O Chico Amante morreu hoje, por volta das 15h. Tinha sido operado ontem, de urgência, por causa de um tumor recém-descoberto no intestino e hoje deve ter se sentido incomodado de ficar na UTI e resolveu sair para tomar umas e outras com seu grande amigo, o Aldírio Simões. A esta hora os dois devem estar rindo da manezada que continua aqui, penando.
O enterro do corpo será amanhã, quinta, às 10h, no cemitério do Itacorubi.
O Chico Amante era o grande manezinho. O mais entusiasmado cultivador das nossas tradições. Sempre que ao Aldírio faltava inspiração ou tempo, era ao Chico que ele recorria, pra fechar a coluna, pra completar algum projeto ou simplesmente para conversar e se reciclar.
No ano passado, o Chico realizou um sonho de infância. Foi aos Açores. Visitou várias ilhas. No retorno, ainda ganhou, de brinde, uns dias em Lisboa, ciceroneado por um dos netos. Voltou feliz da vida, como se tivesse estado no paraíso. Acho que ele esteve mesmo, de fato, no paraíso. Conhecera as origens que ele sempre cantou em prosa e verso, ouviu aquele povo conversar e contar histórias. Sentiu-se em casa.
Quis o destino que acabássemos, além de amigos (foi dele a indicação do meu nome para receber o troféu Manezinho da Ilha, em 2003), meio parentes. Minha filha, a Marta, casou com o Danilo, neto dele. E aí, de vez em quando, nos encontrávamos em reuniões de família, aniversários, velórios, essas coisas. Cheio de projetos, ele tinha sempre um livro pronto para publicação. Coisa difícil, porque não há editoras interessadas nessas coisas que interessam a tanta gente. Alguns foram publicados, como aqueles que relacionam todos os que foram premiados com o troféu que Aldírio Simões distribuía.
Perde a Ilha não apenas mais um manezinho. Perdemos todos a companhia do manezinho-mor. Não foi por acaso que o céu de Florianópolis, que estava se livrando das nuvens e permitindo a passagem dos raios do sol mudou de idéia e, mais ou menos na hora da morte do Chico começou a se fechar em luto cinzento.
Boa viagem, Chico. E toma uma por nós, que a coisa aqui tá preta. Saúde!
A essa altura o Chico já deve estar tomando uma com o Aldírio, com o Ori e com o Betinho. Sem esse quarteto o Abraão nunca mais será o mesmo…
Mesmo não tendo ligação mais próxima com seu Chico, a partida de MANEZINHOS ilustres, destacados pelo que representam no enredo da nossa história, trazem um misto de raiva e tristeza. Emocionado ao longo do dia de ontem no velório da querida “Tia Izaltina” que subiu aos 95/96 anos, a sensação é que o quebra-cabeça de nossas memórias vai ficando sem algumas peças fundamentais. O passado parece uma foto amarelada pelo decurso do tempo, esvanecida, esgazeada… A raiva vem desses nossos dias em que a ignorância é venerada, e a memória… ahh deixa pra lá, pra que memória.