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Jornalismo

Censura olímpica

Uma as coisas mais difíceis de administrar depois que o COI anunciou a sede da Olimpíada 2016 será a relação da imprensa com autoridades e dirigentes esportivos brasileiros. Principalmente se o roteiro escolhido for o do ufanismo, como já ficou bem visível em Copenhague e no Rio, onde a maioria dos repórteres simplesmente vestiu a camisa da candidatura brasileira e deixou de fazer aquelas perguntas óbvias. Quem sair do script será marginalizado possivelmente dentro do próprio veículo onde trabalha. Até o Sportv se rendeu à euforia e no Rio de Janeiro, em um programa da tarde, abriu o palanque para a ministra Dilma Rousseff dizer tudo o que queria e sem nenhuma contestação. Não deu entrevista, fez discurso. Um dos repórteres deste canal, na festa em Copacabana, literalmente vestiu a camisa onde estava escrito “É a vez do Rio”.

Outro dia, assistindo uma entrevista na Globo News do jornalista Geneton Moraes Neto (tem no currículo trabalhos com grandes personalidades do mundo inteiro), ouvi ele dizer mais ou menos o seguinte: “Não se faz uma boa entrevista com oba-ôba e paparicação ao entrevistado. Infelizmente esse é um grande defeito de muitos jornalistas no Brasil”. E nunca a casa caiu nem ele se rendeu a algum tipo de censura ou ameaça. Pelo contrário. Na entrevista que fez com Ney Matogrosso, por exemplo, conseguiu do cantor, sem o menor constrangimento e num piscar de olhos, a confirmação sobre um caso amoroso e apaixonado com Cazuza.

Mas vejam o que aconteceu em Copenhague, segundo o relato do jornalista e blogueiro José Cruz.

“Luiz Roberto Magalhães é um repórter muito atento na cobertura em que trabalha.

Ele foi destacado pelo Correio Braziliense para ir à Dinamarca. De lá envia diariamente excelente material. Sem exageros.

Hoje (sexta), ele foi à coletiva da delegação brasileira e fez uma pergunta oportuna e inteligente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais ou menos assim:

“Depois de ter sido vaiado na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-americanos, em 2007, como o Senhor se sente retornando vitorioso ao Rio de Janeiro, tendo participado ativamente da campanha carioca que levou à conquista da sede olímpica?”

Lula começou a responder e foi, abrupta e indelicadamente, interrompido pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, que passou a falar em nome da maior autoridade do país.

O constrangimento de Lula ao ser  interrompido foi visível.

Censura

Pior veio depois da coletiva, quando o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, censurou Luiz Roberto, criticando-o severamente, pela pergunta.

O repórter deu uma resposta elementar para quem convive com a liberdade de imprensa:

“Eu simplesmente fiz uma pergunta jornalisticamente correta”.

E complementou:

“Sua esposa (Márcia Peltier), que também é jornalista, sabe bem sobre isso”

Márcia não gostou do comentário e, solidária ao marido, engrossou a censura.

Amostra

Na festa da conquista carioca à sede dos Jogos de 2016 tivemos uma amostra de como a imprensa nacional será tratada daqui para frente.

Ou se faz perguntas dentro do roteiro pré-estabelecido ou seremos censurados em público.

A democracia brasileira que o COB exaltou na argumentação da candidatura do Rio não vale para as relações com a imprensa.”

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Mario, muito bem colocado. E é sempre bom lembrar: não estamos numa democracia, que só serve para ser alardeada. Estamos, desde 1964, numa ditadura. Não fosse assim, os grandes poderes que existiam antes da chamada redemocratização teriam sido derrotados. Mas vimos como houve continuísmo em tudo. Não mudaram nem as caras (veja a fuça do Sarney) nem o discurso (desde a implantação da ditadura, só se fala em democracia).

    Felizmente contamos com o jornalismo de resistência, onde, como sempre, te destacas. Abs.

    Posted by Nei Duclós | outubro 3, 2009, 10:31
  2. Recado cortado. A IMPRENSA CHAPA BRANCA NÃO NOTICIOU:
    Na semana passada, no Jornal da Band, Roberto Micheletti, cercado por deputados brasileiros, respondeu a uma pergunta se estava inclinado a ceder nas negociações e ele, olhando para a câmera, afirmativamente: “Claro e eu espero que o senhor Lula da Silva pare de intervir nos assuntos internos deste país, tendo permitido inclusive que a embaixada brasileira servisse de palanque político para Zelaya em âmbito internacional”. Depois, na mesma noite, o Jornal Nacional também exibiu a reunião, em clima cordial até e não colocou no ar a indignação do presidente interino de Honduras.

    Posted by C.Sampaio | outubro 3, 2009, 11:33
  3. Para mim o que conta é a verdadeira intenção do jornalista com a pergunta e não se a pergunta é “jornalisticamente correta” ou não.

    Muitas vezes o ego do jornalista o faz achar (e muitos acreditam piamente!) que “senso de oportunidade” é fazer a pergunta que quiser, em qualquer lugar, seja qual for o momento, a quem quer que seja.

    Acham que relevante é a sua “indispensável” pergunta e não se a resposta (ou a não-resposta) vai construir algo de realmente útil para o seu público ou não (claro que dependedo do “público” que o jornalista tenha, ou queira ter, o tudo vale no vale-tudo – como se dá com certos blogues que não este).

    O “triplo-filtro” de Sócrates anda em desuso…

    Posted by Ernesto São Thiago | outubro 3, 2009, 11:48
  4. Ola Cesar:
    Quando se comenta sobre jogos olímpicos tem uma confusão muito grande entre jogos olímpicos e olimpiadas.
    Costuma se dirigir a olimpiadas como sendo os Jogos e não é.
    Uma Olimpiada é o periodo de tempo (4 anos) entre um Jogos Olimpicos e o outro (próximo) Jogos Olimpicos.
    Uma olimpiada como já foi dito é um perído de tempo que éra usado como calendário na Grecia antiga (periód de 4 anos).

    Posted by Vilmar Schindler | outubro 3, 2009, 12:08
  5. Perguntinha light. Bola picando na área para o presidente tirar proveito. O repórter, com essas palavras, foi favorável ao Lula. Mas sempre tem alguém por perto que quer mostrar serviço, desta vez o governador do Rio. Se a intervenção foi para “proteger” o presidente, acabou em gol contra.

    Posted by Schneider | outubro 3, 2009, 17:17
  6. Caros Medaglia e Cesar, vocês ainda não entenderam o espírito do ‘modelo democrático bolivariano’…

    Posted by LesPaul | outubro 3, 2009, 18:20
  7. Como diz meu amigo Caio

    Leonardo: “Lula respondeu às vaias no Pan com as Olimpíadas 2016″.

    Schneider, o governador do Rio não fez gol contra, ele pisou na bola…

    Posted by Ernesto São Thiago | outubro 3, 2009, 23:43
  8. E os gastos com PANdemonio?
    como fica?
    Aguas passadas?
    ninguem se lembra mais, tudo passado o que foi, foi, nao volta mais.
    É realmente estamos como eles gostam….., “deitados em berço esplendido” e dormindo, assim ninguem sente ou finge nao sentir.
    Copiando Jarbas Passarinho, ” as favas com os escrupulos”, que venha a bonansa e a gastança.

    Posted by J.L.CIBILS | outubro 4, 2009, 14:37
  9. E terrivel ver aonde chegamos com a tal democracia de araque!Tem que perguntar nas entrevista o que é estabelcido…Combinado!Claro, só temos politicos fracos, uns idiotas que con qualquer pergunta se enrrolarm !!

    Posted by maria mara | outubro 4, 2009, 23:11
  10. “tivemos uma amostra de como a imprensa nacional será tratada daqui para frente.”

    Daqui pra frente? Sempre foi assim, pô, sempre. Desde que o mundo é mundo.

    Engraçado: a oposição diz que a imprensa é chapa branca. A situação diz que a imprensa é golpista.

    As coisas não vão mudar nunca.

    Posted by Pierre Alfredo | outubro 5, 2009, 11:13
  11. Mário, confere post Rio 2016 no Congurus. Estamos parecidos.www.comgurus.com.br

    Posted by marcos | outubro 5, 2009, 13:33

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