Duas notas na coluna do Roberto Azevedo, no DC, dão voz a um sujeito que pretende que a capital de Santa Catarina passe a ser chamada apenas como “Floripa”. Antes de qualquer coisa, se um dia essa idéia de jerico vingar, faço as malas e vou embora. Rasgo minha certidão de nascimento e jogo no mar o troféu Manezinho da Ilha. Pronto.
Nada tenho contra as pessoas, nascidas em outros lugares, que diante da dificuldade de pronunciar uma palavra longa como Florianópolis, abreviam para “Floripa”. Também não reclamo de manezinhos que, em busca de uma modernidade de aparência, adotam esse apelido, pelos mais diversos motivos. Mas não aceito a substituição, como propõe o famoso “quem?” na coluna do Azevedo.
Claro que há aqueles que acham que Florianópolis seria desonroso, por conter o nome do Floriano Peixoto, a quem são atribuídos assassinatos de ilhéus. Mas este é um assunto controverso, como se verá no texto que transcrevo abaixo. Em todo caso, se um dia a maioria achar que se deve mudar o nome da cidade, tudo bem, desde que não seja para “Floripa”.
O Ernesto São Thiago enviou para o Roberto Azevedo uma carta, respondendo ao teor das notas. E me enviou cópia. Tomo a liberdade de transcrever na íntegra a carta, porque tem pelo menos dois pontos importantes: também é contra “Floripa” e remexe a questão da responsabilidade de Floriano Peixoto no massacre ocorrido em Anhatomirim.
É longa, mas acho que vale a pena gastar um pouco do tempo deste domingo frio e chuvisquento, pra ler com atenção:
“Prezado Roberto Azevedo,
Minha família tem uma bela história de luta em defesa do Brasil e de Santa Catarina.
Joaquim António Santiago, meu pentavô, manezinho nascido na Ilha de Santa Catarina em 1794, foi quem, em 1819, às margens do Rio Uruguai, na condição de humilde, mas bravo, sargento do memorável Regimento Barriga Verde, realizou a prisão do general argentino Andrezito Artigas, que liderava mais de 2.000 soldados, fato que marcou o início do fim da chamada Guerra dos Artigas no contexto das Guerras Cisplatinas.
Quase 74 anos, depois um neto do sargento Joaquim, Polydoro Olavo São Thiago, meu tio-trisavô, igualmente em defesa do Brasil e, neste caso, especialmente de Santa Catarina, lideraria no Sul do nosso Estado aquela que ficou conhecida com a Revolta do Municípios, fundamental para libertar-nos da guerrilha federalista, liderada por um caudilho uruguaio, Gumercindo Saraiva, à frente de uma turba de traidores da pátria, os maragatos, que invadiu as terras catarinenses pilhando as plantações, estuprando nossas mulheres e degolando covardemente nossos homens, inclusive crianças. Pelo flanco Norte, Santa Catarina foi libertada dos federalistas sob o comando de Hercílio Luz.
Além destas barbaridades todas, os federalistas, enquanto (des)governaram Estado com a vergonhosa conivência de traidores locais, arruinaram os cofres públicos e rasgaram a nossa Primeira Constituição de 1891, que só viria a ser restaurada em 1894, quando foram expulsos daqui. Os constituintes de 1891 são aqueles que compõem aquela majestosa tela integrante do acervo da ALESC. Entre os parlamentares retratados, estão Polydoro Olavo São Thiago e meu trisavô, também igualmente Joaquim Antônio, em homenagem ao avô dele, o tal meu pentavô herói de guerra.
Após derrotarem os invasores federalistas, Hercílio Luz e Polydoro Olavo São Thiago são eleitos, respectivamente, governador e vice-governador de Santa Catarina em 1894. Porém, nenhum dos dois teria êxito contra a guerrilha sanguinária que veio do Sul – e que tantos males causou à nossa terra e à nossa gente –, sem o apoio decisivo das tropas republicanas, comandadas por Floriano Peixoto.
Para melhor ilustrar a importância de termos sido livrados dos federalistas com o apoio fundamental de Floriano Peixoto, cito o professor Evaldo Pauli, em sua Enciclopédia Simpozio, publicada na internet pela UFSC:
“Com o espírito de fronteira, ou da região Sul, os federalistas haviam passado aos métodos da degola sistemática dos chefes republicanos que tivessem a desgraça de lhes cair nas mãos. Houve degolas no Rio Grande do Sul, e também nos Estados de Santa Catarina, Paraná. Veio a desordem institucional, a autonomeação de um Governo Federal na Ilha de Santa Catarina, a degola, o empastelamento de jornais, o declínio econômico”.
E reproduz o relato de um soldado federalista, degolador:
“Alguns se ajoelham, pedem por todos os santos, choram, gritam: é uma penúria. A gente tem de amarrá-los. Outros nos injuriam e levantam a cabeça como uns danados. Uma vez a bicha (a faca), cortava tanto que depois do primeiro golpe ainda a rês (a vítima), correu um pedaço com a cabeça caída para trás. E quando a bicha não tem fio é um despropósito. Vai cortando aos poucos e a rês dá berros de pôr o mundo abaixo”.
Sobre os fuzilamentos em Anhatomirim, o professor Evaldo Pauli esclarece:
“Em abril de 1894, nos dias imediatos à vitória florianista, em Desterro, e durando ainda a atroz Revolução Federalista no interior do Continente, foram mandados ao fuzilamento, por Moreira César, cumprindo lei marcial, dezenas de federalistas, entre militares e chefes civis. Foi fuzilado o Presidente Lorena. Mas conseguiu escapar o Tte. Manuel Machado. Dentre os mais ilustres catarinenses, foi alcançado pela condenação o Barão de Batovi, ou Marechal Gama D’Eça, herói do Paraguai, – todavia um estimuilador da Revolução federalista. E dentre os que cruzaram os caminhos de Hercílio Luz foi trazido preso de Blumenau e fuzilado, Elesbão Pinto da Luz. (…) O caso de cerca de 40 fuzilamentos de federalistas, na Fortaleza da Ilha de Anhatomirim, chocou certamente a opinião pública. O fato foi explorado pelos federalistas e seus descendentes, não raro com acrescidas deformações (…).
“Os federalistas buscaram transferir para o Presidente Floriano Peixoto as culpas do fuzilamento de Anhatomirim, sobretudo depois que se trocou o nome de Desterro pelo de Florianópolis. A afirmação contém algo de paradoxal, não somente porque nunca foi provada, como ainda porque se sabe que Floriano Peixoto impedira, que os proclamadores da República fossem reprimidos sanguinolentamente, no ato mesmo quando faziam a proclamação em 15 de novembro de 1889.
“Floriano Peixoto liquidou também a Revolução Federalista, que se havia especializado em degolar seus adversários. Os obscurantistas, além de haverem levado o Estado de Santa Catarina à maior anarquia, também sonhavam paradoxalmente em restabelecer a Monarquia. Infelizmente, por ação direta de Moreira Cesar, então governante militar de Santa Catarina, – valendo-se da lei marcial, – ordenou o fuzilamento dos chefetes locais dos federalistas.
“Entretanto não há provas de que houvesse neste sentido uma ordem direta da Presidência da República. Se assim fosse, a ordem se teria repetido em outros lugares da luta contra os federalistas. Mas se sabe que políticos locais influiram na nominata dos fuzilados. É possível que, se tudo houvesse dependido apenas de Floriano Peixoto, o fuzilamento de Anhatomirim não teria acontecido (…)”.
“Entretanto, de tempos em tempos, não falta quem afirme o contrário, atribuindo sem provas ao idoso Presidente Floriano os fusilamentos”.
E finaliza magistralmente o ilustre professor:
“A liberdade de opinião, é um direito, mas cuide cada qual de não afirmar o que não possa provar adequadamente, e respeite sobretudo o nome de nossa Capital Florianópolis, pelo menos porque foi criado pela maioria política, de um tempo em que a liderança foi de grandes nomes, como Lauro Müller, Felipe Schmidt, Hercílio Luz, este o Governador inconfundível. Saiba-se também que literatos de bom gosto, como Cruz e Sousa e Afonso Taunay foram contrários ao nome Desterro, porque efetivamente era de mau gosto!, e não protestaram contra o novo nome que veio a ostentar, com formação erudita, Florianópolis, a polis de Floriano”.
De outro lado, “Floripa” é apelido dado ao município por gente que não é daqui. A maioria dos florianopolitanos, quando perguntada a sua origem, denunciada pelo sotaque de ascendência açoriana, estufa o peito para orgulhosamente dizer: “Sou de FLORIANÓPOLIS!”
Portanto, em nome da memória heróica de meus antepassados e honrado o belo e justo nome de nossa linda cidade, que merecidamente homenageia Floriano Peixoto, só me resta repudiar o monturo de asneiras atribuídas a um tal de Rubem Alves, que tive o desprazer de ler em tua prestigiada coluna hoje, nas notas Floripa (1) e (2), certamente lá constantes por dever de ofício.
Sinceramente,
Ernesto São Thiago”
Nomezinho feio esse tal de Floripa. Pior que Desterro…
Tio César, domingo d frio, chovendo e eu tenho que ouvir isso, querer trocar o nome de Florianópolis para Floripa. Me poupe. A proposito: “educador”, “professor”???? Quem é esse sujeito??? Nunca ouvir falar desse cara. MAs o pior que a grande mídia abre espaços prum “istepô” desse. Me poupe. Vou voltar pra debaixo do edredon…
Florianópolis está longe de ser um nome bonito. Mas Floripa é feio e idiota.
Com tanta coisa mais importante pra pessoa se preocupar, ainda perde tempo discutindo o nome da cidade? Sou manezinha, e como disse o Ernesto, tenho orgulho de dizer que sou de FLORIANÓPOLIS, com todo sotaque possível.
Não tenham a menor dúvida que, se algum maluco tentar mesmo mudar o nome da cidade, a grande “arma” seria querer desvincular o nome da cidade do presidente Floriano. Tá faltando coisa pra essa turma se preocupar, alguém arruma uma enxada pro cidadão.
Todos os dias chega alguém novo em FLORIANÓPOLIS, querendo mudar alguma coisa.
Pela receptividade do nosso povo, esses FORASTEIROS acham que os que aquí vivem são mesmo uns ILETRADOS, que não tem capacidade de gerir o que é melhor para a cidade que nasceram.
Esse, deve ser mais um trazido pela RBS com a missão de incutir na cabeça da nossa gente esse produto de mídia “FLORIPA”, criado pela empresa.
Se tivessemos AUTORIDADES de verdade, esses FORASTEIROS seriam chamados a se explicarem, e convidados a atravessar a ponte na direção de suas plagas.
Só FORASTEIROS chamam nossa cidade de FLORIPA!
Prezado amigo César Valente: É justo argumentar contra a mudança de nome da cidade, mas isso não pode ser feito com preconceitos e anacronismos vestidos com o uniforme da História factual, como se nessa ciência humana já não tivesse instrumentos suficientes para impedir esse tipo de armadilha. Vê-se na carta publicada em seu prestigiado site uma série de vícios, que cobrem o artigo de impropriedades.
Está claramente demarcada a diferenciação bairrista entre “gente que não é daqui” (expressão execrável brandida como argumento decisivo) e os chamados “Manezinhos” (expressão que não existia na época do penta, tri ou tetra-avô). Assim como não existiam os manezinhos da ilha , termo que exclui os florianopolitanos do continente, não existiam os federalistas como proprietários exclusivos da degola e da brutalidade política. Há relatos de sobra de episódios em que os republicanos de lenço branco também eram adeptos da degola, não apenas os federalistas. Era uma prática comum na época e não se restringia a sulistas ou uruguaios.
Floriano Peixoto, tendo ou não responsabilidade direta do massacre de Anhatomirim, traiu seus aliados, que tinham garantido sua posse depois do golpe de estado de Deodoro da Fonseca. Como se sabe, Fonseca fechou o Congresso e recebeu apoio dos governos provinciais. Mas teve de sair por força dos canhões da Armada. Floriano convulsionou o país quando deu força para os que tinham apoiado o golpe, em detrimento das oposições estaduais. Estas, assumiram o poder quando o comandante Custódio de Melo ganhou a parada, em primeira instância, no Rio de Janeiro (mais, tarde, seria derrotado).
Se o federalismo fosse apenas essa bandidagem descrita na carta, grandes líderes federalistas como Gaspar Martins ou o constitucionalista Assis Brasil seriam apenas vilões da História, quando sabemos que são importantes protagonistas da virada da Monarquia para a República. Outro vetor grave da carta é essa má vontade com o Sul e a fronteira, o que alimenta preconceitos contra uma região para celebrar o heroismo de quem não faz parte dela. São equívocos graves que atentam contra a necessária isenção que todo evento histórico deve ser tratado. Mesmo que o autor da carta se ache cheio de razões, sua argumentação totalmente equivocada acaba diluindo a força de persuasão que poderia ter.
Aviso que “não sou daqui”, mas aqui estou.
Atenciosamente
Nei Duclós
Olha, sou manezinho (nascido na Carlos Correa) e sempre que me perguntam de onde venho, sempe digo “de Floripa”. E, muito embora não goste nem um pouco do nome “Florianópolis”, discordo da mudança proposta. “Floripa” é só um apelido carinhoso dado à cidade, assim como “Rio”, “BH” ou “Porto”.
Não foi apelido carinhoso, não. Alguns até podem usá-lo, desavisadamente, com este intuito.
A idéia original era deixar de dizer “Florianópolis” mesmo, ou “a polis de Floriano”.
Coisa de viúvas tardias dos federalistas derrotados (não se conformam já na quarta geração!), agora imbuídas de “revisionismo histórico”.
Meu deus, esse blog tá virando um poço de conservadorismo, Cesar Valente!!! Vejamos: Semana passada lemos sobre a expulsão dos “vagabundos” circences das sinaleiras, sobre os favores recebidos pela Maçonaria, e agora estamos discutindo, com um baita tom xenofóbico, a validade ou não do nome Floripa. Além de brigarmos pela inocência ou não de Floriano Peixoto, que viveu em 1800 e catá-coquinho.
Onde vamos parar, desse jeito?
O adjetivo “vagabundos” é teu. Aqui se falou em tirar todo mundo do meio dos carros. Até tomei o cuidado de separar artistas de “artistas”. E não me consta que falar em público sobre ações da maçonaria que em geral são comentadas em segredo, seja uma coisa conservadora, ao contrário. A xenofobia, vá lá, é antiga mesmo. Agora, conhecer e estudar história e debater temas controversos do passado é coisa que ajuda a avançar. Só conservadores temem o reexame da história. Portanto, acho que, desse jeito, não vamos parar. Estamos caminhando. O que, tens que admitir, já é bastante coisa.
… e eu que pensava que o nome “florianópolis” fora dado em homenagem a floriano cambará … tss tss.