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Generalidades

Os consumidores de limão

O palmeirense Muricy (foto Fábio Minelli)

O palmeirense Muricy (foto Fábio Minelli)

Noite dessas, assistindo a um dos tantos programas esportivos que abundam – alguns abundam mesmo – na nossa tevê, testemunhei breve comentário sobre alguns maiorais do mau humor entre os treinadores brasileiros da atualidade. Puxando a fila, citado como campeão dos campeões, apareceu Muricy Ramalho. Competente, mas rei do mau humor, coroa dividida com Dunga. Ninguém lembrou do passado, até porque a geração que ainda cheira a fralda  não tem como falar de alguns ícones das décadas 60/70. 

 Dorival Knippel, o Yustrich, brasileiro de Corumbá que muitos pensavam ser europeu, formava bela dupla com o português Oto Glória. Ambos passaram pelos maiores clubes brasileiros, seguidos de perto por João Saldanha, bom de pena e de bico, péssimo no relacionamento fora das quatro linhas. Yustrich era o pior deles, brigava com a própria sombra, tratava mal jornalistas, jogadores, e quem estivesse pela frente.

 Tenho uma história com o Oto por causa do texto que escrevi para a Zero Hora depois de um jogo pelo campeonato gaúcho entre Grêmio e Floriano, hoje Novo Hamburgo. Transformei em matéria o diálogo fora do microfone que ouvi entre ele e um repórter da Rádio Guaíba. O homem ficou uma fera e, naquela segunda-feira modorrenta pós rodada, passou a negar entrevistas para quem quer que fosse, até a diplomacia de alguns colegas entrar em campo e acalmar o portuga. Eu tive que mudar de setor, trocando o Grêmio pelo Inter. Mas antes, como punição,  fiz breve estágio no “terceiro mundo”, que é como chamavam a cobertura de São José e Cruzeiro, os clubes menores de Porto Alegre.

 Saldanha ameaçou dar tiro em Yustrich, quando este treinava o Flamengo, e gostava muito de uma resposta desaforada ao estilo Muricy. Reza a lenda que enfrentou até o presidente Médici e os rigores da ditadura, por causa de uma possível sugestão para levar Dada Maravilha para a seleção brasileira.

 Em Florianópolis peguei o Antônio Clemente no Figueirense. Era peparador físico e uma espécie de guarda costas do técnico Antoninho, pequeno, simpatico e inofensivo.  Grandalhão e malhado, Clemente parecia o leão de chácara do vestiário. Por acaso seu apelido era “Antônio Cavalo”.  Para o bem ou para o mal sempre tínhamos assunto para matéria e manchetes que davam o que falar. Como provocação ao “Cavalo”, e ao mesmo tempo um elogio ao seu trabalho, brincávamos que os repórteres não deviam chupar as laranjas distribuidas aos jogadores. Sem publicar, claro. As frutas milagrosas continham, digamos,  uma dose excessiva de “energético”.

 Com essa paparicação que hoje campeia em parte da mídia esportiva, é moleza acompanhar o dia a dia dos clubes. A não ser pela confusão que determinados assessores de imprensa fazem de sua função, não tem erro. Pena que a tal profissionalização acompanhada da rigidez das entrevistas coletivas, tenha tirado todo o molho das coberturas e eliminado a criatividade dos repórteres. Sinto muita saudade dos limões pra lá de azedos que éramos obrigados a consumir nos meus tempos de repórter.   Agora a fruta é outra, enjoativa de tão doce.

Discussão

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  1. Maravilha de texto, memórias de um repórter. Dando parâmetros para a gurizada que “cheira fralda” e resgatando o sabor do bom e clássico jornalismo, hoje mais do que raro, quase inexistente.

    Posted by Nei Duclós | setembro 19, 2009, 21:46
  2. Mário, apenas uma correção: o Otto Glória era brasileiro e treinou a seleção de Portugal terceira colocada na Copa de 1966. Apesar de treinar muitos clubes em Portugal – Benfica, Sporting, Belenenses e Porto – ele era brazuca do Rio de Janeiro.
    Forte abraço

    Posted by PJ | setembro 21, 2009, 12:31
  3. Obrigado pela correção caro PJ. Quem mandou não consultar os realmente portugueses? Ora pois, é que na época do entrevero com ele escutei a bronca com o sotaque carregado que bem conheces.

    Posted by Mário Medaglia | setembro 21, 2009, 13:05
  4. Amigo Mário,
    Compara a qualidade dos repórteres de ontem com os de hoje. Naquele tempo os interesses eram mais profissionais que pessoais e a qualificação pessoal da mídia muito superior.

    Posted by J.B.Telles | setembro 21, 2009, 18:14

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