista e amoral em que nos encontramos, revoltados por dentro mas plácidos na expressão, medindo as palavras ou nos escondendo atrás de pseudônimos afim de preservar nossos interesses e relações com o poder, quando dá vontade mesmo é de mandar quase todos para a pqp. Sim, não sou perfeito, ninguém o é e o que varia é o grau e a qualidade da imperfeição de um ser humano para o outro. Mas temos a obrigação de denunciar e não compactuar com o êrro, nem com os nossos nem com os alheios, pois é exatamente apontando o dedo uns para os outros – quando cada um não o fez espontaneamente para si mesmo antes -, que iremos aparando nossas arestas e progredindo individual e coletivamente. Claro que existem os cínicos e aqueles em que a vilania prevalece, em que a natureza pende para o crime e que não sentem o peso da culpa. O texto não foi escrito para estes e sim para aqueles em que o restante das suas vidas presentes ainda é prazo suficiente para despertarem e tomarem vergonha na cara, para apresentarem-se como “trabalhadores da última hora” em favor de um Brasil com maior estatura ética. E eu tenho a esperança de pertencer a este último grupo, de que ainda tenho tempo de expurgar de mim mesmo tudo aquilo que condeno nos outros, estes espinhos que me acicatam o espírito e que só eu mesmo posso arrancá-los. Sim, são tempos de salve-se quem puder e não se trata de uma faculdade e sim de um dever urgente, pessoal e intransferível… Obrigado pelo texto, Emanuel.
Parabéns, novamente, Emanuel. Nós vivemos o “fim da utopia”. Se observares, a maioria dos países europeus que tiveram governos “de esquerda”, atualmente optaram por governos de “ultra direita”, pois esse “povo da esquerda” falava mal, nao por ideologia, mas por não estar no circuito do poder. E o resto é água com açúcar. A esquerda brasileira flerta com os pobres durante o dia e vai pra cama com os ricos durante a noite.
Pensei que eu estava em depressão por sentir exatamente assim. Impotente diante de tanta babaquice, de pessoas só falando em comprar, em consumir. Por não gostar de pagode e musica sertaneja. Por não saber comentar o último capitulo da novela das nove porque nem estou assistindo TV. Me chamando de “fora da realidade” por não frequentar shopping ou baladas.
E eu que sou alienada????