Acho que, ao longo da vida, já falei bastante sobre O Estado, o mais antigo, jornal que teve, na carreira de tantos jornalistas, papel fundamental. No capítulo que escrevi para o livro comemorativo dos 50 anos do sindicato dos jornalistas, procurei fazer uma síntese dos principais momentos da história recente do jornal.
O livro pode ser baixado, em pdf, aqui.
Agora, a partir da constatação visual do abandono de parte do arquivo e da depredação de sua sede no Saco Grande, muita gente se mobilizou e o assunto tomou uma dimensão que talvez devesse ter tomado muitos anos atrás.
Estava um pouco relutante em voltar ao assunto, mas acho que vou dizer umas palavrinhas. Não sem antes fazer um nariz-de-cera histórico.
Comecei minha carreira profissional em O Estado. Antes mesmo de ter meu primeiro emprego com carteira assinada (por coincidência em julho de 1972, redator do Caderno 2), já publicava, desde 1970, crônicas no jornal. A partir daí, saí e entrei muitas vezes. Não posso dizer que me afastei completamente do jornal.
Em 1987, José Matusalém Comelli me chamou para ser o editor-chefe. Eu estava no Diário do Sul, em Porto Alegre. E, naturalmente, larguei tudo para poder não só atender ao pedido do dono do jornal, mas principalmente realizar o sonho de quase todo jornalista, que é chefiar uma redação.
Ao sair, no meio de uma greve, acho que em 1988 (estou longe do computador onde guardo meus arquivos), tinha tido um curso intensivo de como funcionava a cabeça do patrão e sentido na pele o jeito Comelli de administrar. Acho que muitos que passaram por lá tiveram experiência semelhante.
Praticamente todos aqueles que, ao longo dos anos, tentaram, de alguma forma, ajudar, colaborar, sentiram a dificuldade de fazer com que o Comelli tivesse, com a equipe, um relacionamento adequado. Ora parecia cansar-se prematuramente dos projetos que pouco antes autorizara com entusiasmo, ora passava repentinamente a desconfiar da capacidade de pessoas que incorporara à equipe com banda de música.
E essas mudanças de ânimo não eram precedidas, no mais das vezes, de razões claras, de alguma série de eventos que dessem alguma justificativa lógica. O que transformava a oportunidade de trabalhar em O Estado, numa experiência cheia de incertezas e de frustrações. Talvez isso fosse mais perceptível quando se ocupava uma função de maior responsabilidade, como editor, por exemplo.
Embora Comelli situe o início dos problemas de O Estado no momento em que o grupo do qual participava perdeu a concessão da TV Catarinense para a RBS (e a oportunidade de, como afiliada da Rede Globo, ter uma sustentação financeira sólida para todo o grupo), acredito que havia formas de contornar esse percalço, que não foram utilizadas ou aproveitadas.
A marca O Estado era poderosa. O jornal Diário Catarinense teve que penar bastante para se impor. Não se pode, de maneira nenhuma, atribuir apenas à chegada do concorrente o declínio do jornal. Houve um trabalho interno, Comelli à frente, de esgotar a paciência e o entusiasmo daqueles que ainda achavam que seria possível manter o jornal. E, externamente, a comunidade empresarial, fascinada com o novo e os pacotes que incluíam TV, também ajudou, cansando-se do velho jornal, que tanto os ajudou em tempos passados.
O Estado, portanto, não foi derrotado pelo Diário Catarinense. À distância, nos últimos tempo, tive a impressão que se tratava de um daqueles navios orgulhosos que foram afundados por seu próprio capitão, para que os piratas não tivessem o gostinho da abordagem e da captura.
Para fazer a entrevista que usei no artigo que está no livro citado acima, encontrei-me com Comelli na velha sala de reuniões, do prédio que agora está sendo saqueado. O ambiente era de exaustão, de cansaço. Havia poeira em todos os lugares. Consultei os exemplares antigos encadernados, circulei pelas salas, onde ainda havia gente trabalhando, mas foi uma experiência desoladora.
Por isso, não fiquei surpreso quando vi o vídeo que o Ozias colocou na rede. Triste, mas não surpreso. Creio que todos imaginavam que alguma coisa parecida poderia acontecer. É uma espécie de conseqüência lógica de um encadeamento de eventos que nunca apontou para outra direção. Ou alguém achava que, depois de tudo o que passou, na derradeira quadra de sua existência, o jornal e seus arquivos repentinamente passariam a ser tratados com o cuidado que há tempos não recebiam?
E agora, novamente, cometem erros semelhantes aos que foram cometidos em outras ocasiões. Fazem reuniões para “decidir” o destino do material que estava abandonado, antes de conversar com o Comelli. Antes mesmo de saber por que deixou a coisa chegar onde chegou. Ou de saber por que nunca procurou fazer diferente. Ou de saber, afinal, se ele quer que se faça alguma coisa. É possível que, assim como muito têm mágoas dele e de seu jeito peculiar de administrar o jornal, ele também tenha mágoas e esta seja sua forma de dizer: “vocês me jogaram no buraco e me deixaram sozinho, pois agora eu deixo o que restou do trabalho de vocês ao relento”. Ou coisa parecida.
Não era deixado de fora quando o jornal era um sucesso, não deve ser deixado de fora agora. E embora deva ser tratado com o respeito que nos merece pelas coisas boas que fez, precisa ser chamado à responsabilidade pelas decisões que postergou, que deixou de tomar ou, que a seu estilo, esqueceu e fez de conta que não era com ele.
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