Tem um debate ocorrendo em vários blogs Brasil afora, do qual tenho procurado ficar longe. Primeiro, porque tal como no futebol, não acompanho a política com entusiasmo de torcedor. Não defendo (nem acuso) fanaticamente ninguém nem nenhuma posição, justamente por sei, há muito tempo, que a política é como uma nuvem. Tudo o que hoje parece de um jeito, daqui a pouco já está de outra forma.
Os torcedores sofrem muito, eu sei. Tanto no futebol quanto na política. Primeiro porque, por mais entusiasmados que sejam, as decisões não dependem deles. São os cartolas, nos dois casos, que fazem e desfazem, no mais das vezes se lixando para o que pensam os fiéis e fanáticos torcedores. Mesmo assim, há gente, tanto no futebol quanto na política, que defende posições, partidos, políticos e times, como se estivesse defendendo a honra intocada de sua própria mãe.
Portanto, não dá pra discutir — nem futebol, nem política — com quem está muito envolvido, emocionalmente envolvido, em alguma causa. Por isso fico assistindo de longe essa discusão sobre a tal mídia golpista e a “campanha” que os media estariam fazendo (guiados pela “zelite”) contra quem está no poder.
SABÍAMOS TODOS. E DAÍ?
Um dos elementos recentes desse debate é a reprodução de uma página da Veja nº 923, de 14 de maio de 1986 (acima). Ali, numa curta reportagem sob a cartola “Empreguismo”, ficamos sabendo que já naquela época havia atos secretos no Congresso, que já naquela época havia trens da alegria (criação de cargos efetivos para preenchimento sem concurso), que já naquela época havia nepotismo (para abrir uma ampliação que facilite a leitura, clique sobre a imagem).
Se entendi direito, um dos blogs que trouxe o assunto mostrava que a atual “campanha” de desmoralização do Congresso, movida pelos media, era mesmo uma coisa de ocasião, porque desde 1986 se sabia disso tudo e só agora o assunto veio à baila.
Aí sou obrigado a confessar minha ignorância e recolher rapidamente meu time. Porque, pra mim, se a revista, quando Sarney era presidente da República (primeiro presidente civil depois de 20 anos de ditadura) mostrou que a filha dele era beneficiária de um esquemão de simpatia e boa vontade, significa que não começou a fazer isso só agora, porque um pobre e esforçado sindicalista tornou-se presidente.
E o fato dos escândalos atuais terem sido noticiados sem muito sucesso de público ou de crítica, décadas atrás, não os torna menos escandalosos. Todos sabíamos, mas a coisa não rendia. Saía uma nota aqui, outra acolá e nada. Ninguém ia para a tribuna nem pra reclamar, nem pra divulgar. Muito menos apurar (o Ministério Público é coisa recente, essa preocupação com “transparência”, recentíssima). Aí, é claro, alguns chefes de reportagem devem ter achado que tinham coisas mais importantes pra tratar, que interessassem mais aos leitores e aquilo que todos sabíamos acabou sendo pouco explorado e divulgado.
Mas, só por causa desse cochilo anterior, não devemos mostrar agora que o rei está nu? Ou que, embaixo da capa de veludo bordado com fio de ouro, há uma podridão que exala cheiro insuportável?
Juro que não consigo entender. Porque, para mim, quando alguém aparece de bunda de fora nos media, é porque abaixou as calças. A melhor maneira de não ver seu luminoso (e em geral feioso) derrière estampado nas folhas, é não andar com ele à mostra, fazendo negócios e aceitando vantagens que, mais dia, menos dia, vão acabar interessando o eleitor/contribuinte.
E nem venham com aquela velha história que só se interessam pelos malfeitos do LHS as viúvas do Amin, ou que só desconfiam do Lula as amantes do Serra, porque é crescente o número de eleitores/contribuintes que procura exercer seus deveres cívicos com maior critério. E acompanhar criticamente a atuação daqueles que administram nosso dinheiro (e, em alguma medida, usufruem dele), é o mínimo que podemos fazer.
Claro que, para as torcidas organizadas, isso que acabei de falar não faz o menor sentido. Mas acredito que os leitores que têm a cabeça no lugar me entenderam.
Quase que a filha do Sarney é eleita Presidenta sob os auspícios do JKB.
Graças a grana descoberta no escritório do irmão do Beto Carreiro que ela não é presidenta.