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Pérolas do DOE

Aprimorando a oratória fazendária (atualizado)

A leitura do Diário Oficial do Estado sempre revela fatos interessantes. O registro que comentarei a seguir não saltou aos olhos pelo fato de ser inexegibilidade de licitação, nem pelo valor. Na verdade, é um valor tão pequeno (cerca de R$ 3 mil) que nem precisaria de qualquer edital. E também não parece ter qualquer indício de irregularidade.

Mas chamou a atenção pela peculiaridade do serviço requerido pela Secretaria da Fazenda: agora, já em agosto de 2009, foi contratado um curso de oratória para auditores.

Decerto o governo pretende convencer, na lábia, os inadimplentes a pararem de esperar pelo próximo perdão de suas dívidas. Ou então, pela “arte de falar bem, de convencer pelas palavras” (segundo os dicionários), pretendem mostrar-nos como são eficientes.

Parece estranho que o governo se preocupe em dotar auditores da fazenda de técnicas para falar em público, enquanto tantos e tantos servidores públicos que precisam falar com a imprensa e explicar-se em diversas situações, falem tão mal, cometam tantos erros e expressem-se de forma lamentável. Quase todo dia tem alguém, ou do governo estadual ou municipal na televisão ou no rádio, tentando fazer-nos crer, com vocabulário parco, pronúncia mambembe e argumentação pífia, que estamos em boas mãos. E que os problemas estão sob controle.

Para alguns destes, em todo caso, não bastaria um curso de oratória. Seria preciso mandar repetir tudo, desde o primeiro ano primário. Porque vê-se que mataram muitas aulas e acabaram, apesar do alto cargo, falando como os analfabetos funcionais que talvez sejam.

ATUALIZAÇÃO DA TARDE

A sempre atenta assessora de imprensa da Secretaria da Fazenda encaminhou alguns esclarecimentos sobre o curso de oratória, seu público e sua necessidade:

“Li a nota de hoje sobre o curso de oratória e conversei com um auditor que representa a categoria. Na verdade, o curso é para auditores internos do Poder Executivo, não para auditores fiscais, portanto, não está relacionado com inadimplência.

O curso de oratória foi uma recomendação da CGU – Controlodoria Geral da União, durante um outro curso, já realizado pela própria CGU, de auditoria operacional. As necessidades do curso de oratória se justificam por diversas situações em que os auditores precisam lidar frente a frente com especialistas da área auditada e, portanto, precisam mostrar segurança não só nas informações, mas no comportamento. Principalmente porque se trata de governo auditando governo.

Seria interessante que todos tivessem a mesma capacidade de expressão, mas infelizmente não é assim. Com o curso, além de empostar melhor a fala, os auditores aprendem sobre gestuais da linguagem corporal que ajudam a identificar a veracidade das informações prestadas por seu interlocutor.

Além disso, o corpo de auditores internos do Poder Executivo é relativamente novo no Estado, já que no governo anterior eram nove profissionais e hoje são 72, todos aprovados em concurso. Boa parte deles trabalha no projeto Auditoria Interna Orienta, criado pela Fazenda em 2008 para orientar os órgãos e entidades estaduais, avaliar os controles internos e oferecer aos gestores instrumentos que otimizem o controle dos recursos públicos. Uma parte trabalha exclusivamente sobre a folha de pagamento.

Um dos resultados mais visíveis para o público externo foi que Santa Catarina ficou em primeiro lugar em uma pesquisa nacional, como o Estado mais transparente em gestão fiscal eletrônica. A pesquisa foi feita em conjunto por USP e UFPE, se quiser posso enviar mais informações.

Internamente, o resultado é economia de tempo e dinheiro, já que os auditores trabalham para prevenir o erro e modificar processos, possibilitando fazer mais com menos.

As informações relativas ao trabalho dos auditores podem ser acessadas aqui.”

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Eu gostaria de saber de que tipo de transparência eles estão falando…

    Posted by Aline | agosto 21, 2009, 17:39
  2. Como dizem no “meio”: assiste razão à assessora de imprensa. Auditor que não souber se comunicar bem, conduzir uma reunião com o auditado e eventualmente fazer uma palestra, não está inteiramente apto para o exercício da função.

    Posted by Carlos | agosto 21, 2009, 17:43
  3. Tem razão, Carlos. E o TCE deveria promover um curso desses também, principalmente para os mais de cem auditores que entraram nos últimos 3 anos…

    Posted by Christian | agosto 22, 2009, 09:49

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