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Ranzinzices

Os vendilhões do templo

Vou começar esta nota com um trecho do novo testamento, justamente aquele que diz que o dinheiro é causa de todos os males. Achei muito apropriado, a título de prolegômenos:

“Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.

Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.

Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.

Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.”

I Tim 6, 7-10

Imagens tiradas do site www.cemporcentojesus.com

Imagens tiradas do site www.cemporcentojesus.com

Pronto, transformaram Jesus em marca registrada. Agora ele é apenas um bem (material) de consumo de massa. Parece que os evangélicos, os católicos e os demais cristãos são mesmo muito frouxos. Imaginem algum espertalhão muçulmano “inventar” de comercializar produtos com a marca “100% Alá”? Provavelmente perderia as duas mãos, se não lhe acontecesse algo pior ainda aqui na terra. Porque, ao que tudo indica, o destino de todos esses, após a morte, está selado: ou acham, os crentes, que há lugares confortáveis no paraíso para a vulgarização comercial dessa “marca” em nome da qual tantos sofreram e morreram?

Esqueceram-se das cruzadas? Apagou-se da memória a inquisição? Nunca tiveram notícia da ocupação do “novo mundo” e do que foi praticado em nome de “difundir a fé”? De um e de outro lado, há motivos de sobra para tratar essa “marca” com uma certa cautela. Transformar Jesus em marca comercial da forma como essa empresa de Indaial (www.cemporcentojesus.com) está fazendo desde fevereiro, é um pouco demais.

Alguém poderá dizer que no nordeste tem o guaraná Jesus. Sim, que tem esse nome porque o proprietário da empresa que o lançou em 1920 se chamava Jesus Norberto Gomes. Hoje é engarrafado por uma empresa que também engarrafa Coca-cola e não pretende (e até onde sei nunca pretendeu) unir a marca à pregação religiosa.

Esta investida catarinense, segundo se lê no site da empresa, é feita por “cristãos da Igreja Pentecostal Primitiva do Caminho, liderada pelo abençoado Pastor Élio na Cidade de Indaial/SC”. E o objetivo é claramente usar a fé como impulsionadora de negócios (a igreja que recomendar os produtos levará uma graninha como pagamento pelo “apoio”):

“Este propósito nasceu da obrigação que todo cristão tem para com Deus. Por isso resolvemos destinar 20% do faturamento líquido da empresa às obras sociais e ao Reino de Deus, onde 10% será destinado para as Igrejas que nos apoiam e 10% para as obras sociais que nós (100% Jesus) acreditamos estar precisando dos recursos. Que este propósito seja aceito por Deus pai e nossos amigos e parceiros e que continue abençoando esta marca hoje, amanhã e sempre.”

O numeroso rebanho cristão não deveria mais servir tão docilmente como massa de manobra: já há algum tempo elege cegamente quem os pastores recomendam. Criaram, em praticamente todos os legislativos, bancadas evangélicas que, em sua maioria, não têm ajudado a moralizar a vida pública. Será que agora vão começar a consumir apenas os produtos que tenham o selo de aprovação (remunerada com o vil metal) dos bispos?

Se não fosse por mais nada, seria concorrência desleal. Algo com que as associações comerciais e os órgãos de defesa do consumidor e da livre concorrência (como o Cade), deveriam se preocupar. A menos que o Brasil já seja um Estado fundamentalista (como o Irã) ou dirigido por fanáticos (como a Venezuela) e ninguém tenha nos avisado.

PROPAGANDA ENGANOSA

Antes que me esqueça: não dá pra levar a sério um empreendimento que no rótulo fala em “100% Jesus” e nas letrinhas miúdas informa que apenas 20% do faturamento líquido irá para a caridade e para a remuneração dos pastores/garotos-propaganda. O rótulo, em verdade em verdade vos digo, deveria ser “20% Jesus (descontados os impostos)”.

Discussão

Comentários estão desativados para este post.

  1. Ali as coisas se mostram como são na realidade, uma verdadeira cizânia, e uma verdadeira vergonha nacional. Povo, é o congresso nacional, seus representantes, e os funcionários que eles colocaram lá, que estão roubando, literalmente, o caixa da republica. Se fosse você já estaria preso. Eles? Estão acima da lei, são a lei.

    Essa roda gira e toda a mídia está otimista. Quisera ver o povo brasileiro ser tão bravo, e corajoso, como o povo iraniano. Esta joça já estaria abaixo. (Nathal)

    Posted by Lucia Maria | junho 27, 2009, 12:20
  2. Ali as coisas se mostram como são na realidade, uma verdadeira cizânia, e uma verdadeira vergonha nacional. Povo, é o congresso nacional, seus representantes, e os funcionários que eles colocaram lá, que estão roubando, literalmente, o caixa da republica. Se fosse você já estaria preso. Eles? Estão acima da lei, são a lei.

    Essa roda gira e toda a mídia está otimista. Quisera ver o povo brasileiro ser tão bravo, e corajoso, como o povo iraniano. Esta joça já estaria abaixo. (Nathal)
    Oops…forgot to say great post! Looking forward to your next one.

    Posted by Por: Lucia Maria | junho 27, 2009, 12:53
  3. Mas Cesar: religião é dinheiro, é poder, é corrupção! E nem é preciso recorrer à malícia teológica para provar essa tese: basta abrires a carteira e voilà! O que se lê em cada cédula de real senão “deus seja louvado”?

    E quer saber o pior: tal “empresa” tem tudo para dar certo, a começar pela imunidade tributária, prevista na Constituição, que garante ao culto que lhe dá suporte a isenção de impostos sobre “bens, renda e serviços”.

    Quanto à reação cristã, o melhor é deixar como está: toda vez que os crentes, cristãos ou não, resolvem rugir, eles terminam por trocar os pés pelas mãos, queimando uns, apedrejando outros, e por aí vai. Antes idiotas que assassinos.

    Posted by Pedro | junho 27, 2009, 13:43
  4. Por acaso aquela palavra “evangélio” não seria por causa do abençoado Pastor Élio?
    Mensagem subliminar talvez…

    Posted by Roberto Haruo | junho 27, 2009, 13:51
  5. No Evangelho de Mateus (Cap. 21, 12-17) Jesus expulsa do templo os vendilhões, dizendo: “A minha casa será chamada casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões”. Claro que não somos ingênuos para deixar de acreditar que a colonização do Brasil, a partir de 1500, começou sob a égide da Burguesia – Espada – Cruz.A igreja católica fazia parte desta tríplice aliança que tinha o acumulo de capital produto das nossas riquezas.
    Agora, daí usar o nome de Jesus para tirar proveito econômico destinando 20% dos lucros para as causas do Reino de Deus, é no mínimo um estelionato religioso. É por essa e outras que a Igreja Universal tem uma riqueza “retirada” das doações, chegando a manter a Record com todo o seu poder econômico, político e religioso. Ah! A Igreja Católica em Santa Catarina é a maior detentora de terras doadas ao longo da história, até mesmo no Brasil.

    Posted by Mofas com a Pomba na Balaia | junho 27, 2009, 15:37
  6. 100 % fdp

    Posted by amilton alexandre | junho 28, 2009, 02:15
  7. infelizmente carregamos uma herança enraizada nos tempos bíblicos mais antigo onde o homem para ter uma lei respeitada teve que usar a figura de um deus provedor e sumariamente penalisador. Hoje com todo o avanço da ciência isso é ainda muito forte em nossa sociedade, onde as pessoas não percebem o quanto desta tática ainda é utilizada tanto nas religiões quanto na política.
    A grife “Jesus Cristo” sempre foi utilizada, mas nunca chocou tanto quanto vê-la estampada numa reles garrafa pet.
    Na minha caolha opinião, olhar pra esses rótulos é como olhar no espelho uma velha ruga de expressão.
    O que faz o poder das religiões é o povo que as alimenta, assim como na política, o que faz o poder do político é o povo que ele (o político)consome. O resto é fantasia.

    Posted by Suzana | junho 28, 2009, 10:52
  8. Prá você ver: mais de dois mil anos e o mundo ainda cheio de otários. Aliás, parece ser o índice que mais cresce…

    Posted by jânio | junho 28, 2009, 21:19
  9. Bom dia, Cesar!
    Esta é uma matéria relevante. A picaretagem, em nome da liberdade religiosa, tomou contra do país. E não é de agora, logicamente.
    Mesmo após a proclamação da República, onde, teoricamente, foi assegurada a laicidade (que implica separação) estatal, após ferrenha luta de Rui Barbosa, Demétrio Ribeiro e outros tantos, a Igreja Católica manteve alianças espúrias com governantes das mais várias correntes ideológicas (?). A sangria dos cofres públicos (de dinheiro e de terenos doados às Igrejas católicas, evangélicas e de outros cultos) é algo repugnante, contra o que eu estou a bater-me na Justiça, utilizando-me de ações populares, onde já fui chamado de tudo.
    Tenho dito que a “matéria-prima” Jesus Cristo nunca foi tão explorada, sob o manto protetor de políticos salafrários, que até no preâmbulo da Constituição Federal incluiram, demagogicamente (por que de nada vale tal inclusão, como já decidiu o STF) invocação à proteção da hipótese “Deus”.
    Em suma: por causa da liberdade religiosa sem limites (e nenhuma outra liberdade é absoluta), estamos vivendo tempos lamentáveis de exploração da credulidade pública, estelionatos religiosos e eleitorais, uma esbórnia só e, com raras exceções, o Ministério Público nada faz, em defesa dos interesses difusos.
    Já propus 4 ações populares (uma delas contra o emprego de 12 milhões de reais, esbulhados dos cofres públicos, na Catedral de Florianópolis)e vou continuar minha luta solitária, enquanto tiver forças, para fazer valer a vedação constitucional prevista no inciso I, do art. 19, mesmo que continuem a me chamar debochadamente de “Paladino da Justiça”, de litigante de má-fé, de grosso, de bilioso, de rastaquera (porque também não poupo “elogios” aos safados, nas minhas petições) e a acusar-me de visar, tão somente, honorários advocatícos.
    Prefiro ser acusado de falta de urbanidade (que, aliás, nenhum ladrão dos cofres públicos merece) do que praticar a fraude.
    Pasme, caro blogueiro: a Igreja Católica, na ação contra a aplicação de dinheiro da União, Estado e Município na Catedral de Florianópolis, teve o descaramento de negar que é proprietária do templo, mesmo com o fato provado por certidão do Cartório da Kyrana Lacerda.
    Depois de tal disparate, tudo mais pode ser esperado, não te parece?
    Razão tem o Mosquito, quando desce o cacete, sem dó nem piedade, nessa corja de falsários, embusteiros (que religião passa de embuste?) e quejandos.
    A coisa pública (Res publica) vem sendo cada vez mais privatizada, impunemente. Já está na hora de nova constituição ser debatida, com vistas a reforçar as vedações constitucionais e as responsabilidades dos que lidam com bens públicos.
    Do jeito que as coisas estão caminhando, de outro lado, evoluiremos para uma “guerra santa”, em futuro breve. Católicos contra evangélicos, com espíritas, muçulmanos, judeus e budistas de permeio e com a Maçonaria presenciando tudo, louca de satisfeita. O mercado da fé é algo muito volumoso e disputado e a ganância dos “religiosos” não vem sendo devidamente contida. O lucro será o estopim do conflito. Pode apostar. Aleluia!

    Posted by SANTOS, Izidoro Azevedo dos ... | junho 29, 2009, 09:32
  10. E o que dizer da nossa seleção, hein?
    Ontem após a vitória, todos exibiam camisas com mensagens evangélicas, cobriram as camisetas da seleção com agradecimentos a Jesus. Será que é este Jesus que está pagando os salários milionários destes atletas de Cristo?
    É uma vergonha.

    Posted by jailson | junho 29, 2009, 09:33
  11. Olá, caro amigo, colega e confrade Cesar.
    Gostei de ter sido convidado pelo Gastão Cassel, nosso irmão, a dar uma olhada neste texto e descobrir que você está vivíssimo para a moderna mídia. Parabéns!
    Como espírita, que sou, apenas apreciaria muito se alguém chegasse para o dono da marca e lhe dissesse: Para que não ignores, você será chamado a responder por esta utilização indevida do santo nome de nosso grande mestre Jesus. Independente de ação judicial ou coisa que o valha, você responderá por isso. Espere e verá.

    Posted by Homero Milton Franco | junho 29, 2009, 13:36
  12. Ave, César!
    Falar de religião, de futebol e dos partidos políticos (eu disse partidos políticos, não de política)é complicado.
    Penso que, nesse caso, não se trata de religião, mas de oportunismo financeiro réles, barato e vulgar, daqueles que até o mais simples dos manés entenderia. Mas, assim como a barriga manda as pernas, a ocasião faz o ladrão e a fome e a necessidade maior fazem acreditar em qualquer coisa que se apresente como a salvação a quem esteja “na pior”. E o povo, de modo geral, está sempre na pior. E os oportunistas, de plantão. Daí o sucesso. Sempre provisório, basta ver como mudam de lugar essas arapucas de ocasião. Isso aí não é religião, que significa religação do homem consigo mesmo, com suas origens, seu destino, o sentido de sua vida e o modo mais apropriado de conviver, para os que pensam nesses assuntos. Esse Jesus 100%, essas jornadas da prosperidade, que dão prêmios a pessoas prévia e cuidadosamente selecionadas (que depois darão seu testemunho), não passam de correntes, de pirâmides, daquelas que prometem, se a gente mandar cem reais para dez convidadados, no ano de dois mil e nunca receberá trocentos trilhões. E isso é estelionato. É crime e não religião.
    Um dia vi e ouvi na televisão um desses pastores/profetas pedir, com a mesma impostação de voz com que clamava aos céus, pedir um pouco mais de retorno ao operador da mesa de som que não correspondia ao seu interesseiro e monetário entusiasmo. E como impostava bem a voz, o impostor! abr, waltamir

    Posted by waltamir | junho 30, 2009, 00:07
  13. Será que a Madonna é 100% Jesus?

    Pra um daquele tipo até eu ajoelho e rezo…

    Posted by Lia¬¬ | junho 30, 2009, 19:22

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