O Ozias Deodato Alves Jr., do jornal Biguaçu em Foco, gravou dois vídeos sobre a deterioração física final do prédio do jornal O Estado e de parte de seus arquivos. Pra quem trabalhou lá, são cenas doloridas. O primeiro vídeo tem quase dez minutos e mostra principalmente o estado de abandono do que ainda restou do arquivo fotográfico.
O texto que o acompanha é o seguinte:
“Os arquivos do jornal O Estado, com fotos, slides e documentos da história de Santa Catarina das últimas nove décadas, estão prestes a ir para a lata do lixo ou, na melhor das hipóteses, virar lixo reciclado.
É o que denuncia João França, 63, residente em Biguaçu e ex-técnico da rotativa do jornal, que esteve na sede do jornal, no bairro Saco Grande, Florianópolis, na manhã da última sexta-feira (19/06/2009).
Segundo constatou, vândalos e catadores de reciclados estão saqueando a antiga sede do jornal em busca de metais, papéis e outros produtos para vender à reciclagem.Dá vontade de chorar. Isso dói, dói muito. É a história de nosso estado virando lixo, resume França envolto em lágrimas lembrando que aquela ruína foi o que restou dos tempos áureos de O Estado, quando foi o maior jornal de Santa Catarina nas décadas de 1970 e 1980.
O jornal faliu há dois anos e sua sede está literalmente jogada ao Deus dará. Afinal, as paredes dos fundos da sede não existem mais. Qualquer um pode entrar sem problema algum e as milhares de fotos, negativos de filmes, móveis, equipamentos metálicos são uma tentação aos catadores, quando não a vândalos.
Gravação: Jornal Biguaçu em Foco. Site: www.jbfoco.com.br. Data: Sexta, 19 de junho de 2009.”
E o segundo vídeo, um pouco mais curto, com cerca de seis minutos, mostra mais cenas do prédio abandonado, com o que restou da rotativa. Uma espécie de passeio macabro.
EM TEMPO
Depois de ter feito a nota acima (a partir de uma dica da Marli Henicka), vi que no tuíter o papo sobre os vídeos já estava rolando há mais tempo, via Clóvis Geyer, Dauro Veras, Marcos Castiel, Frank Maia e Alexandre Gonçalves. Todos, é claro, espantados com a visão daquilo que a gente só imaginava.
E, daqueles blogs que visitei nesta passada noturna, vi que o assunto está também no DVeras em Rede, no Bonassoli e no Coluna Extra.
Independentemente do péssimo serviço que “O Estado” prestou ao povo catarinense quando este a serviço da propaganda federalista no entre o fim do século XIX e o início do século XX, é realmente lamentável o desleixo para com a nossa história por parte de seus ex-proprietários, dos historiadores catarinenses e das autoridades públicas da área, todos indiferentes ao perecimento desta preciosa documentação.
No relato apenas um dado me parece equivocado, pois o jornal tem bem mais do que 90 anos.
O acervo anterior a este período estaria lá mesmo, estaria em outro local ou perdeu-se?
Pergunto isto pois contempla um período especialmente importante para nossa história política, mesmo que o que tenha sido publicado em “O Estado”, à época, não deva ser levado ao pé da letra…
A parte principal dos arquivos (os exemplares encadernados), ao que parece, estão com os Petrelli (RIC/Record). O arquivo fotográfico foi sendo dilapidado ao longo dos últimos anos e não me admiraria saber que só sobrou aquilo que se vê nas imagens. Em todo caso, se tiver algum repórter na casa, seria a hora de perguntar ao Comelli (ou ao filho dele, que dirige a Guarujá) o que foi feito dos arquivos do jornal.
Será que os alunos do curso de História da UFSC, a Fundação Franklin Cascaes, a FCC (Biblioteca Estadual) e o IHGSC não poderiam unir esforços em favor da preservação deste nosso patrimônio histórico, nem que seja para mantê-lo apenas em meio digital e disponível integralmente para pesquisas antes que se perca todo? Seria formidável se o acervo digitalizado, inteirinho, fosse disponibilizado no Google Books por exemplo, como se dá com o Jornal de Notícias, de Portugal.
Ave, César!
Parabéns ao jornal (O Foco) de Biguaçu! Uma lição para Florianópolis!
A reportagem é um primor, a começar pelo manezês que aflora
nas interjeições de desalento e desconsolo diante dessa perda irreparável..
Despertou-me a atenção também a observação do Sr. França: “O Comelli…. era uma pessoa justa.” Será que foi por isso que faliu?
Lembro como se fosse hoje das primeiras confidências sobre o então menino/fedelho e comportado “estadinho” que me fez seu editor-chefe, atual administrador deste blog.
E uma interrogação: Não há dúvida que naquele local “varado e desengradado” no dizer do manezinho, se encontra grande parte da história do nosso Estado e da nossa Cidade.
O governo tem secretaria de educação, cultura e etc… Mas… teria interesse na preservação? Ou a preservação desse acervo contraria interesses da empresa de comunicação que sucedeu o Sr. Comelli e que dá suporte ao “status quo”?
E mais outra indagação: esta nova empresa, pelo que se vê, certamente, ao cedo, não irá falir. Por ser mais competente? Ou por ser menos justa? (quanto ao conceito de justiça, perguntem ao Sr. França, da reportagem.)
Cesar, obviamente não é o Jornal de Notícias e sim um outro, que remonta ao século XVIII, que não lembro o nome agora, talvez da imprensa oficial portuguesa.
O Comelli é um irresponsável. Deveria ser considerado persona non grata pela Câmara Municipal. Numa cidade sem política cultural é de se esperar tanto descaso.
E a casa da memória serve para que?
Com a palavra o Pres. da Franklin Cascaes Rodolfo Pinto da Luz.
Engraçado, a RBS não fez nenhuma pauta sobre o caso.
A título de contribuição, uma matéria bem longa, de 2005, sobre a digitalização de todo o acervo do Jornal do Commercio, de Pernambuco:
JORNAL DO COMMERCIO
CADERNO C
MEMÓRIA
Arquivo do JC será digitalizado
Acervo histórico com 86 anos de jornais vai do papel para páginas da internet e para CDs, facilitando resgate da memória pernambucana
Pode ser lida neste link: http://alturl.com/p9xj
É um verdadeiro filme de terror, é muita tristeza, ver a história, o trabalho de tantos colegas, jogado no lixo.
Fica a pergunta a Sra. Silvia Hoepcke, que creio tem mais juizo que as duas fugiras que administraram o mais “ANTIGO”,Dona Silvia, pelo amor de Deus, use sua fundaçao cultural “Hoepcke”, pra salvar o que restou da história deste estado, pelo amor de Deus.
Creio que se convocar, nao vai faltar antigos funcionarios como voluntarios a se dedicar a esta causa.
Nao trabalhei lá, mas tive muitos colegas Fotojornalistas que trabalharam lá, fizeram história em suas carreiras na imprensa Catarinense e sinto que tudo isto é um profundo desrespeito a estas pessoas e ao povo desta terra.
Só me resta repetir o que foi escrito no texto, além de ter sido repetido várias vezes nos vídeos. Tristeza.
Abraços
Antes de criticar vcs deveriam checar informações.Foi oferecido pelo Instituto Hoepcke todo tipo de ajuda p/ preservar o material, desde que o Instituto ficasse com a guarda do mesmo. O Instituto tem funcionários treinados p/ isso e o acesso ao público é permitido.Mas, o ex proprietário do jornal não aceitou.
Aliás, a estrutura física d’O EStado já está no chão. Outra coisa: a cidade comenta que o empresário José Matusálem de Carvalho Comelli retornou à carceragem da Polícia Federal por conta daqueles rolos de descontar INSS dos funcionários e não repassar o dim-dim prá previdência. Essa segunda (ou seria terceira??) passagem pelos porões da Federal teria durado pouco. Com bons (e caros) advogados o ex-dono d’O Estado ficou pouco tempo no xadrez.
Trabalhei em três oportunidades em O Estado, a última já na fase falimentar, e não posso me conformar com essa situação. Conhecia o estado de deteriorização do prédio, mas jamais imaginei que a memória fotográfica estivesse ali. Vamos cruzar os braços diante disso?
Sem comentários.
PJ
Estive lá. Me disse o vigia que 25 arquivos foram levados para a tal fundação hoepcke. O resto, que realmente importava, foi sendo “levado” aos poucos nos últimos anos pelos jornalistas e colecionadores, é claro. Agora me vem o França dizer que o “Comelli é justo”. Boa piada.
A Record tem seus motivos particulares para não tocar no assunto do descaso com a história de SC. A RBS, certamente não vai “bater” em um morto. Ao que me parece há uma regra do jogo.
Um crime. É a história de Santa Catarina – e do jornalismo(?), também – literalmente sendo jogada na lata do lixo. Parabéns ao Ozias. Ele foi rápido. Eu mesmo passei sábado por ali e já era possível perceber sinais de destruição do prédio principal – atrás tinha outro. Sinceramente, não encontro adjetivos para definir tudo isso. Alguém precisa ser responsabilizado por isso.
O Moacir Pereira, em seu blog, também divulgou o triste fato hoje, postando link para o blog do Cesar.
O QUE ACABO QUE VER É SIMPLESMENTE DEPLORÁVEL. DR. ADERBAL A FALTA QUE FAZ. O MAIS ANTIGO DIÁRIO DE SANTA CATARINA SER DEVASSADO, ACHINCALHADO E EXPOSTO A VANDALOS E CATADORES DE PAPEL. CONHECI AQUELA SEDE, E A DA CONSELHEIRO MAFRA, E FIQUEI MUITO TRISTE COM A REPORTAGEM. A A VELHA HISTÓRIA TRISTE MAIS REAL – FLORIPA É A TERRA DO JÁ TEVE – UMA VERDADEIRA VERGONHA.