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AGOSTO – QUATRO ANOS DE OLHO

O aterro

Foto: Palhares Press

Foto: Palhares Press

[18 de agosto de 2005]

No meu tempo o mar vinha até aqui. E ali pra cima era tudo mato. A cidade era outra. Depois que aterraram pra fazer a avenida, construíram um paredão de prédios e pelaram os morros, começou a vir gente de fora. Hoje a gente sai na rua e não encontra ninguém. Os sobrenomes são esquisitos. Mesmo quando se parecem, não têm nada a ver com os dos velhos conhecidos. Os amigos só se encontram nos velórios, ainda assim quando alguém lembra de avisar. E ninguém mais passa a noite, ninguém traz lanche ou café, ninguém sabe contar piada, ninguém mais vela seus mortos direito. Os filhos e netos namoram e casam com gente que é filho e neto de desconhecidos. E ficam chateados quando alguém pergunta quem é teu pai, quem é tua mãe. Nasceram das ervas, por acaso? E quando dizem, nem adianta: ninguém conhece. Acho que quando aterraram o mar acabaram enterrando no lodo, no fundo do aterro, a alma da cidade.

(Esta pequena crônica, que escrevi no começo de 2005, ficou entre os 15 finalistas do Concurso de Microcontos do site português Leiturascom.net, onde concorreu com outros 430 microcontos.)

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. César, gostei do conto.
    Aproveito para divulgar meu blog de contos e outras anotações:
    http://www.meusmoinhos.blogspot.com

    Abraço

    Posted by Christian | agosto 7, 2009, 15:34
  2. Parabéns muito boa a crônica.
    Realmente aterraram e onde ficou Desterro?
    Abraços

    Posted by Otavio di Mello | agosto 7, 2009, 15:41
  3. Tio Cesar, parabéns pela bela crônica. Adorei! Mas que igreja é essa?
    Sds,
    Vera

    Posted by Vera Varela | agosto 7, 2009, 20:16
  4. Vera: é a catedral de Florianópolis.

    Posted by Cesar Valente | agosto 8, 2009, 00:00
  5. “gente de fora”???
    “sobrenomes são esquisitos”???
    “gente que é filho e neto de desconhecidos”???
    “quem é teu pai, quem é tua mãe”???

    Cadê a patrulha da xenofobia e do bairrismo…

    Ah, se fosse eu que tivesse cometido! rsrsrs

    Posted by Ernesto São Thiago | agosto 8, 2009, 03:49
  6. Considero o seu comentario muito centrado numa conotação saudosista sem considerar que a tendencia de todas as cidade é crescer.Mas claro que nisso podemos colocar a questão do “crescer com planejamento” e não necessáriamente crescer aleatoriamente como vem ocorrendo com Florianopolis.Quanto a questão do nome das pessoas ou de se conhecer este ou aquele fulano para mim não tem relevancia nenhuma pois estes “fulanos” renomados ai que o Sr comenta o que têm feito para que a sua cidade natal possa ter estrutura para receber os outros seus “irmãos” não diferentes deles mas apenas com outros sobrenomes desconhecidos)???Será que a crítica sem participação é coerente?Florianópolis pode sim ser um exemplo a ser seguido pelos que vem desfrutar dela como morada e este exemplo e empenho pode sim começar a existir da parte daqueles seus filhos que aqui nasceram e também da parte dos “adotivos” que como eu chamam a esta cidade de LAR!

    Posted by glaci refosco | agosto 8, 2009, 11:09
  7. Glaci, isso aí não é um comentário, é (ou pretende ser) uma peça literária.

    Posted by Cesar Valente | agosto 8, 2009, 11:26

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