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Cartinha do Emanuel

Bolsa-celular, apagão e outras meditações

Pense num absurdo.
Pensou?
No governo Lula deve haver um precedente.
Queria abordar temas mais interessantes relacionados à aventura do espírito humano. Mas o cotidiano – mesmo que às vezes seja mesquinho – continua sendo a razão de minhas preocupações, e vai ocupando o meu coração.

Apagão, Bolsa-Celular.
Bolsa-Celular? Pois é.
Deveria ser criada a bolsa-funeral, para que pudéssemos enterrar os nossos sonhos.
Dr. Tancredo dizia que a ARENA (o partido de sustentação da ditadura militar) estava se transformando no partido dos grotões. É o que está ocorrendo com o PT,
que continua celebrando o anti-iluminismo e a ignorância.
Num país que precisa tanto de conhecimento, não se concebe um presidente que diga (como o Lula fez) que “ler dá azia”.

De Karl Marx...

De Karl Marx...

O que está havendo com a “esquerda”?
Os velhos comunistas se inspiravam em Karl Marx, Rosa Luxemburgo e Antônio Gramsci. Eram referências iluminadoras.
Ou Che Guevara, para as gerações mais novas.
Hoje, quais são os ídolos de muita gente?

Tentem se lembrar de lideranças de países vizinhos, nacionais e regionais que poderiam se enquadrar nesse espectro político.
E comparem com os líderes e pensadores acima citados.
Sim, valem nomes de deputados (as), senadores (as), de presidentes ou diretores da Eletrosul, de políticos da Venezuela ou de outros países latino-americanos.
Só isso.

...a Che Guevara

...a Che Guevara

Será que a queda do Muro de Berlim deixou muita gente órfã?
Pelo contrário, a sua derrubada , em novembro de 1989, deveria ser motivo de reflexão, de estímulo aos pensamentos utópicos e libertários.
É preciso ter consciência de que outros perversos muros continuam,
Poucas vezes se viu, com o império do mercado, tanta indiferença diante do sofrimento humano.

No Leste europeu, a desigualdade nunca foi tão grande.
Já no verão europeu de 1976, em Berlim – fugido da ditadura –, com os meus saudosos amigos Alberto Albuquerque e Luiz Travassos, eu conversava sobre isso.
Lembro que caía neve, e de que havia um inverno de 10 graus abaixo de zero.
Atravessamos o Muro, passamos um dia todo em Berlim Oriental.

Recordo da arquitetura pesada e monumental que em 2000 veria em Bucareste, na Romênia, quando o regime do ditador corrupto e cruel Nicolae Ceaucescu, já terminara há, aproximadamente, 10 anos.

Eu, Alberto e Travassos meditávamos, em Berlim, sobre a “possibilidade” de uma utopia.
Qual? O socialismo de face humana. Sim, que não perdesse a ternura.
Não o vi. Não o verei. Talvez gerações mais afortunadas o enxerguem.
Nós três, conversávamos horas e horas, contemplando o Muro, a neve, planejando combates em prol da anistia em favor de tantos companheiros também exilados (como Travassos), tomando vinho, e nunca esquecendo o Brasil.
Mas como dizia sempre para os dois amigos, é mais importante pegar na
flecha do que acertar no alvo. Acertar no alvo é consequência.
Insisto: os caminhos foram feitos para serem andados…

Os homens contemporâneos parecem imersos em bobagens sem valores, absolutizando o relativo, valorizando apenas o cartão de crédito, a pecúnia e engenhocas eletrônicas. Muitas relações são descartáveis como celulares.
Mas um homem tem que ser maior que o seu sofrimento.
Quero dizer: precisamos ter força interna para não desistirmos dos nossos sonhos.
“Menor que meu sonho não posso ser”, já “exigia” meu querido amigo e grande poeta Lindolf Bell.
Perdoem a dispersão. Não, não esqueci da bolsa-celular.
É medida eleitoreira, é claro.
Para que serve? Não, não é só folclore.

Jânio de Freitas lembra que “com a mudança da lei que proibia a absorção da área de uma tele por detentores de outra área, o grupo da empreiteira Andrade Gutierrez (o sócio financiador de um filho do Lula) e o grupo Carlos Jereissati adquiriram o controle da telefonia celular no Nordeste. No qual está a maior concentração de beneficiários dos atuais 12 milhões de filiados ao Bolsa-Família.”
Com R$7 de crédito, o filiado do Bolsa-Família usará o celular de graça por uns minutinhos e pagará pelos outros telefonemas, num sistema telefônico dos mais caros dentre os celulares do mundo.
Quando? Antes das eleições do ano que vem.

Apagão? Não começou agora, mas não é necessário ser um especialista em sistemas elétricos para saber que em 8 anos algo poderia ter sido feito.
E Dilma, que foi ministra das Minas e Energia, no primeiro governo Lula, afirmou há pouco que estava tudo sob o controle.
De quem? Do destino? Lógico, os raios são os culpados de sempre.
Oh, raios!
Deixar o sistema elétrico brasileiro nas mãos do PMDB e de sua gula, por conta do apetite voraz de Sarney e sua turma, dá um frio na espinha.
Juntem-se a eles, os burocratas sindicais também famintos: dá mais do que frio na espinha. O sentimento é de horror!
Se pensarmos que a área dos transportes (quero dizer, incluindo todas as estradas brasileiras) também está nas mãos do PMDB faminto, será preciso rezar.
No caso nacional, combinar com São Pedro para que não chova na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.

Na ditadura se dizia que o último que saísse do Brasil deveria apagar a luz.
Com Lula, devemos pedir que o último que sair acenda a luz.
O ministro das Minas Energia, da “cota” do PMDB de Sarney (um patriarca que, ao contrário daquele do livro de Gabriel Garcia Marquez, parece nunca ter o seu outono) ficou irritado com os especialistas que garantiram que o apagão não teve nada a ver com raios. Mas com incompetência.

Como escreveu um jornalista, “a pantomima política lembra a crise dos anos FHC, quando os tucanos tentavam depositar seu apagão na conta do PFL…”
Arremata o mesmo profissional: “Mas é sintomático nos dois casos, que o país esteja entregue à mesma bancada do apagão”.
As subestações da fisiologia continuam operando.

Concordo com um leitor que, generosamente, postou um comentário sobre o meu texto da semana passada.
O governo Lula é um governo virtual.
É a hegemonia dos marqueteiros, da falsificação do real através de truques tecnológicos muito bem pagos.

Um conhecedor da rotina do Palácio do Planalto me disse que Dilma trata muito mal e de maneira grosseira os seus subordinados e os seus assessores.
Querem pintá-la como uma humanista preparada. Não é.
Ela e o seu grupo, na essência, são stalinistas viscerais. Pode rezar com o padre Marcelo Rossi, com os bispos neo-pentecostais de direita, processados nos Estados Unidos. Pode simular fé, piedade, compaixão. É tudo fingimento, jogo de cena.
Ela só faz os que os marqueteiros dizem que deve fazer.
Um amigo meu disse que com as plásticas ela ficou parecendo com a ‘filha do Chucky’.
Vai funcionar? Falo do resultado eleitoral. Não sei.
Com a carência de informação e discernimento de grande parcela de um povo que vive sob o signo da miséria e das esmolas governamentais, nada é impossível.

Breve intervalo – que os leitores perdoem a autopiedade: em termos sócio-políticos (não privados- nesse terreno há muitas compensações, afetivas e culturais), na luta por um país mais decente, a minha geração, nascida no final da 2° Guerra, Mundial, em 1945 (quando também nasceram Leila Diniz, Raul Seixas, Elis Regina e outros bravos guerreiros), não foi afortunada: cresceu sob um signo de uma ditadura que durou 21 anos; assistiu à morte de Tancredo; teve que suportar o governo Sarney; viu a derrota dos “autênticos” do velho MDB; o período Collor; 8 anos de privataria tucana. Meus Deus! E 8 anos de Lula!
Mas serei justo: eu e minha geração lutamos intensamente pela anistia. E ela foi conseguida (com muito suor, lágrimas e combates contínuos).
Não como queríamos, mas saiu.

Mais 4 de lulismo com Dilma? Não merecemos! Mais novo, buscaria um auto-exílio, para a preservação da inteligência e da dignidade.
Não, não quero ficar monotemático, mas a insistência na crítica ao PT e ao lulismo, deve-se à minha radical repulsa aos mentirosos, aos vendilhões, aos corruptos, aos deslumbrados e aos traidores.
Ao contrário do que pensa um leitor (a quem respeito), não disse que a solução seja “votar no PFL”, como ele escreveu.

Meu temor?
Podem atribuí-lo à “paranóia de um sessentão” que viveu e vive intensamente o seu tempo e o seu país, buscando combater o bom combate.
Falo agora desta sombria expectativa.
Temo que para não perderem as suas “bocas”, os empregos e os seus privilégios, os sindicalistas pelegos e os burocratas famintos criem, no próximo ano, milícias fascistas, como os falangistas fizeram na Guerra Civil Espanhola, contra os republicanos.
As sementes – não duvidem – estão sendo preparadas.
Para atacar os opositores.
Para não sair do poder.

Quem não mora em Brasília, talvez não saiba do poder que essas pessoas estão tendo nas entranhas da burocracia estatal.
E o infausto consórcio PT/PMDB quer mais: é uma gula que não acaba.
No fundo, o que deseja o petismo?
Chegar à chamada burguesia que, teoricamente, tanto condenavam.
É um “bolchevismo sem utopia”, como classificou alguém.
Daí os ternos caros, os vinhos raros, os restaurantes refinados, os celulares sofisticados, e as constantes viagens ao exterior.

Tomasi Di Lampedusa estudou essa forma de ascensão social no belíssimo romance “O Leopardo”, do qual Luchino Visconti extraiu o seu estupendo filme, que leva o mesmo nome.
O romancista e o cineasta refletem sobre a transição da aristocracia para a burguesia na Itália.
(E Visconti conhecia bem a situação: era aristocrata de berço e marxista por formação.)
Como me lembro dos petistas quando releio o livro e revejo filme!
É preciso mudar, para que tudo fique como está, como é dito no livro.
O “Correio Braziliense” ( com “z” mesmo) informou em manchete que novos cargos com altos salários estão sendo criados para os “amigos”.
Vão querer perder tudo isso?
Lógico, não posso imaginar que diretores da Eletrosul (ah, Eletrosul…) não sejam petistas e lulistas. Podem até dizer que estão ali para defender o patrimônio do povo (seu hábito contumaz é subestimar a nossa inteligência) catarinense e brasileiro. Querem continuar ganhando bem e mantendo seus privilégios e mordomias.
Essa empresa não funcionaria com um terço de seus funcionários. Não?

São capazes de deglutirem lagostas na Lagoa falando na revolução proletária…
Ser proletário para eles é não se esquecer da prole…
Serei enfático, até redundante (para quem me lê com certa assiduidade): foi para isso que tanta gente sofreu, foi presa, torturada, morta ou exilada?
Buscarei ser mais solar ainda: com Lula, a classe trabalhadora, não foi ao paraíso. Transita entre o purgatório e o inferno.
Sobrevive com bolsas e migalhas, que não enobrecem o espírito humano nem incentivam o trabalho que eleva a auto-estima. Elas, pelo contrário, alimentam a preguiça e viciam o cidadão.

Sabe-se que no Nordeste já estão faltando carpinteiros, pedreiros e garçons.
Um amigo meu foi contratar um moço forte e saudável para capinar o terreno do seu sítio em Samambaia, cidade-satélite de Brasília.
Resposta: “Eu? Já tenho a bolsa que o Lula me dá, e outra do Arruda” (governador daqui do Distrito Federal, do DEM).
E, certamente, compra eletrônicos nas Casas Bahia.

De passagem: leitores sugeriram a abordagem da taxação da poupança.
A medida realmente não saiu. Mas estava engatilhada.
Também foi decidido o cancelamento da devolução das parcelas de imposto de renda a que pessoas físicas ainda tinham direito a receber.
A medida só foi sustada por pressão da opinião pública.
Era para fazer caixa, para alegria da banca.
Lula deve sido acometido da “síndrome do Collor”, seu fraternal companheiro da base aliada.
Vocês sabiam que dos 31 países visitados nos 81 dias de viagens de Lula este ano (até domingo, 1° de novembro), só um fica na África? É a Líbia.
Para os EUA e Europa foram 15 viagens.
Não computei as últimas.
Imagino que ele esteja viajando de novo.

VESTIBULAR

Teste de múltipla escolha para a dona Marisa, a “operosa” primeira-dama, que está fazendo a alegria dos cirurgiões-plásticos (com as operações, ficou semelhante a uma Barbie da periferia):

GRANDE GENERAL FRANCÊS – NAPO:
A) TIGRE
B) CARNEIRO
C) LEÃO
D) ONÇA

Se a senhora acertar a resposta, ganhará uma passagem para o Iraque.
Pode escolher também o Afeganistão e o Paquistão ou, se quiser, outros ‘aprazíveis’ países da região.
Um lembrete: a passagem é só de ida.
Em tempo: pode levar o marido.

BRILHO

O estadista inglês Winston Churchill, homem muito inteligente e culto, era portador de um espírito cáustico e de uma língua viperina.
Foi o ex-primeiro ministro amante dos charutos e do bom uísque, quem disse que se Hitler invadisse o inferno, ele faria uma aliança com o diabo…
Em certa ocasião (parece que num jantar) teve uma discussão com uma “dondoca” ou burguesa fútil.
Essa senhora disse para Churchill: “Se fosse sua mulher, lhe dava veneno.”
Ele, de bate pronto: “Se fosse seu marido, eu tomava.”

CORREÇÃO:

Na minha última ‘meditação’, errei ao digitar um nome: é Golbery do Couto e Silva e não Golbery da Costa e Silva, como foi grafado.
Era o “bruxo” e o mais inteligente estrategista da ditadura militar.
Devo ter sido atacado pelo espírito de Costa e Silva, o general que assinou o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, o “golpe dentro do golpe”, conhecido (vou ser suave) por sua carência de inteligência. Ele pensava que reunião do Estado- Maior (do Exército) deveria ser realizada no Amazonas…

Agradeço a Millor Fernandes pelo teste de múltipla escolha.

Podem usar como queiram minhas reflexões e as citações que faço, mas até por carinho às antigas amizades, ficaria compensado se a fonte fosse citada.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Estupendo texto! Bis!

    Posted by Helio | novembro 15, 2009, 09:20
  2. EMANUEL,das um banho!

    Posted by Bella sirqueira | novembro 15, 2009, 19:32
  3. De maneira geral, sou um pessimista quanto ao futuro, mas ainda tenho esperanca na remissão da linfas.

    Posted by carlos | novembro 15, 2009, 22:49

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