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Olimpíada 2016

Mão grande, boca pequena

No começo da tarde desta sexta-feira conheceremos a sede da Olimpíada de 2016. Copenhague abriga nobres e plebeus em torno da mesma causa, como a candidatura brasileira, defendida pelo Presidente Lula, pelo Rei Pelé e suas gafes, pelo escritor Paulo Coelho, ministro, governador, prefeito, atletas e agregados. Tóquio vai vender seu peixe com o primeiro ministro japonês, Madri com o Rei Juan Carlos e Chicago à última hora sensibilizou o conterrâneo e xerife do planeta, Barak Obama.

 Feitas a apresentações vamos ao que interessa. Ou não, dependendo do ponto de vista sobre as condições do Rio de Janeiro, a outrora cidade maravilhosa. Em primeiro lugar, essa candidatura representa não só o Brasil, mas a América do Sul, onde os atletas  jamais pisaram para a disputa de uma Olimpíada.

 Madri, na opinião dos observadores atentos, tem poucas chances porque em 2012 a sede será em Londres e Paris quer a de 2020. Difícil de acreditar em tantas olimpíadas consecutivas no mesmo continente. Os japoneses não se mostraram nada entusiasmados (45% apenas a favor) com a candidatura de Tóquio, embora seja a melhor cidade de todas em termos de adequação a um evento desse porte. Sobrou Chicago com a adesão de Obama e o potencial olímpico dos Estados Unidos. O otimismo de quem apóia a Olimpíada no Rio de Janeiro está, portanto, plenamente justificado.

A “farra” de Copenhague já nos custou milhões e a confirmação pelo Comitê Olímpico da sede brasileira vai elevar essa conta a muitos bilhões de reais.

 A Olimpíada é um evento de 15 dias e viria para o Brasil dois anos após termos consumido alguns bilhões com uma Copa do Mundo. Do Presidente passando por ministérios, Comitê Olímpico, governador e prefeito do Rio e parte da mídia, ninguém é contra. Entre os atletas, comprometidos com seus patrocinadores, as estatais Banco do Brasil e Correios, o discurso favorável soa meio constrangido e ensaiado. O Congresso, sob ameaça da fragilidade do seu telhado de vidro, não se manifesta.

 Os contras, não “do contra”, são os que raciocinam com a coerência  de quem vive num país de imensas desigualdades e graves problemas sociais. Para não aprofundar muito, basta olhar diariamente os telejornais e a gama de notícias levada aos lares brasileiros. Saúde, segurança e o pilar de tudo, a educação, clamam por verbas e soluções. Os hospitais públicos são uma tragédia, vivemos enjaulados com medo da própria sombra e da bandidagem de ofício e de colarinho branco que tomou conta do país. O Ministério da Educação não dá conta nem de fazer uma prova do Enem, desmoralizada pela fraude.

Não há uma política voltada para o esporte de base, a não ser uma idéia partidária (do PC do B, atual ocupante do Ministério do Esporte), sem integração com áreas afins, como saúde, educação e meio ambiente, o viés do momento e que já criou vários segmentos esportivos no país.

 Seria melhor, para um jornalista que viveu a maior parte da vida profissional atrelado ao esporte, louvar uma Olimpíada na América do Sul e no Brasil. Mas é difícil pactuar com a fanfarronice e a mentira, que por enquanto estão vencendo essa disputa por dinheiro a rodo. Assim como aconteceu com o Pan-Americano de 2007. Melhorou o que para o esporte brasileiro? O Rio de Janeiro e o esporte ganharam o que com os tais legados – não há como fugir do clichê – do Pan, a não ser elefantes brancos caros e difíceis de amestrar? As respostas para estas simplórias indagações estão nos vários processos em trâmite pelo do Tribunal de Contas da União.

Em resumo, temos a mão muito grande, mas a boca pequena demais para protestar contra a rapinagem.

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