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Caraminholas

Atchim! …hum, onde foi todo mundo?

Estava numa clínica médica, pra fazer uma dessas verificações que depois dos 50 a gente tem que fazer todo ano e, na mesma sala de espera, tinha uma rodinha de representantes farmacêuticos conversando. Adivinha qual era o assunto? Sim, a gripe. Um deles (e em toda roda de conversa sempre tem um desse tipo) dizia que “eles não estão divulgando, mas o número de mortes é maior”. E contava os casos “secretos” que tinha ficado sabendo em suas rondas pelos consultórios (e, naturalmente, nas conversas com outros representantes).

Continuo achando que os jornais, além dos casos dessa nova gripe, deveriam publicar o número de mortes, num mês ou num ano, por malária, pela dengue, por inúmeras doenças perfeitamente evitáveis, mas que continuam matando silenciosamente, sem que as estatísticas apareçam na TV. Mesmo as mortes por complicações respiratórias não associadas à gripe suína poderiam ser notificadas e divulgadas, pra que todos vissem como morre gente a partir do quadro criado pela gripe comum.

Não acho que se deva menosprezar a gripe suína. Mas também acho que os veículos de comunicação não sabem administrar o que publicam: na ânsia de ficar “em cima do lance”, acabam criando todas as condições para o pânico. Hoje ouvi, no rádio, que três grávidas morreram em decorrência de complicações associadas à gripe. Só uma delas com diagnóstico confirmado. Esse número, isolado, não me diz nada. Mas, para pessoas assustadas, em famílias que têm grávidas, assume uma proporção bem maior. E quantas grávidas morreram, de outras causas, este mês, em Santa Catarina? E nos outros invernos? Não tenho essa informação, mas gostaria de ter. Para poder avaliar se esse número divulgado é mesmo, como parece quando dito no rádio, assustador.

E aí, na hora de prestar um serviço realmente útil, depois de falar da morte de mais uma grávida, o que fez o rádio? Colocou um especialista dizendo apenas que devem evitar aglomeramentos, como em “boates e restaurantes”.

Ora, há coisas importantes que deveriam ser ditas a todo momento: por que lavar as mãos pelo menos umas dez vezes por dia? Quanto tempo o vírus sobrevive, na nossa temperatura e umidade atuais, em superfícies como maçanetas? Quais as formas de contágio? Qual a real utilidade das máscaras? E quais os perigos do uso prolongado de máscaras? O que é mito e o que é verdade, na transmissão de qualquer vírus?

Outro assunto controverso são os antivirais, em especial o Tamiflu. Circulam na internet muitas afirmações (tem até um documentário, que o Orlando Tambosi publicou) relacionando o interesse comercial dos laboratórios com a divulgação massiva dessa nova gripe. Em alguns países, como no Reino Unido, toda pessoa com os sintomas iniciais (febre acima de 39, tosse, dores no corpo, etc) é aconselhada a tomar Tamiflu. O serviço de saúde envia Tamiflu aos domicílios de quem diz que está com os sintomas e não tem condições de ir a uma clínica ou farmácia. Aqui, parece que o protocolo é um pouco diferente e só recentemente os médicos foram autorizados pelo Ministério a administrar o antiviral se achassem necessário. Como resultado, já aparecem espertalhões vendendo um “tamiflu” paraguaio ou chinês, para se aproveitar do temor generalizado.

O fato é que, tenham ou não alguma coisa a ver com a pandemia, os laboratórios que produzem os dois únicos antivirais que teriam algum efeito contra este tipo de gripe, estão faturando horrores. E a gente, que se sente indefeso diante de tanto jogo de interesses e de tanta coisa que não conseguimos saber, deveria poder contar, pelo menos, com uma arma simples, barata e eficiente: as informações sobre como evitar o contágio. O melhor tratamento para qualquer tipo de doença, é prevenir-se e não ficar doente.

E depois, se, por acaso, acabar ficando doente, seria bom contar com serviços de saúde bem equipados que soubessem o que fazer, como fazer e, principalmente, quando fazer.

Ah, algumas respostas às perguntas que fiz acima, estão num material reunido pela Caixa Assistencial dos funcionários da Acaresc e publicado aqui.

Discussão

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  1. É o que tenho dito.

    Note que mesmo quando o objetivo das reportagens é, em tese, desmontar o pânico criado pela sequência massiva de estatísticas descontextualizadas, o discurso sempre dá um jeito de, em uma curva qualquer, deixar um inconveniente “porém”, assim com quem não quer nada, só para manter as mentes cativas…

    Posted by Ernesto São Thiago | agosto 10, 2009, 12:54
  2. Eu gostaria de saber quantas das pessoas contaminadas haviam sido vacinadas contra a gripe comum. Não sei se há correlação, mas os idosos são a faixa etária menos atingida pela nova gripe, vi ontem que é um percentual de apenas 0,2 % dos casos confirmados, e certamente são os que mais usam a vacina, já que ela fica disponível pra eles todos os anos.

    Posted by carlos | agosto 10, 2009, 13:14
  3. O que deveria estar em jogo é a ÉTICA DA VIDA. A premissa (profissionais de saúde, jornalistas, cientistas e etc..) deveria ser sempre a possibilidade de salvar TODAS as vidas. Todos os casos suspeitos deveriam ser tratados com o antiviral Tamiflu, é isto não está acontecendo…sendo assim teremos um número cada vez mais elevado de mortes.Basta olhar o numero de mortos dos países que tratam todos com Tamiflu e o nosso… só perdemos para a Argentina e pelo visto logo teremos mais mortos aque a vizinha. Parece que para o Ministério da Saúde e o seu Ministro Temporão não há problema em morrer de gripe suína se também alguns podem morrer da gripe normal. Não falam que esta gripe e muito mais letal que a gripe comum e que está matando pessoas jovens e saudáveis. Nunca tinha visto gravida morrer de gripe, mas agora virou normal. Esta lógica de raciocínio do Ministério da Saúde e repetida enfaticamente na grande imprensa, acho eu que para evitar o pânico e esconder a falta do medicamento Tamiflu, do qual poucos falam ser o único meio de conter o vírus.

    Posted by Lucia Maria | agosto 10, 2009, 15:03
  4. Lucia Maria, em afirmações como “nunca tinha visto grávida morrer de gripe” é que reside o perigo… é fato que não se divulga as outras causas de morte de grávias (inclusive gripe), com o mesmo destaque. E o único meio de conter um vírus, qualquer vírus, é evitar sua transmissão. O tamiflu, além de tudo, tem efeitos colaterais. Não é uma vacina que deva ser aplicada em todo mundo.

    Posted by Cesar Valente | agosto 10, 2009, 15:07
  5. Acredito que o melhor sistema de saúde do mundo seja o do Reino Unido (ou talvez do Canadá). No Reino Unido compra-se Tamiflu com uma senha da Internet, sem passar por médico. Será que o nosso ministério da saúde é mais esclarecido que o deles? Ou que do Ministerio da Saude da Alemanha ou do Japão (onde ainda não ocorreram mortes embora tenham mais casos confirmados que o Brasil!) Me parece que a resposta é muito simples: o MS fez doce na negociação com a Roche e ficou no final da fila (os 700 mil tratamentos restantes da encomenda só chegarão no final da epidemia (final de setembro). Portanto, o antagonismo do Temporão em relação ao uso do Tamiflu não é “técnico-científico”, mas apenas técnico: os estoques do governo não dão para a demanda, é simples assim. Falar em conter a adaptação do vírus é apenas racionalização. Duvido que se os estoques fossem grandes haveria esse racionamento centralizador do Tamiflu.

    Posted by Marta Bacellar | agosto 10, 2009, 15:11
  6. Sem falar que as dificuldades (reais ou fictícias) decorrentes dessa pandemia é um prato cheio para especulações políticas.

    Posted by Pedro Lemos | agosto 10, 2009, 15:27
  7. Cesar, vai um suquinho de maracujá? Deves estar precisando. Estou tomando o meu…

    Posted by Ernesto São Thiago | agosto 10, 2009, 23:53

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