// você está lendo...

Caraminholas

O tiro pela culatra

Sempre que vejo autoridades brasileiras dizendo que vão conhecer as experiências de tolerância zero e que pretendem trazer esse conceito para cá, acho que não falam sério.

Não é possível que falem sério.

Porque, vejam só, a tolerância zero, como o nome diz, prega que não se deve deixar sem a devida punição nem os crimes considerados menores. Em Nova Iorque, por exemplo, começaram a pegar a turma que pulava a catraca do metrô pra não pagar. E isso era uma coisa tolerada, porque a polícia achava que devia se preocupar com crimes maiores. Mas ao não fechar os olhos para as pequenas transgressões, a polícia e o governo começaram a dar um recado claro à sociedade: chega de tanto crime.

O conceito funcionou também para acabar com a pixação dos carros do metrô: foram todos limpos e sempre que aparecia um risquinho, ia pra oficina e só saía limpo. Descobriram, com essas coisas todas, que nem todos os que violam a lei, o fazem porque são criminosos. Pulam a catraca porque todo mundo pula e não acontece nada. Pixam o bem público, porque todo mundo pixa e está tudo sujo mesmo.

Trazer o “tolerância zero” é um perigo imenso para a forma como agem e se comportam nossas autoridades. Elas e seus deslizes seriam fatalmente alcançadas por um cuidado maior com a Lei. O filhinho de alta autoridade que está metido com a jogatina ilegal, terá forçosamente que passar maus bocados, senão não é “tolerância zero”. Não importa que seja vereador, deputado, que seu pai seja desembargador, senador ou governador. A autoridade propriamente dita, que “flexibiliza” para uso próprio alguns diplomas legais, pode ser também levada a explicar-se.

Portanto, se eu fosse vocês, pensaria duas vezes antes de pretender trazer o “tolerância zero”. É uma faca de dois gumes. Feitiço que pode virar contra o feiticeiro. Deixa isso pra lá. É modinha que pegou em poucos lugares justamente porque não são todos os lugares que comportam esse tipo de radicalismo.

Não existe “tolerância zero” se precisa livrar a cara deste ou daquele. Quem vive nos palácios sabe exatamente a que estou me referindo. Bom, se quiserem mesmo fazer a experiência, seria bom listar os parentes, amigos, amigas, afilhados e afins que são notoriamente encrenqueiros e mandá-los passar uns tempos longe daqui. Pra evitar o vexame de abrir tantas exceções que a operação ficaria melhor identificada como “tolerância zero só no c… dos outros”.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Tolerância zero pra PPP, pra clase média, para os trabalhadores. Ricos e políticos continuarão sendo tratados assim: ninguém sabe, ninguém viu, a polícia não pega, o STF desculpa, o Senado enrola… etc.

    Posted by Aline | outubro 14, 2009, 17:32
  2. Não é comentário, mas essa vc vai gostar de ler:
    http://www.mp.sc.gov.br/portal/site/noticias/detalhe.asp?campo=9729&secao_id=370

    Posted by Eduardo | outubro 14, 2009, 18:03
  3. Tolerância zero pra reduzir a criminalidade? Precisa muito mais que isso. Por mais que se prove o que está errado, como, p. Ex. efetivo policial insuficiente e despreparado, judiciário desaparelhado, caos no sistema prosional por falta de vagas, legislação anacrônica e ultrapassada, nada acontece. E não será com uma “tour’ pela Flórida que irão aprender como se faz segurança, e se aprenderem não irão aplicar. Não irão aplicar por preconceito. É o preconceito contra a clientela da àrea de segurança, formada pelo substrato social do País, os pobres, o favelado e o menos favorecido que não tem recursos para investir em segurança. Outro preconceito é contra a força policial – pois ainda são muitos os ‘detentores do poder’ para quem Polícia é sinônimo de Repressão (resquícios dos anos de chumbo), e quando é usada a força proporcional, imediatamente vem a acusação de abuso de poder. Fica uma constatação: de todos os males que nos afligem, a segurança pública é a que mais preocupa, pois sem ela, todo o resto é acessório. Mais importante que ter saúde é estar vivo.

    Posted by Max | outubro 14, 2009, 18:42
  4. A tolerância zero, no Brasil, serve para favorecer a corrupção. Se o sujeito que bebe dois chopps em uma hora de papo é considerado bêbado, então não existe mais turismo.
    Se resolverem fiscalizar mesmo o turismo sexual, terão que limitar o turismo a velhinhos e casais.
    Se entenderem que as moças de 16, 17 anos não podem namorar pessoas de mais de 18, terão que prender nossas avós que, em regra, casaram-se por aí, além de muitas garotas, é claro – e, certamente, garotos.
    Se entenderem que carros estacionados irregularmente serão multados, terão que fechar os tribunais, intervir nos comandos militares, encerrar as atividades do Congresso, limitar os direitos das embaixadas etc.
    Se quiserem acabar com a bandidagem, terão que arranjar empregos que rendem pelo menos um terço do rende a bandidagem.
    Daí, é tudo fantasia para gringo ver.

    Posted by Nilson Lage | outubro 14, 2009, 18:52
  5. Tolerância zero na casa dos outros é muito bonito para eles assistirem. Aqui, todos eles e suas parentalhas estariam “em cana”. Alguém duvida?

    Posted by Helio | outubro 14, 2009, 21:08
  6. Tio César, sempre lúcido… Juridicamente falando, a lei não admite tolerância alguma: se a lei não tolera o que a sociedade tolera, revogue-se a lei ou admita-se a desmoralização do Estado. Então, nossas autoridades resolveram começar a cumprir a lei? Ora essa, eu não sabia que elas tinham outra opção… Quem teve essa idéia não tem noção sequer do ridículo. Mas, se é para aderir à “tolerância zero”, sugiro começarmos pela punição severa à prevaricação: punição severa para agentes públicos coniventes com a ilegalidade.

    Posted by Jairo Cardoso | outubro 14, 2009, 21:28
  7. Isso será motivo para baixar o pau nos P.P.P, não gosto desse negócio de tolerância zero, pois só sobrar para os coitados, aqui em Florianópolis têm um grupo de intelectualóides que entende o que o problema das drogas e da violência estão nas favelas, e lhes digo, estão também, mas não é exclusividades deles, existe um grande número de “filhinhos de papai” (por isso a RBS têm tanta preocupação disso, porque nunca falaram da cocaína, da maconha, etc..) que saiu da maconha e foi para o crack, eles estão financiando o trafico, e quero ver alguém meter a mão nesse pobrezinho, e quando isso acontece, você acaba encontrando o CMT de sua unidade na Delegacia, que diz ter ido comprar cigarros e passava ali por acaso!!

    Posted by PM - FALADOR | outubro 15, 2009, 00:52
  8. Ká, ká, ká, ká! Tolerância zero no Brasil e em Santa Catarina, com essas “otoridades” criminosas que nos governam? Ká, ká, ká ká!

    Posted by Fernando | outubro 15, 2009, 00:59

Posts recentes

Férias!
26 de janeiro de 2012, 15:16
Por Cesar Valente
O engenheiro amador
26 de janeiro de 2012, 7:58
Por Cesar Valente
Finalmente! O ano do Dragão!
24 de janeiro de 2012, 6:07
Por Cesar Valente
A cadeia que não prende
20 de janeiro de 2012, 10:14
Por Cesar Valente
O dia em que deu tudo errado…
19 de janeiro de 2012, 6:07
Por Cesar Valente

Comentários

Arquivos