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Cartinha do Emanuel

Saber ler (atualizado)

deolho27-livrosA maior parte das imagens que circulam hoje são frutos de um impulso econômico, para criar produtos e mercados de consumo, não para celebrar o espírito humano ou para aprendermos mais ou sermos melhores.

É pura e simplesmente para fazer mais dinheiro.

Então, neste sistema, se você lê profundamente uma imagem publicitária, você a destrói, como diz Alberto Manguel.

A publicidade – é claro que não digno nada de novo – é feita para “convencer”, manipular as emoções mais primárias e, muitas vezes, para enganar.

E para tapear um povo prostrado e sem cultura não é difícil.

Vejam as tantas igrejas (o super-mercado universal da fé), os tantos políticos, os tantos bingos camuflados, os tantos sindicalistas, os tantos banqueiros, os tantos usineiros, os tantos grileiros, os tantos marqueteiros: todos impunes. Enfim, é o reino da trambicagem.

Então – seguindo as pegadas do autor citado – é fundamental que possamos novamente recuperar a dignidade humana de ler imagens para buscar as verdadeiras, para voltarmos a ser criaturas da memória.

Precisamos “saber ler”.

Sabendo ler, aprendemos com as gerações passadas e com a nossa própria.

O que quero dizer?

Uma mulher não é solitária porque não usa o sabonete tal , o perfume daquela marca. Não vai ser “amada”’ se usar aquele jeans.

O sorriso da “felicidade plena” (que você obterá se conseguir tal produto) é pura enganação. Todos os carros são maravilhosos, cada banco é melhor do que o outro.

E sabemos que os bancos vivem para explorar.

Alguém já disse (teria sido Lênin ou Brecht, ou nenhum dos dois?) que a criação de um banco é mais grave que o assalto a um banco…

Quando vemos as propagandas de mil cervejas, com mulheres gostosonas, malhadas e sorridentes, a mensagem é essa: se bebermos tais produtos, viveremos naquele clima de festa eterna. E tudo isso vai entrando no inconsciente. É subliminar, é lavagem cerebral.

Na segunda-feira temos o resultado no noticiário: carros que viraram ferro retorcido dirigidos por motoristas bêbados.

Não, não é moralismo, eu também bebi (parei completamente há 17 anos): é defesa da vida.

E atores famosos, que já tem muito dinheiro, fazem as tais propagandas de bebida alcoólica.

Me acharão exagerado. Mas acho, no mínimo, anti-ético. É pura cobiça.

Quem faz propaganda de remédio, deveria ingerir antes o produto e só depois fazer a publicidade.

A Xuxa e os outros que ganham tanto dinheiro fazendo publicidade, usam aqueles produtos dos quais dizem mil maravilhas?

A partir deste aprendizado, poderemos enfrentar as imagens da Coca-Cola e de todas a marcas.

Lendo “Madame Bovary”,de Flaubert, você percebe que a infelicidade da mulher não deriva do fato dela não usar o perfume tal.

As razões são outros, muito mais profundas.

“O problema é que estamos vivendo um momento de enorme velocidade e de

pouca concentração. O dia em que deixarmos de ler, iremos morrer.”

CURTOS FRAGMENTOS

Num debate de uma eleição sindical, no Auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, fiz uma intervenção e citei Gramsci.

Um sindicalista levantou-se e me perguntou se ele era da diretoria anterior…

Eu: Não, ele se aposentou e foi morar em Taguatinga….

Anos antes, aí no IEE, um aluno me indagou se Machado de Assis já havia morrido.

Eu: Não, empenhado pupilo, mas o médico do ministério disse que dessa ele não escapa…

Em “A Divina Comédia”, Dante Alighieri colocou no círculo do inferno, entre outros, os gulosos e os avaros. Se vivo fosse, incluiria hoje os marqueteiros.

É a hegemonia da mentira, do arranjo, da simulação, da imagem facilitária que pensa emocionar (não emociona coisa nenhuma, é uma porcaria!), mas não gera reflexão.

Um mercador vira um estadista, um assassino vira um homem de bem.

Um conselheiro econômico do Lula, ex-deputado ex-ministro da Fazenda, nunca se lembra – e os jornalistas chapa-branca nunca ousam mencionar – que assinou o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, que levou à morte vários companheiros de geração.

Para que Costa e Silva logo assinasse o ato, Jarbas Passarinho, fez a célebre proclamação: “Às favas com os escrúpulos, senhor presidente!”

Seria bom que muitos que escrevem em jornais se lembrassem que ser bom jornalista não é só saber fazer um “lead”.

Algumas colunas impressas são tão medíocres, tão anódinas, tão oficialescas, tão falsamente “neutras” (tão sem-estilo ou personalidade –. como as notas cheias de platitudes geradas em algumas assessorias de imprensa –), que, seguramente, ler uma lista telefônica, dá mais emoção. Tudo parece igual e idiotizante. Reflexo dos nossos tempos?

Deputado tal foi visto almoçando com secretário tal.

Merecem-se: o jornalista, o deputado e o secretário.

Deveriam ser incluídos no círculo do inferno, de Dante. Não tem remissão, é castigo para a eternidade, que demora bastante….

Isso vale não só para jornalistas políticos. Alguns “colunistas” (pobre Rubem Braga!) têm um estilo burocratizado, com um lirismo tão frouxo, gosmento e meloso, falsamente humanista, psicologizante (tipo Paulo Coelho), que pretendem ser irônicos, mas carecem de nobreza. O humor é “estatutário”, quase sempre a favor.

Lógico. Ficam “bem” com todo mundo: não tocam em temas polêmicos, não se envolvem, não se solidarizam com ninguém perseguido, mantém seus latifúndios intocados, não chateiam os patrões. E sempre sobem na vida.

Não, estou falando só da Ilha,

Porisso, com raras exceções, os jornais parecem tão iguais.

Percebi isso mais profundamente, há pouco mais de um mês, lendo um exemplar de “El Pais”, edição da Galícia, numa cidade espanhola na fronteira com Portugal. Textos densos e bem escritos. O mesmo, creio, vale para o “Le Monde”.

Um amigo português acredita que, juntando o “The Guardian”, de Londres, estes jornais são os melhores do planeta.

Muitos deputados, presidentes de estatais, governadores, secretários de Estado, assessores, membros de conselhos, aspones e assessores em geral, editores dos cadernos dois da vida – gente, em geral, tão inculta – se atribuem muita importância. Não tem nenhuma. Muitos são medíocres, grosseiros e soberbos.

A mistura da ignorância com a arrogância é a pior de todas.

Aliás, querer demonstrar importância é das mais conhecidas vaidades humanas.

Logo essas pessoas serão esquecidas, como foram àquelas que a precederam.

Alguém se lembra de um banqueiro da época de Fernando Pessoa?

Não esqueçamos: a jornada da vida é compensadora, mas dura, e voltaremos ao pó.

Quem te viu, quem te vê. Sarney criticando o golpe de Estado em Honduras, junto com Mercadante (um homem de palavra!).

Tem razão o oligarca do Maranhão.

Ele “não” foi um serviçal da ditadura.

Ele “não” votou contra a emenda das Diretas Já.

Ele é um autêntico democrata, como Collor (o fraternal amigo do Lula e do PT).

A memória coletiva é curtíssima. Mas alguém ainda se lembra do que o presidente renunciante (vamos ser justos, perto da roubalheira atual, em termos de corrupção, ele parece quase um trombadinha…) disse do Lula? De que ele havia pago sua mulher (na época, antes da plastificada atual) para que tirasse seu filho da barriga. Para ser mais claro: teria sugerido que a moça fizesse um aborto. Não é questão de sectarismo. Mas quando vi a confraternização dois, detectei: é pura falta de caráter de ambos. Quero resumir: ambos se merecem. Em termos de vergonha na cara, são parecidos. Os petistas ficam amuados, mas a verdade liberta, companheiros!!!.

A diferença é de origem financeira. Mas pobreza não dá álibi ético para ninguém. Gostaria de dizer: “Pai, NÃO, Perdoai-lhes, pois eles sabem o fazem.”

E um “eterno” burocrata partidário, como foi o Lula, poderia ter estudado um pouquinho (nem que fosse o pré-primário, já que temos o pré-sal…).

Gostaria muito de ter escutado as conversas havidas no DOPS, entre Lula, o metalúrgico, e o ex-diretor daquela instituição humanitária, o senhor Romeu Tuma, atual senador da base aliada, do PTB. Devem ter sido muito amistosas (não esqueçam, já havia gravadores na época…). Não tocaram num só dedinho do presidente!

Na época, já não havia tortura (para presos políticos; lógico, o povão continuou apanhando, como sempre).

E como vai a senadora Ideli: Tem lido? Ela ama a leitura? Não falo de relatórios partidários, das “bases”).

Uma leitura que sugiro à impoluta representante do meu Estado natal (é karma, purgação, necessidade de purificação por pecados passados, eu sei…) é de “O Príncipe”, de Maquiavel – realmente, obra fundamental.

Ele ensina: o mal deve ser feito de uma vez só. O bem aos poucos…

(Estou amargo? Não acho. O realismo faz bem. Mecanismo contra ilusões que só geram sofrimento e decepção.)

O meu consolo é que, como diria Mário de Andrade, essas pessoas vão morrer sem a solidariedade de si mesmas. Pobre gente! Merecem piedade (não compaixão, que é um sentimento mais nobre, e que só se concede a seres de melhor estirpe ).

(Emanuel Medeiros Vieira)

ATUALIZAÇÃO DA SEGUNDA, 29/9

Creio que a maturidade faz com que lidemos melhor com as divergências.
Agradeço todos os comentários sobre o meu texto.
Mas, realmente, não me lembro dos “trocadalhos” (na expressão de um missivista) que teria feito. Eu poderia ser lembrado?
Sim, eles podem ter ocorrido.
A gente deixa a onipotência para os napoleões de plantão…

Mara: Sim, deveria ter citado o “Liberátion”.
Conheço o jornal. Foi esquecimento.
Mas a leitora não concordará comigo que chamar o “Le Monde” de “direita” não é exagero?
Nem todo mundo que não é marxista é de direita…
O perigo é cairmos num maniqueísmo facilitário.
Sempre houve uma esquerda forte e digna, não marxista (agnóstica ou cristã).
Basta ver a AP, no Brasil.
(Sim, depois da – para mim, infausta – união com o PCdoB – ela se tornou marxista (ou stalinista?).
Se nivelarmos tudo, a impressão é que “Le Monde” é uma “Veja” da França.

A interlocução é fundamental: para perseverar, vamos manter, gramscianamente, o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade?

(Emanuel Medeiros Vieira)
Brasília, 29 de setembrode 2009

Discussão

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  1. Parabéns. Nossa imprensa também tem sua parcela, ela também não tem memória. A notícia é a de hoje sem contextualização, sem correlação com os fatos do passado.
    Não há gráficos, não há acompanhamento…nem contraponto entre a Ideli de antes e a de agora…

    Posted by Catarina | setembro 27, 2009, 14:56
  2. Peraí Emanuel, o Le Monde é de direita, o El Páis é otimo e tem uma posição politica interessante!Na França esperimenta ler LIBERATION!!www.liberation.fr

    Posted by maria mara | setembro 27, 2009, 18:49
  3. é, tem razão: não é necessária uma profunda “análise do discurso” para perceber que há algo errado nas propagandas das grandes montadoras … nas quais seus carros são mostrados transitando solitários pela avenida com a maior densidade veicular da américa latina e a potência dos motores é proporcional à beleza das mulheres.

    :)

    Posted by Pedro Lemos | setembro 27, 2009, 19:37
  4. Conteúdo ótimo, mas o texto às vezes perde o foco e o ritmo com divagações.

    Tudo é relevante aqui, porém umas partes parecem não encaixar nas outras.

    E há uns trocadalhos ruins pra carilho ali, não tem? Infames mesmo!… hehe

    Ah! Ler é tuuuuuudo de bom!!! Bjo no coração. Paz e fé, hehe.

    Posted by Ernesto São Thiago | setembro 27, 2009, 21:51
  5. E da cruz que convenceu o mundo, da meia lua que leva mais mulculmanos a meca e a estrela de Davi que são símbolos e ícnones que convenceram a humanidade em acreditar em ter fé. Gastar dinheiro faz bem, circula, gera riquezam emprega gente, pior é quando este dinheiro cai na mão deo governo ou do PT que quer patrocinar uma revolução para empobrecer o mundo como empobreceu Cuba e esta empobrecendo a Venezuela. Dinheiro foi feiro apra gastar e não apra ficar com o governo.
    Paulo Brito

    Posted by Vera Brito | setembro 29, 2009, 01:06

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