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Arte gráfica

Dez anos de Indesign… já?

O primeiro computador que tive era um TK-85 (um clone do Sinclair ZX81 feito pela brasileira Microdigital Eletronica, sob o manto da “reserva de mercado”). E a gente precisava programar, dizer pra ele o que queria que ele fizesse. Falávamos (meus filhos e eu) com ele em basic. E um dos primeiros “aplicativos” que escrevi foi um programinha que me ajudava a fazer as continhas necessárias à diagramação.

A produção gráfica, naquela longínqua década de 80, era completamente diferente de hoje. Os textos eram datilografados em folhas de papel com margens padronizadas, chamadas de “laudas”. Para calcular o espaço que aquele texto ocuparia na página depois de composta, era preciso saber o total de caracteres (com espaços). E depois, dependendo do tipo, do corpo e da entrelinha que seriam utilizados na composição, aplicar algumas fórmulas e realizar algumas operações aritméticas para descobrir quantos centímetros de coluna teria o texto. Era essa continha que eu tentava automatizar (mais ou menos) no TK-85.

Desde 1972 o jornal O Estado tinha composição a frio e impressão em rotativa off-set. Antes, era composição a quente, em linotipo, para o texto, com os títulos compostos manualmente e impressão tipográfica, em rotoplana.

O desenho das páginas era na base do lápis 6B, régua de picas (pica, lê-se paica, é medida gráfica, que corresponde a um sexto de polegada, cerca de 4,2 milímetros), sobre um papel onde estava impresso, em geral em azul claro, o diagrama da página (donde a diagramação), com as colunas e o tamanho da mancha de impressão.

Toda essa operação mecânica e matemática teve, em 1990, um upgrade poderoso: apareceu o Ventura Publisher. O primeiro programa de computador que permitia colocar um texto na página, designar os atributos gráficos e ver, na tela rudimentar de então, como ficaria depois de impresso. A vida dos diagramadores nunca mais foi a mesma.

Alguns levaram mais tempo para largar as réguas e os lápis, outros mergulharam nesse maravilhoso mundo mais cedo, mas não tinha mais volta: a gráfica agora cabia na mesa (era o tal de “desktop publishing”).

Esse intróito histórico está aí só pra lembrar que, em poucas décadas, vivemos uma transformação radical da forma de produzir arte gráfica. E o Adobe Indesign, o programa mais recente e mais completo, que colocou todos os demais no chinelo, já está completando dez anos. Não tem sentido, hoje, produzir jornais, revistas, folhetos ou qualquer coisa gráfica (ou mesmo para a web), profissionalmente, usando outro programa.

O Indesign, que levou alguns anos até adquirir estabilidade e tornar-se confiável, ao mesmo tempo que mostra como era limitado o Page Maker (seu antecessor na Adobe), revela como era consistente o Ventura. Claro, um programa criado em ambiente DOS não poderia ter uma vida muito longa, mas seus antigos usuários reconhecem, no Indesign, algumas ferramentas e soluções que já estavam lá. E talvez essa seja a principal vantagem do Indesign: veio depois e pode aproveitar toda a experiência acumulada (e os erros), do Quark X-Press, do Ventura e até mesmo, por que não, do Page Maker.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. nossa! e de ventura então, quase 20 anos! ai ai o tempo “avoa”… abs

    Posted by marli | setembro 2, 2009, 09:23
  2. As smart guides do indesign são espetaculares mas o Ventura tinha coisas que não sei como ainda não implementaram no indd (pelo menos, acho que não implementaram): no ventura se podia colocar em uma única frame duas colunas de texto mas um texto sobre as duas. Essa frame podia ter contorno, ou um fio em cima, ou um embaixo ou um embaixo outro em cima, ou um fio separando as colunas. Coisas automáticas e muito boas.
    Saí do Ventura por não conseguir imprimir direito as páginas tablóide numa impressora laser a4. Elas saiam em vários pedaços. Já no Pmaker, elas vinham em duas partes, uma em cada folha a4 (ou legal).
    O quark não fica muito atrás do indesign, né? O negócio é que esse último tem a Adobe segurando, com o photoshop e a maior maravilha do mundo, que é o Acrobat.
    Cesar, acho que farias um belo post sobre as “tadadas” que, por mais que se tente evitar, sempre acabam acontecendo nessa área.
    Uma vez fiz um encarte tablóide pruma empresa grande aqui do Estado e, justamente no texto que o presidente escreveu com o próprio punho do assessor, saiu o seguinte título: Estamos lutando para DRIBAR a crise. Um colega me tranquilizou. Disse ele que aquele presidente falava assim mesmo…

    Posted by eduardo | setembro 2, 2009, 22:28

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