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Generalidades

Lembranças de uma grande paixão

 As comemorações do Dia do Rádio neste 25 de setembro me jogam de volta ao passado, às lembranças do convívio com meu falecido pai, um descendente de italianos calabreses, ranzinza mas muito afetuoso. O velho Medaglia foi quem me ensinou a ouvir rádio. Em casa tinha por todo o canto, mesmo antes do surgimento dos radinhos de pilha, aqueles tijolinhos japoneses da marca Spica – acho que é assim que se escreve – e que orgulhosamente exibíamos para os amigos quando íamos em bando ao o futebol ou ficávamos pelas esquinas do bairro Menino Deus jogando conversa fora.

 Não tinha televisão, ouvíamos enlevados as transmissões dos jogos. Está bem viva na minha memória a Copa de 1958, que acompanhei num aparelho todo de plástico, colocado sobre um armário da cozinha. Lá fora ouvia a Rádio Guaíba e o Mendes Ribeiro enquanto jogava bola no quintal de casa, esperando as broncas por causa dos vidros quebrados. A não ser que conseguíssemos, com a cumplicidade da minha mãe, a doce Maria Alice, trazer um vidraceiro em casa antes que o pai chegasse do trabalho.

Na casa ao lado morava a avó Carolina. Ali acompanhava embevecido meu tio Luiz Celso varar a noite pintando seus quadros de temática regional. Aproveitava sua inspiração no silêncio das madrugadas enquanto tomava bules de café preto acompanhados de cigarros Continental, sem filtro. Sempre ao som das rádios argentinas El Mundo e Belgrano.

 Nesta escola doméstica testemunhei o nascimento da Rádio Guaíba com seus ícones da transmissão esportiva. Pedro Carneiro Pereira, narrador espetacular, morto precocemente, quando corria no autódromo de Tarumã. O automobilismo era sua grande paixão depois do futebol. Outro que me impressionava, era o Jorge Alberto Beck Mendes Ribeiro, o da Copa de 58 e do “Deus não joga, mas fiscaliza”. Na Gaúcha, em época mais recente, passei a admirar o Armindo Antônio Ranzolin, em transmissões sem as “sujeiras” da interatividade, essa baboseira que inventaram para colocar o ouvinte nas jonadas. Babava com repórteres como Lauro Quadros – virou comentarista – e os irmãos Martins, Lazier e Lupi, este já falecido.

 Com a cultura familiar do rádio cheguei a Florianópolis em 1972 para conhecer e admirar o Adolfo Ziguelli no seu programa “Vanguarda”. Depois convivi com a turma da Guarujá, o Murilo José, o grande “Camisa Amarela”, com a velha e boa Rádio Jornal A Verdade, do Miguel Livramento e do Carlos Alberto Campos, cujo programa esportivo invadia a madrugada sem hora para terminar. Virei comentarista na Rádio Cultura, por obra e graça do Roberto Alves.

 A primeira transmissão a gente nunca esquece. Foi no Adolfo Konder, tarde de muita chuva e logo no clássico Avaí x Figueirense. Cabine sem porta, cheia de goteiras, papéis molhados, anotações ilegíveis e todo aquele tempo para falar, um vazio enorme que me fez gaguejar e tremer as pernas. Para completar o pânico, a companhia de um narrador estreante. Esqueci o nome do gajo. Depois passei pela CBN, ex-Diário da Manhã. Foram períodos curtos, pois apesar da minha paixão pelo rádio trabalhei mais em jornal.

 E foi um amigo feito nas transmissões esportivas que me salvou o vida em Chapecó, depois de uma partida que o Avaí ganhou da Chapecoense por 4 a 1, tempos de Zenon, Balduíno, entre outros.. Voltávamos de Xaxim, onde a Chapecoense mandava seus jogos – meados da década de 70, acho – e ajudara o Nei Boto Guimarães na transmissão da Guarujá. Em frente ao bar Santa Terezinha, o “Ponto Chic” da cidade, um ex-diretor do time da casa me apontou um revólver. O Nei me deu um encontrão e me jogou para trás de uma coluna onde fiquei escondido enquanto “desarmavam” o meu desafeto. A bronca era por causa de uma matéria cheia de elogios à Chapecoense que escrevera para a revista Placar, mas que o editor titulara “A linguíça paga”. Era uma referência ao patrocínio do clube.

 Hoje ouço rádio tão enlouquecidamente como no passado, quando fui apresentado a esse veiculo e me apaixonei por ele. Tenho vários representantes da espécie na minha casa em Florianópolis. Ouço música, rádio-jornalismo e noticiário esportivo onde quer que esteja, no banheiro, no quarto, na sala, na cozinha e, claro, no carro. Não sei dirigir desacompanhado, sem o som do rádio. Viajar, então, nem pensar. Essa mania embala o meu sono, costumo dormir com o rádio ligado e acordar no meio da noite para desligá-lo. É a minha segunda paixão, a primeira não conto.

Discussão

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  1. É, Mario, pasteurizaram o rádio e não foi pelo melhor padrão.
    Como iniciei em rádio com apenas 10 anos de idade (programa infantil) e por muitos anos trabalhei em emissoras de Passo Fundo e Erechim, gostei deste tópico.
    Bons tempos da Rádio Guaíba. Além dos nomes citados, teve os comentaristas Rui Carlos Ostermann e Antônio Carlos Porto, os repórteres João Carlos Belmonte e Edegar Schimidt (hoje comentarista). E no plantão… Antônio Augusto.
    Porém, para mim o maior nome da Guaíba ainda está lá: Milton Ferretti Jung, a inconfundível voz do Correspondente Renner. Milton, com seu “gol, gol, gol” é o mais preciso e inteligente narrador que já ouvi. Foi ele quem apelidou Iúra de “Passarinho”, Loivo “Coração de Leão” e tantos outros. Português corretíssimo, dicção impecável e um padrão invejável.

    Posted by Luiz Carlos Schneider | setembro 25, 2009, 15:53
  2. http://www.alesc.sc.gov.br/portal/imprensa/leitor_noticia.php?codigo=21790

    Serviço:
    O que: Ato solene em comemoração ao Dia do Maçom; Palestra “Liberdade de expressão e a defesa da ética na vida pública”, com Maurício Azêdo, e lançamento do livro “A história da Associação Catarinense de Imprensa”, do jornalista Cyro Barreto.
    Quando: quarta-feira (30), às 19 horas
    Onde: Auditório Deputada Antonieta de Barros e Espaço Cultural Jerônimo Coelho

    Posted by Aline | setembro 25, 2009, 17:06
  3. Pois é Luiz Carlos. em meio a tantos nomes acabaria esquecendo de alguns. Um deles estou ouvindo neste momento, através da SporTV, o Milton Ferretti Jung, 54anos de rádio, ainda na ativa na Guaiba, e pai do Milton Jung da CBN.

    Posted by Mario Medaglia | setembro 25, 2009, 18:14

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