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Amigos

Diário da Corte nº 40 – Desaparecidos

Nem todos sabem que o jornalista manezinho Sérgio Murilo de Andrade, ex-presidente do sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e atual presidente da Federação Nacional dos Jornalistas é um cronista do cotidiano de mão cheia. De tempos em tempos ele envia, por e-mail, para os amigos, textos onde comenta aspectos curiosos e divertidos de seu dia-a-dia de exilado (por causa do cargo, passa a maior parte do tempo em Brasília).

Segundo o próprio Sérgio Murilo, os Diários da Corte são “crônicas de um manezinho perdido em Brasília”.

Leio sempre com grande prazer os Diários da Corte e hoje, ao receber o número 40, pedi a ele autorização para publicar. Achei que mais gente precisava conhecer esse cronista. Leiam e depois me contem o que acharam.

“DESAPARECIDOS

Sul x Norte – Mudei de lado. Imagino muito vagabundo dizendo: Ah, eu já sabia! Mas, explico. Sai da Asa Sul, atravessei o eixo monumental, e agora sou da Asa Norte. Já assisti longas polêmicas, sempre acompanhadas de muita cerveja – porque só se discute esse tipo de coisa sem nenhuma importância depois de alguma “motivação” – sobre qual é o melhor lado da cidade. Bares, restaurantes, supermercados, barbearias, comércio em geral, parques, clubes, escolas, zonas, tudo entra na disputa. Eu, particularmente, não vejo muita diferença. A Asa Norte tem mais barro, eu acho.

Mudei empurrado pelo governo do DF. A FENAJ funcionava em uma área estritamente residencial há quase 20 anos. Interessante é que foi inaugurada pelo governador da época, Cristovam Buarque. O atual, José Arruda, decidiu fazer um choque de ordem e preparar a cidade para os 50 anos e a copa do mundo. Na nossa área, primeiro fechou as pousadas que abrigavam os índios. Depois, os salões de beleza da pobreza. Por último, os escritórios institucionais.

Apesar dos transtornos, continuamos bem localizados, em 260 metros quadrados, logo no início da Asa Norte, mais próximo dos ministérios e Congresso Nacional. Cercados por oficinas e lojas de acessórios de carros e motos. Almoço com mecânicos, quase todos os dias. Lembram o meu pai.

A distância me tornou um infiel. Nos últimos dois meses, fui somente uma vez ao Amigão. Até então, o melhor boteco de Brasília. Por enquanto, estou buscando abrigo no Terapia, o bar mais perto da FENAJ e da minha nova casa. Tenho feito também algumas excursões à sucursal norte do Beirute (o melhor e mais antigo bar de Brasília), inaugurada recentemente. Os dois bares – o Beirute Norte e o Terapia – não têm nada de especial, além da presença significativa de mulheres. No Amigão, normalmente, a única mulher que aparece é a mulher do Rubens, o dono do bar, que vai jantar e levar o marido pra casa. Mas já percebi que no setor norte, a coisa é diferente.

Aí, descobri duas vantagens da Asa Norte: tem mais barro e mais mulheres. Mas é claro que isso também depende do ponto de vista. Tem gente que gosta de asfalto.

No Sul e no Norte, ninguém discute mais o caso Sarney. Todo mundo já o considera morto. Alguns já reclamam do mau cheiro de carne apodrecendo. Só não foi devidamente enterrado porque Lula injeta formol todos os dias no cadáver. Numa boa, se merecem. Sarney é uma das melhores expressões da república velha. De setores cartoriais e patrimonialistas da política nacional que são aliados táticos do PT. Tramam, no momento, uma aliança estratégica para o futuro governo Dilma. Deus nos livre!

No Beirute Norte, porque só se discute esse tipo de coisa sem nenhuma importância nesses lugares, um amigo perguntou, quem é Dilma. Ele tem toda razão. De onde veio? Quantas eleições disputou? Quanta militância tem no PT? O que pensa do Brasil? Ela só é candidata porque Zé Dirceu (candidato do PT) e Palocci (candidato do Lula) se lambuzaram. Ela só é candidata porque Lula quer. Por que não o Patrus ou o Tarso? Por que não o meu amigo? Por que não você?

Tatu. Foto: blog do vereador Márcio de Souza

Tatu

Resolvi escrever este DC depois que li uma nota que a Márcia me enviou sobre a morte do Tatu, o mais simpático vendedor de loterias de Fpolis (foto acima, roubada do blog do Márcio Sousa, o professor, não o vereador).

Ademar

Ademar

Quase toda semana marchava com 10 reais com ele. Várias vezes emprestei dinheiro a ele, pago depois em bilhetes. Já era um sócio. Com ele, ganhei as duas únicas vezes em sorteios: duas quadras, que me renderam menos de R$ 500, juntas. Não contabilizo a galinha assada que ganhei uma vez em uma quermesse durante uma das campanhas do Afrânio. Com vergonha, não fui ao palco receber o prêmio. Tatu era um legítimo self-made man. Parece que morreu de pneumonia, depois de ficar duas semanas internado. Não foi gripe suína? Tatu era, junto com o velho Ademar, cuja foto (acho que do Lamas) está aqui ao lado e que partiu em 2006, a cara do Mercado Público da Ilha. Figuras que enriquecem nossa vida por um tempo e depois desaparecem. Eu passarei, eles passarinho. Se o grande Quintana me permite uma inversão.

Aproveito para esclarecer, lembrado pelo Tonera, que o apelido do Tatu, diferente do que o Cacau informou, era uma referência ao anão do seriado Ilha da Fantasia, o Tatoo.

Sobre desaparecimentos, chamou minha atenção a repercussão da morte do Catatau, uma das dezenas de UFSCães – cachorros que vivem abandonados, ou livres, no campus da Universidade. Parece, o mais famoso deles. Catatau era uma referência para os estudantes, funcionários e professores da Federal de Santa Catarina. Não perdia uma manifestação, era mais assíduo que muito sindicalista. Participou ativamente do movimento passe livre. Adorava os shows da concha acústica. Era, segundo as palavras de uma funcionária, entrevistada pelo Diário Catarinense, “o melhor de nós”. Ele tem, inclusive, um blog que o identifica como Catatau Menezes – cãolunista social. Encontrava com freqüência com o Catatau, deitado na grama da pracinha da Trindade ou esperando um ônibus nos pontos, próximo à praça. Muitas vezes, normalmente domingos à noite, dividi meu lanche com ele no Quebra-Gelo. Estranhava o respeito e reverência que os funcionários da lanchonete e, principalmente, os estudantes tratavam o cachorro, que pra mim era apenas mais um bicho abandonado. Não sabia que estava diante de uma celebridade. É bom saber que além do Michael Jackson, a turma também se preocupam com o Catatau. Temos alguma chance.

Abraços abafados e secos a todos.

Sérgio.”

Discussão

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  1. Sergio, Serjão (aumentativo é uma merda), é muito bom tomar umas e outras contigo e com tua Marcia e os amigos em comum. Mas que grandíssima merda, desinformado, eu saber que TATU morreu. Não leio mais o DC (quase nunca além do barbeiro quinzenal) e nem vejo mais o JN. Quase não desço mais ao Mercado na hora do ki-suco, especialmente depois que mudei o escritório da ASA do aterro para a ASA do TRT florianopolitano. Porém,tenho a certeza de que vi depois de o trem partir, TATU vendendo um bilhete de concurso acumulado quando eu saía do dentista dia desses cedinho no centro de uma cidade que já morreu, TAMBém. Que merda, não ia muito com a cara do TATU, mas que falta phlodida que ele nos faz.

    Posted by LesPaul | agosto 5, 2009, 21:53

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