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Caraminholas

A propósito de maçonaria e imprensa…

Vez por outra, desde a época em que era professor da UFSC, alguém me pergunta, como quem não quer nada, se eu sou maçom. Nunca estranhei, porque conheço vários jornalistas e muitos professores que são. E, em algumas dessas vezes, diante da negativa, surge outra questão igualmente curiosa: “por que não?”

A verdade é que nunca fui convidado. E, como nunca me deparei com o fato concreto do convite, nunca pensei muito no assunto. Pra ser bem sincero, em alguns períodos mais aziagos da minha carreira, quando as portas se fechavam, o trabalho escasseava, cheguei a pensar se participar de alguma confraria não poderia, de alguma maneira, ajudar-me a tirar o pé da lama.

Mas o meu apreço pela independência intelectual e ausência de instinto gregário prevaleceram e nunca me aproximei da maçonaria. Nem nos grupos da igreja católica, onde fui criado, fiquei muito tempo, depois que me entendi como gente. Portanto é possível que, assim como não sou sócio de clube (e, tal e qual a anedota, acho que não frequentaria clubes que me aceitassem como sócio), se um dia fosse convidado, não aceitaria.

O fato é que a maçonaria tem muitos de seus membros colocados em posições de grande relevância política e social. Sempre teve. Com a chegada do século 21 alguém poderia supor que isso tivesse mudado, mas aparentemente (e até onde nos permitem ver, aqui de fora), tudo está onde sempre esteve e da forma como foi posta.

Em Santa Catarina, o fato do fundador do primeiro jornal ser um ativista maçom une historicamente – não por acaso –  as duas instituições. Hoje, em Laguna, começam as comemorações dos 178 anos de criação do O Catharinense, jornal que Jerônimo Coelho lançou em 28 de julho de 1831, e que é considerado o marco inicial da imprensa catarinense.

É natural, portanto, que os jornais, vários deles dirigidos ou orientados por maçons, tenham uma espécie de respeito reverencial pela instituição irmã (imprensa e maçonaria, em Santa Catarina, têm origem comum). O segredo, em todo caso, parece não ser mais uma condição rigorosa. Ao contrário, vê-se, aqui e ali, notícias a respeito e muitos se identificam publicamente, até informando suas funções e cargos na hierarquia das várias casas.

OS PRESENTES DO TCE

Por coincidência, um leitor chamou a minha atenção, hoje, para uma notícia que está no site da Fundação Hermon, que pertence à maçonaria. Ali se informa (coloco uma captura de tela mais abaixo) que o Tribunal de Contas do Estado doou à Fundação “um veículo, modelo Blazer, ano 2001, em excelente estado de conservação e uso”.

Na mesma notícia, abaixo da foto do carro (que de fato parece muito bom), há uma frase que cria uma situação curiosa: “O Tribunal de Contas possui normas internas para a alienação de bens inservíveis que podem ser alienados por doação para órgão ou entidades declaradas de utilidade pública e sem fins lucrativos.”

Claro, o Tribunal de Contas, que tem em seus quadros muitos maçons, jamais doaria à fundação da maçonaria, um “bem inservível” no sentido que muitos atribuem, de coisa gasta, depauperada, imprestável. Naturalmente usaram uma interpretação mais flexível: como o TCE comprou nova frota de veículos, os mais antigos podem ser descartados. Não servem mais. Mas estão, como atesta a própria Fundação, “em excelente estado de conservação e uso”.

www.fundacaohermon.com.br. Clica que amplia.

www.fundacaohermon.com.br. Clica que amplia.

E para que ninguém fique achando houve aí qualquer privilégio, é bom informar que no dia anterior (2 de março de 2009) o TCE tinha dado presente semelhante para a Irmandade Senhor dos Passos, que administra o Hospital de Caridade, beneficiando-a com outra camionete, de mesma marca, ano e modelo. O fato do presidente do TCE (que assina a portaria de doação) ser o 1º Vice Provedor do Hospital, provavelmente não teve influência na decisão, que deve ter sido aprovada por mais gente, no Tribunal. Mas, tal e qual a palavrinha “inservível”, cria uma situação igualmente curiosa.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Professor Cesar, ouvi dizer que o GAPA anda precisando de um veículo para transportar pacientes carentes com o HIV. Será que o TCE não tem alguma Blazer “inservível” para doar…

    Posted by Canarinho da Terra | julho 24, 2009, 13:08
  2. Que silêncio mais emblemático. Assunto sensível para muita gente?

    Posted by LesPaul | julho 24, 2009, 13:26
  3. Realmente, LesPaul, o silêncio é ensurdecedor.
    E por falar em TCE, a portaria número 415/2009, assinada pelo mesmo presidente José Carlos Pacheco, no dia 20 de julho, traz a exoneração do senhor Luiz Henrique Nadal.
    Luiz Henrique, que ocupava o cargo em comissão de “assessor de gabinete TC. DAS.2, é filho do ex-deputado estadual e agora conselheiro Herneus de Nadal.
    Como o pai foi da Assembléia para o TCE, será que o filho vai do TCE para a Assembléia?
    Acho que não, até porque algum blogueiro chato poderia acusar que o nobre conselheiro de promover nepotismo cruzado…

    Posted by Canarinho da Terra | julho 24, 2009, 14:26
  4. LEI No 11.168, de 05 de setembro de 1999

    Altera a Lei no 5.164, de 27 de novembro de 1975, que dispõe sobre a alienação de bens móveis inservíveis e adota outras providências.

    O GOVERNADOR DO ESTADO DE SANTA CATARINA,

    Faço saber a todos os habitantes deste Estado que a Assembléia Legislativa decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

    Art. 1o Os arts. 1o e 2o da Lei 5.164, de 27 de novembro de 1975 passam a vigorar com a seguinte redação:

    “Art. 1o A alienação de bens móveis inservíveis da Administração Direta e Indireta, Autarquias e Empresas de Economia Mista, far-se-ão por venda, permuta ou doação nos termos desta Lei.”

    Art. 2o A inservibilidade é declarada em processo regular, por despacho do Chefe da unidade a cujo patrimônio estiver vinculado o bem e aprovado respectivamente pelo Secretário de Estado, Diretor ou Superintendente e Presidente.

    ……………..

    § 5o Declara-se também inservível o bem móvel em que o modelo ou padrão não atenda mais as necessidades para o qual foi adquirido, exigindo assim a troca por outro de nova geração, que venha atender as necessidades do órgão doador.”

    Art. 3o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

    Posted by Ernesto São Thiago | julho 24, 2009, 14:42
  5. Há 3 categorias de bens inservíveis na administtração pública: ociosos, obsoletos e antieconômicos. Carros velhos costumam ser antieconômicos, e por isso, órgãos que não têm muito problema de orçamento, fazem o desfazimento (doação) quando a manutenção começa a ficar cara, lá pelos 5 anos de uso.Geralmente se busca as entidades registradas no Conselho Nacional de Assistência Social, em 2007 só tinha uma, hoje tem umas vinte em Florianópolis, incluindo o GAPA. Então, quem quer bens doados, tem que correr atrás, se cadastrar nos órgãos.E essa é a maior dificuldade, conseguir que as entidades apresentem toda a papelada certinha, sem faltar nada. Quanto ao mais, qual a diferença em doar um bem a uma entidade maçônica, católica ou espírita? Importa é que seja filantrópica, sem fins lucrativos.

    Posted by Carlos | julho 24, 2009, 14:54
  6. A questão não é a entidade ser isto ou aquilo, é a participação de administradores da entidade doadora na administração da entidade que recebe a doação.

    Posted by Cesar Valente | julho 24, 2009, 15:04
  7. Como filho de maçon, fui sondado algumas vezes para ingressar na ordem; e como bom “estúpido” ateu, educadamente recusei (o adjetivo “estúpido” se deve ao fato da maçonaria assim se referir aos ateus, estatutariamente).

    A origem lendária da maçonaria remonta à construção do templo de Salomão, cujo arquiteto teria sido o próprio deus; deste edifício restaria hoje apenas uma parede, também conhecida por “muro das lamentações” … convenhamos que um legado desses não representa lá grande coisa … mas os estúpidos, acredite, somos nós, os ateus.

    Outrossim, os dogmas, a simbologia e os rituais maçônicos são tão infantis que beiram ao ridículo, ao menos do meu ponto de vista … de fato não foram poucas as vezes em que me flagrei às gargalhadas imaginando meu pai, sisudo como poucos, soprando palavrinhas secretas no ouvido de seus irmãos e lhes deferindo beijocas ritualísticas. Creio que todo o segredo que envolve a maçonaria serve apenas para evitar que seus associados percam o respeito de seus famílares em virtude dessas infantilidades.

    O fato da maçonaria namorar com o poder a torna análoga a qualquer outra máfia de que se tem notícia … mas vou parar minhas críticas por aqui em homenagem ao meu pai, que tanto gostava desse babado que chegou a ser venerável.

    Posted by Pedro Lemos | julho 24, 2009, 15:46
  8. Cesar, se essa doação teria sido efetuada por um órgão do Estado, que não o TC, por certo este, imporia multa no valor do carro doado ao dirigente público. Por favor, doar um carro à maçonaria é um acinte ao povo catarinente. Penso que a Polícia Militar e Policia Civil e mesmo muitos Hospitais públicos tem veículos muito piores que esses doados. Com a palavra então o Ministério Público, ou alguem eleitor com uma ação popular por cima do presidente do TC. Nesse caso, oxalá, não seja o juiz tambem maçon

    Posted by Belmiro | julho 24, 2009, 16:19
  9. Agora, mesmo, é que não te convidam mais…

    Posted by jânio | julho 24, 2009, 16:37
  10. O Carlos explicou com precisão cirúrgica a questão técnico-jurídica. A operaçào é naquele prisma legal.

    O Cesar, por sua vez replicou a transfusão entre Doador e Donatário.

    Posted by MATRACATRICA | julho 24, 2009, 17:32
  11. Jânio, que bom se o risco fosse só esse…

    Posted by Cesar Valente | julho 24, 2009, 17:44
  12. Canarinho da Terra,

    O ex-Deputado e atual Conselheiro do TCE, Herneus de Nadal, foi o inventor em Santa Catarina do chamado “nepotismo cruzado”. Não sei se se chama Luiz Henrique Nadal; mas tinha um filho do então Deputado Herneus de Nadal que estava empregado como assessor no gabinete de um Desembargador, e, em troca, ele empregava o filho do dito Desembargador no seu gabinete na Assembléia. Essa mudança estratégica- do Poder Judiciário para o TCE- deve ter ocorrido devido à decisão do STF… Não há a menor dúvida de que o Conselheiro Herneus de Nadal é a pessoa certa para zelar pelas contas públicas em um Estado onde reina a cumplicidade entre as autoridades (…)! E, ainda por cima, ele tem cara boa e fala mansa…

    Posted by Otávio Di Pietro | julho 24, 2009, 20:26
  13. Olá Cesar, para atualizar as informações, o Sr. José Carlos Pacheco é atualmente o 2º Vice Provedor e o Provedor é Felipe Otávio Boabaid que se não estou enganado já foi Procurador do Estado. Na epoca da doação da Blazer para o Hospital de Caridade o Provedor era Valter Brasil Konell que também é maçon. Fraternal abraço ;)

    Posted by Rafa | julho 24, 2009, 20:34
  14. Parabéns pela coragem de criticar os intocáveis. Coisa de jornalista, algo já incomum. Um forte abraço.

    Posted by Luiz | julho 24, 2009, 22:04
  15. Rafa, obrigado pela atualização. Utilizei-me das informações constantes no site do Hospital de Caridade.

    Posted by Cesar Valente | julho 25, 2009, 09:33
  16. Afinal, quem controla o Tribunal De Contas???
    Outra, no que tem atuado o Ministério Público Especial, além é claro de acompanhar os pareceres do TCE?

    Posted by Catarina | julho 25, 2009, 18:48
  17. Otávio Di Pietro, você está equivocado. O ex deputado e agora Conselheiro do TC, Herneus, tem dois filhos: um, empregado no TC, que teve que se exonerar com o ingresso do mesmo naquele Tribunal, e um outro, empregado no gabinete do Desembargador. Se o desembargador tinha um filho no gabinete do Deputado, aí fica muito mais que evidente o tal nepotismo cruzado. Lembro que o ex deputado custou a aceitar o convite a conselheiro, e depois de convidado, levar ainda alguns dias ou meses para assumir, a preocupação do mesmo era o arrancho dos filhos e dos filhos dos outros que estavam em seu gabinete.

    Posted by Belmiro | julho 28, 2009, 16:43

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