Hoje de manhã fiz a tal prova necessária para renovação da carteira de habilitação (carteira de motorista, para os íntimos). Como estudei direitinho no final de semana, tirei nota boa. Mais de nove e meio. Passam todos os que tiram acima de sete.
É engraçado que tem um pessoal da minha idade com medo dessa prova. Preferem entrar na das auto-escolas e morrer com R$ 100 a R$ 150, pra não ter que passar 15 minutos diante de 30 questões. Ou uma hora, que é o prazo máximo. Não faz sentido, é um dinheiro jogado fora. Desde, é claro, que não tenha medo do estudo. E nem estamos falando de decoreba pura e simples (tem umas coisas que precisa decorar, como pontos das infrações, telefones da polícia rodoviária, do samu e da polícia, etc). A maioria das questões exige algum raciocínio e bom senso. E se tiver lido com atenção as apostilas, fica tudo muito fácil.
Sou de uma geração (e de uma turma) que na juventude era fissurada por automóvel. Vejam, por exemplo, que a data da minha primeira habilitação é 27 de maio de 1971, quatro dias depois do meu aniversário de 18 anos (devo ter perdido algum prazo ou peguei algum fim de semana, porque quatro dias é muito tempo). Claro que eu e meus amigos já dirigiamos os carros de nossos pais mesmo antes de ter carteira.Conversávamos sobre carros como hoje a gurizada conversa sobre computadores.
Aprendi a dirigir de fato na antiga estrada Florianópolis-Lages, quando a gente ia para o sítio. Meu pai ia ao lado, minha mãe no banco de trás. A estrada era de terra, com um macadame de pedras, cheia de curvas e estreita. De vez em quanto encontrava um caminhão (um fenemê) carregado de madeira, que descia da serra em direção ao porto exportador que Florianópolis ainda era. Não passavam os dois veículos. Um tinha que parar e dar lugar. Acho que foi uma ótima auto-escola, principalmente quanto ao quesito atenção. Qualquer distração poderia ser, literalmente, fatal.
E hoje vejo, na apostila de direção defensiva, muitas das coisas que aprendi naquela estrada estreita, poeirenta (ou enlameada) e com uma surpresa a cada curva. Na apostila de primeiros socorros, noções sobre como se comportar quando a gente é o primeiro a chegar ao local de um acidente ou mesmo quando está envolvido em acidente. Nada complicado. Nada que justifique pagar R$ 100 para uma auto-escola, pra fazer um curso e fugir da prova.
Claro, se o estudo não é seu forte e se tem problema de compreender e assimilar o que está nas apostilas (de direção defensiva aqui e a de primeiros socorros aqui), então a saída é mesmo fazer os três dias de curso. E aí aproveite o curso. Não mate as aulas. Já morre gente que chega nas estradas, pra gente ainda cabular um cursinho que pretende uniformizar as informações que todos os motoristas deveriam ter ao sair à rua.
Fiz tbém Tio, no ano passado. Achei demasiadas as questões de primeiros socorros ou ligadas à saúde. Não cheguei nos 9,5, but fui bem na casa dos 8,5.
O problema de estudar direção defensiva é que acabamos viciando em cuidar demais das barbaridades que os outros fazem nas rodovias. Eu, dirigindo a 80Km/h, acabo desistindo de pegar a BR-101, do medo que dá do pessoal que costura, força ultrapassagem, joga o carro/caminhão em cima de quem está direitinho no traçado, entre outros disparates.
Em fevereiro de 2005, quando da renovação de minha carteira, também optei pela prova, sem curso, porque me achei com autoridade trafegatória suficiente e meu saber jurídico, embora meio jogado num canto de minha lixeira cerebral, ainda permitia responder às questões. Cautelosamente, dei uma espiadela no Código Brasileiro de Trânsito e descobri, no Glossário, que “’balanço traseiro’ significa a distância entre o plano vertical passando pelos centros das rodas traseiras extremas e o ponto mais recuado do veículo, considerando-se todos os elementos rigidamente fixados ao mesmo”. Entendeu? Eu não! Eu pensava que “balanço traseiro” fosse o gingado das dançarinas do tcham e das mulatas no Carnaval. Com base nisso, tive o sério pressentimento de que seria reprovado. Mas não, das trinta questões formuladas errei duas.
Cesar. Sem querer desmerecer seus conhecimentos, adiquiridos desde tenra idade, imagino, devo dizer que a geração que aprendeu a dirigir numa auto-escola é quem está apta ao convivio adequado no transito tão carregado e ávido por menos individualismo de hoje. Talvez o teste do DETRAN não pergunte/não exija, que os motoristas saibam coisas simples que são tão óbvias hoje mas não o eram a décadas atrás – é na auto-escola que se mostram os atuais problemas que motoristas e pedestres enfrentam por termos mais pistas, sinais, carros e pessoas. Coisas como andar na pista da direita deixando a esquerda livre (ao invés de ocupar todas as pistas pra andar na mesma velocidade) por exemplo. É fato que as gerações que aprenderam a dirigir com 12 anos no carro do pai precisam/devem voltar a sala de aula para reaprender a conviver no transito, para que com seus vícios e saudoso conhecimento da “caranga” não acabem por empurrar para as gerações mais novas a ingloria tarefa de dizer “tio, não é mais como no seu tempo!”.
Rockarei: já encontrei gente jovem “formada” em auto-escola que faz cada coisa… e já vi cada coisa ser feita em “auto-escola”… não dá pra colocar todas as auto-escolas no altar. Nem classificar a qualidade da condução pela idade. Isso é preconceito e falta de observação do que ocorre nas estradas.
Talves os nossos níveis de observação é que sejam diferentes nesse quesito. Eu tenho 40 anos e me encontro numa faixa etária onde não era necessário fazer auto-escola pra tirar cnh. Eu fiz. Ouço cada asneira dos meus pares etários. Esses dias meu pai – que dirige desde 8 anos de idade – me disse que esse negócio de faixa da direita e faixa da esquerda é lenda, que todas as faixas são iguais e anda quem quer onde quer na velocidade que quer. Uma asneira enorme. Se você perguntar pra uma pessoa que frequentou uma auto-escola, no mínimo ele sabe isso. Tem coisas que só quem estuda sabe. Como jornalismo, por exemplo, certo? Abraço do teu fã.