O filósofo vienense Ludwig Wittgenstein (1889-1951 ) afirmava: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.”
Onde quero chegar?
É de percepção solar a degradação das instâncias de poder no Brasil. E também a mediocrização e a degradação da atividade política.
Quem está , como eu, há muito tempo em casas políticas (37 anos!), percebe que, além da desagregação dos valores, ocorre também a degradação da linguagem.
Quero dizer: o nível dos parlamentares e o padrão dos discursos (sem qualquer ranço de nostalgia), piorou muito.
Octávio Paz dizia que a degradação de uma nação começava pela degradação de sua linguagem.
Independente de se concordar com suas posições ou não, percebia-se o nível de pronunciamentos de, um Aliomar Balleiro, de um Adauto Lúcio Cardoso e, posteriormente, de um Tancredo Neves, de um Ulysses Guimarães e de um Darcy Ribeiro. Não citei muitos.
Muitas das colunas políticas da mídia impressa refletem isso. Várias são de uma mediocridade e de uma futilidade enormes.
Deputado tal que jantou com outro líder, um parlamentar que foi visto conversando com o seu líder. A linguagem neutra é uma falácia. Ela serve a diversos interesses, e nunca é neutra.
Quero dizer: a mediocrização contaminou as próprias colunas, que deixam de contemplar análises consistentes (é claro, não estou pedindo teses acadêmicas), para se tornaram espaços para intrigas, fofocas, ou irradiarem nas entrelinhas outros interesses. Lembrem-se de algumas colunas.
Teria sido claro?
Informa-se que professores da Espanha e de outros países estão desistindo da profissão. Sentem-se mais ofendidos pelo desinteresse dos alunos do que pela sua ignorância.
O conhecimento é um caminho longo e complexo. Não tem milagre.
Ele perde em nossa sociedade da fragmentação, da pressa, do utilitarismo, do “quero já e agora”, para a busca do prazer absoluto e instantâneo.
Haveria uma razão cultural pela queda do prazer gerado pela leitura. Lógico, o reino soberano é o da imagem, muitas mídias são oferecidas, tudo ficou mais rápido, complexo e esfacelado. E predomina a cultura do narcisismo, além de uma enorme preguiça mental.
E o que me parece mais grave: há uma crescente indiferença pelo sofrimento humano. Dos outros.
Nossos contemporâneos estariam imersos em bobagens sem valores, em futilidades, na obsessão pela beleza, pela magreza, pela juventude eterna, dominados pela infantilização mental? A vida estaria virando um deserto de valores E como se exerce a cidadania? Um espaço seriam os partidos políticos. Mas no Brasil eles viraram clubes fisiológicos.
Está havendo uma peemedebização total do sistema político (no PT, DEM, PSDB e satélites).
(Emanuel Medeiros Vieira)
EM RESPOSTA AOS COMENTÁRIOS
A gente não consegue escapar dos lugares-comuns.
(Pausa: quando eu era jovem, meu sonho era redigir um dicionário do lugar-comum, com todos as platitudes ditas em discursos e efemêrides, e que passam como pensamentos profundos.
Tipo: “ele não morreu, vive em nossos corações”.
Me contaram que havia um chefe de redação, na década de 50, no Rio, que dizia para os jornalistas: “Não me importo com bebedeiras e farras. Mas se chamarem o sol de “astro-rei” e bombeiros de “bravos soldados do fogo”, eu boto vocês na rua…”
Essa interlocução é fundamental.
Que não pareça pedante (será?), mas era o que a gente chamava, na época da AP, de “inter-subjetividade das consciências”.
Todo homem é solidão e comunidade (essa vai para o dicionário….).
Não somos ilhas.
Sou daqueles velhos humanistas que ainda acham que a democracia é um valor universal, e que precisamos saber lidar com a divergência.
E que – como queria o poeta – é preciso tornar mais puras as palavras da tribo.
Nei Duclós: um abração de quebrar os ossos!
Teu “Outubro” significou para a poesia (para toda uma geração), o que muitos livros do Caio Fernando Abreu representaram para a prosa (para tanta gente).*
*Para quem não sabe, Nei é autor deste belíssimo livro de poemas chamado “Outubro”, e Caio Fernando Abreu (além de queridíssimo amigo pessoal), foi um dos escritores mais representativos de sua geração. Eu e o Caio estivemos muitas vezes juntos. Na velha Chácara da Espanha, hospedei-o no meu apartamento alugado (ele vindo de Garopaba, quando aquele lugar ainda era respirável), e chegamos a conversar 24 horas sem parar. Tomando vinho.
Só para lembrar: em outro momento, depois de um debate no Álvaro Carvalho, eu e o Paulo Leminski fomos encher a cara num boteco perto do mercado (hoje sou um abstêmio – creio que estão enviando uma carta para o Santo Padre propondo a minha beatificação).
Vade Retro, Satanás!
Obrigado, amigos!
Meu coração sexagenário continua aberto!
Escrevam sempre.
Só a criação nos legitima, vence a morte.
É a vitória do único animal que sabe que vai morrer.
Somos finitos. E como! Mas nossa obra não.
Abração do Emanuel Medeiros Vieira
Brasília, 13 de setembro de 2009 -, domingo, anoitecendo no Planalto Central, uma outra capital, não a dos podres poderes – do céu azul, das florzinhas retorcidas do cerrado, de tantos verdes. Um dia, César, quero escrever sobre isso.
Moraste aqui, sabes dessas coisas.
Tio Cesar, quero parabenizá-lo pela grandiosa sacada de granjear mais colaboradores ao deolhonacapital. Já era bom, ficou muito melhor. Leitura obrigatória para pessoas que veem o mundo de forma plural e não alienante. A crônica do Sr. Emanuel está perfeita. Sucinta e contundente.
Valeu!!!!!!
Joanildo.
De um pobre e diletante apreciador que nada dentro dessa geração confortavelmente ‘mediocrisada’. Clap Clap Clap Tio Tadeu
Emanuel, chegou arrasando, tocando na ferida. A decadência da linguagem é agente e fruto da desnacionalização do país. Sem linguagem, não há pátria, nação, cidadania. Vemos no nosso nicho, a literatura, a linguagem cada vez mais superficial, ligeira e muitas vezes enigmática, com doses cavalares de pedantismo. Faz parte desse engessamento político, que desvirtua e esvazia o texto para que fique impune o esvaziamento da bolsa do dinheiro público. Como enfrentar a bandidagem com uma linguagem em ruinas? A linguagem é a única arma que dispomos.
Ao mesmo tempo, como a reportar essa tragédia, note como alguns romances de hoje abordam esse mundo tosco, vazio, do eterno presente contaminando o Brasil profundo. A saga das pessoas partidas revisitando o que deixaram para trás, o país abandonado, é o lamento dessa literatura que ringe mais do que carro de boi.
Não é falta de leitura, em impressos ou na internet, e sim a falta da boa leitura.
O problema da internet é a distração causada pelos MSNs e redes sociais, em que perde-se tempo precioso com futilitades e inutilidades enquanto que o conhecimento está “logo ali” disponível – e gratuito, como neste blog (por enquanto…).
Bravo, Emanuel (O messias)!