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Olimpíada 2016

Tomei café com o Presidente

Aconteceu hoje de manhã bem cedinho, atendendo a uma convocação palaciana que será repetida a todos os que estão com a pulga atrás da orelha por causa do assunto predominante nos últimos dias. Por insistência do Lula falamos (falou) só da Olimpíada de 2016. Nosso presidente justificou que não tem dormido direito de tanta preocupação com o que o povo anda discutindo sobre os gastos para trazer esta grande competição para o Rio de Janeiro.

 Não tive tempo nem de saborear algumas frutas típicas do Cerrado servidas em mesa farta que incluía tapioca doce e salgada, macaxeira, leite de cabra e outras gulodices nordestinas. Educadamente fiquei ouvindo o homem e seu entusiasmo com o que vai acontecer nos próximos sete anos até chegarmos à Olimpíada.

 De cara ele lascou uma frase curta e grossa. “Não acho que devamos considerar a Olimpíada como gastos, mas sim como um grande investimento”. E prosseguiu com a veemência e a clareza de raciocínio que lhe são peculiares. “Veja, não se deve perguntar quanto o Brasil gastará na Olimpíada, mas quanto ganhará com a realização do evento”. E por ai foi a churumela, quer dizer, a fala presidencial.

 Depois de ouvir muito e não dizer nada, consegui passar por escrito a uma mulher que estava por perto e se identificou como assessora do homem – parece que é Dilma o nome dela – algumas dúvidas que tenho em relação a essa polêmica. Saí de fininho e com a esperança de receber alguma resposta, nem que seja para me chamar de “do contra” e “derrotista”.

 No papel que havia preparado escrevi que, em primeiro lugar, gostaria de uma opinião sincera do Presidente sobre o que o Rio de Janeiro ganhou com a realização e os gastos, desculpem, investimentos, dos Jogos Pan-Americanos em 2007. Resposta que deveria vir acrescida de algumas informações que julgo pertinentes, apesar da irritação que toma conta do governador carioca Sérgio Cabral e do Carlos Nuzmann do COB quando alguém toca no assunto.

 Por exemplo: as contas foram todas pagas direitinho e uma vez só para cada credor? O Tribunal de Contas da União insiste que não e que detectou muitas irregularidades como superfaturamento de obras e notas repetidas.  Estão em uso todos os equipamentos esportivos construídos especialmente para o Pan? Quem fim deram à Vila Pan-Americana, cujos apartamentos adquiridos por futuros moradores foram devolvidos logo após os jogos por descumprimento do contrato por parte da empreiteira. Faltaram muitas obras de infra-estrutura, nada sério.

 E um detalhezinho que acho importante: essa briga entre Carlos Nuzmann e o Ministro do Esporte, Orlando Silva, pela paternidade de um projeto – que ainda não existe – para a formação de atletas, vai terminar no quê?  Se não estou errado, existem hoje no Brasil somente dois dos chamados centros de excelência, um para o voleibol em Saquarema, e outro para a ginástica, em Curitiba. Os atuais atletas olímpicos deveriam entrar nessa briga ao invés de ficar com as obviedades e abobrinhas de sempre. Problema é que a grande maioria é patrocinada por algumas de nossas maiores estatais.

 Outra coisa: será que para garantir a segurança vão encher as esquinas do Rio de Janeiro do aparato bélico utilizado para a Eco-92? E faz tempo, foi há uma década e meia atrás, viu gente. Parecia uma praça de guerra. A cidade está mais tranquila hoje? Fizeram o que tinham que fazer desde então?

 Onde vão enfiar a população carente que lota enfermarias e salas de espera dos hospitais públicos  a espera de atendimento? Sugiro que imitem os comunistas chineses que esconderam parte do povo em hotéis até o final da Olimpíada deles. As proximidades dos locais de competição ficaram tranqüilas, sem carros e sem povo nas ruas, uma solução criativa para o problema da tal mobilidade urbana.

 Tem muito mais coisa para discutir, mas a gente sabe que o Presidente é um homem muito ocupado e não sei se a assessora dele é tão confiável assim para lhe passar metade destes questionamentos. É mais provável que prefira blindar o homem destas chatices.

 Em todo o caso, obrigado pelo café.

Discussão

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  1. CUSTOS DO PAN

    Em 2002, quando da candidatura do Rio, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estimou gastos de R$ 414 milhões, a maioria em recursos oriundos da iniciativa privada, segundo o Comitê. Cinco anos depois verificou-se que a conta foi multiplicada por nove: a aventura ficou em R$ 3,7 bilhões, tudo pago pelo contribuinte.
    Na pressa, é claro, dispensaram-se inúmeras licitações. As contas não foram aprovadas, mas o que é isto em termos de ganhos para a nação, não é mesmo?
    Um exemplo: gastou-se numa reforma, a do Maracanã (R$ 294 milhões), mais do que o suficiente para erguer um estádio novo – o de Leipzig, usado na Copa de 2006 na Alemanha, que saiu por R$ 244 milhões. Nova reforma será necessária no Maraca para a Copa e provavelmente mais uma para as Olimpíadas!
    A Vila Olímpica do PAN, na Barra (começou a afundar, segundo várias reportagens de O Globo). Vai precisar reformar também.(Como é bom fazer, reformar e superfaturar!).
    Notem agora, a cada vez que falam dos custos das Olimpíadas, aumenta-se um ponto. Começou com 21,9 bilhões. A última foi de 24,9 bilhões. Sempre um ,9 notaram? É o mesmo estratagema do 1,99. Só que em bilhões.
    Alguém quer apostar que vai ficar menos que 50 bi? Duvido. Sou carioca e sou bacana: dou o empate. Pra mim fica mais de 50 e mais, como depois do PAN, do Rio 92 e da Cidade do México (que tb teve Olímpíadas)nada vai mudar. Primeira inscrição para a Olim-Piada: estandarte do do ano passado do Bloco “Simpatia é quase Amor”: “A mentira tem pernas curtas, barba branca e um dedo a menos!”.
    Alguma dúvida?

    Posted by Carlos Viana | outubro 5, 2009, 17:37
  2. Depois da mentira de pernas curtas, me lembrei de outras irreverências cariocas (vai bombar na Olim-Piada). Passo para o sorriso de vcs:

    Slogan – Começaram a aparecer adesivos em carros com a seguinte frase: “EU AMO MINHA MULHER”. Logo um gaiato colou no vidro traseiro de seu bólide: “EU AMO SUA MULHER”.

    Publicidade – Vocês já viram a publicidade de baixo esoterismo que propagandeia “Trago a pessoa amada em 3 dias!”? Pois é fizeram uma outra, grifando: “Estrago a pessoa amada em 3 dias!”. Quá,quá,quá!

    Eleição – A campanha do voto nulo foi forte na cidade e apareceu um candidato da turma do “Chega!”, o Ninguém.
    Segundo a publicidade: “Ninguém é honesto, Ninguém cuida do povo, Ninguém cumpre o que promete, Ninguém está ao lado dos interesses da população.
    Portanto, vote em Ninguém!”.

    Dá pra chorar? No Rio dá pra rir também!

    Posted by Carlos Viana | outubro 5, 2009, 17:52

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